terça-feira, 10 de abril de 2018

Ar "petroquimicado"

Nosso vizinho cospe fogo no ar. E não é um dragão. Estamos longe de uma terra do nunca. Quem solta fogo pelas narinas é a indústria petroquímica de Capuava, entre Mauá e Santo André, no ABC Paulista. Presenciei uma noite em que ela resolveu também derramar fogo. E então, muitos de nós, professores, não conseguimos seguir com as aulas. Vários estudantes quiseram debandar apavorados. Irônica como típica sagitariana, dizia que se era para escapulir, que fosse a três bairros de distância. Porque o ar "petroquimicado" já nos persegue há tempos nesta região. E segundo estudos da USP, compartilhados pela professora da ciências, esta poluição específica colabora com distúrbios da tireoide. Mas quem salva as glândulas da periferia? Nosso governo espoliando até nossas calças é que não é. Onde estão os ecochatos nessas horas? Na periferia eles são urgentes. Mas deixando à parte o tom panfletário dessa crônica, na noite em que a petroquímica saiu de sua rotina, assustando amigos e parceiros de trabalho, fui muito atriz pra seguir com a aula. E a petroquímica emitia sons assustadores, como um animal em cativeiro que ruge. Quando cheguei à sala de professores, questionando ainda calma os sons, meus colegas de escola já estavam tão assustados quanto os alunos. Lembrei da tireoide perdida da minha prima, na mesma cidade. Este ar "petroquimicado" segue contaminando até o Campestre, já perto de São Caetano? Na minha vizinhança não é o ar o mais pesado e sim, o solo, na Vila Carioca, também contaminado por indústrias, já próximo ao Ipiranga, que se bobear ganharam até isenção fiscal pra entregar este presente de grego à comunidade. Quem está por nós nas quebradas? Quando denunciaram o solo problemático dali, perto do Heliópolis, já na capital paulista, nem todos puderam desocupar suas moradias. Quem nos preserva da gente? Que evoluir tecnologicamente desconsiderando a comunidade é também um risco.
No dia seguinte, o fogo do céu da petroquímica estava tímido. E a contaminação silenciosa segue... Quem nos preserva deste avanço tecnológico ligeiramente destruidor? No meio da semana, não dou aula no Capuava. Mas e quem dorme entre o fogo e a contaminação? Parafraseando Elza Soares, a carne pobre é a mais barata do mercado.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Retiros de TO e suas reminiscências

Este ano fui conhecer uma Bahia que ainda não tinha noção: a periférica Itinga, além de estudar e praticar teatro do oprimido (TO) nela. Levei meses pra escrever sobre, um pouco devido aos processos artístico-pedagógicos demorarem a decantar em nós. E outro tanto devido ao "bode" de se perceber semi nova pra dormir em alojamento estudantil. É, a aventureira "chovem" sagitariana com síndrome de Peter Pan tem resistido a partir do meu universo, mas uma hora aconteceria: não tem muita escapatória.
Foi um feriado intenso, como não podia deixar de ser fazendo e ao mesmo tempo estudando teatro do oprimido, conhecendo chilenos, argentinos e uruguaios usando TO contra exploração das mulheres, poluição e apropriação duma baía tradicional, pequena pela indústria de gás, entre outros tantos modos de se por em cena politicamente.
Também mexeu muito com minha porção ancestral pouco estudada oficialmente ver os jovens bahianos usando TO para resgatar a memória africana, aplicar jogos no CASE, onde jovens cumprem medidas sócio educativas, ouvir estas jovens com suas poesias "tapa na cara", levar livro do educador delas como uma amostra dos saraus periféricos baianos, visitar quilombo, ver a dança das Bijuzeiras de Areia Branca, ouvir os quilombolas tocarem, descobrir o doce mugunzá e acompanhar por dias um espaço teatral periférico resistente abrindo espaço para cultura popular e tradição oral.
A própria troca entre os participantes me fez descobrir uma espécie de teatro educativo (será que estou traduzindo direito?), poesia no ônibus, outros modos de explorar TO contra violência doméstica e como trocar os protestos pelo TO no confronto com policiais...
É de uma riqueza absurda por a Rede Sem Fronteiras de Teatro do Oprimido pra trocar vivências! Comer juntos, se conhecer mais na fila do banho frio, rir na caminhada pro quilombo Quingoma de Dentro, saber mais da realidade machista e racista pelas parceiras de práticas na van entre o alojamento e o CASE... Enfim, uma nova Bahia, arte educadores e atores foram se descortinando devagarzinho.
Foi ainda incrível saber mais de Moçambique, trocar cartas com o ator de lá na vivência de teatro jornal (e mesmo conhecer outra forma de realizar esta ramificação de TO), aprender música moçambicana e meses depois aplicar a técnica adaptada com meus alunos do EJA, o Ensino de Jovens e Adultos.
As pessoas que conhecemos são tão talentosas, generosas, didáticas e lúdicas que eu e uma colega da grande São Paulo chegamos a improvisar uma cena contra opressão das mães com os colegas da Argentina sem se entender totalmente através das falas, até porque no palco não dava para dar texto devagar para as pessoas entenderem.
Nas rodas de troca, jogos e partilha exercitamos a paciência, escuta e controle da ansiedade, já que nem sempre os hermanos acompanhavam o que dizíamos (e nem nós entendíamos totalmente quando embalavam em debates, memórias, vídeos...).
Os únicos senão é que tive mais cansaço que o previsto e volta e meia, entre uma vivência de butô, exibição de vídeos e jogos me rendia à bendita cama inflável emprestada pelo amigo do meu namorado.
Quase toda noite tive barato de dormir meia boca, acordar com a cantoria juvenil da madrugada e pelas manhãs também não me conformava com o pessoal do Chile a todo vapor para jogar e improvisar logo cedo, enquanto ainda tentava despertar. Depois soube que os hermanos já estavam há meses mochilando na estrada, então claro que tinham um ânimo que eu, na batida de dois trabalhos, uma na educação informal, outro na formal e nesta fase SEMI (semi nova, semi magra e semi bem sucedida) não dava conta mesmo.
Fomos improvisando entre uma demora de café, overdose de programação (como fazer a escolha de Sofia entre tantas vivências incríveis com pessoas de experiências tão múltiplas?) e sono atrasado. Mas o pessoal de teatro é bom nisso não? No finzinho acabei ganhando uma noite na pousada de amigas do interior de São Paulo, com as quais estudei TO específico para a mulherada no Laboratório Madalenas um mês depois, no feriado de outubro, em Campinas. Um dia para lá de especial, em que entendi no meu corpo que as mulheres antes de nós tinham um destino mulher, não conseguiam fugir muito dele e também de onde vem esta eterna insatisfação de que nunca está bom - provavelmente da avó materna, que perdi aos 3 ou 4 anos, não queria casar, mas acabou assumindo as sobrinhas quando a irmã morreu e vivendo com meu avô, com quem convivi mais. Marcante! A expectativa é replicar fechando outras oficinas fora de Sampa com amiga do curso de doula.
Além disso tudo também matei saudade do formador em TO que tinha começado estudar o que? Há uns três anos atrás numa das ocupações do centro histórico paulistano. Porém na época estava exaurida de trabalhar dez horas como professora de biblioteca num colégio de freiras, mais 4 horas diárias de trânsito... Fomos encerrar este processo imersivo em TO ano passado, em Santo André mesmo, onde meu diploma foi pro brejo na troca de
gestão. Graças às contações, projetos e frelas anuais de jornalismo fui caçar meu certificado lá em terras bahianas e mergulhar na experiência em TO na periferia de Salvador. Achei que as periferias são todas iguais. Itinga me lembrava o Heliópolis. Espero "contaminar" outros estudantes com TO: por hora devido à limitação de tempo, recurso, frequência, entre outras, tenho improvisado com eles cenas imaginando e teatralizando opressões que vivem nos ônibus, hospital em que encaram tantos desrespeitos aos seus direitos. Esperamos evoluir no próximo ano com mais aulas e atuação pela 1a vez em centro público - colégio já pensado para o público da EJA. Enquanto atuamos nas EMEIFs, a Educação de Jovens e Adultos ainda é "ocupação" nos colégios - volta e meia sentimos como se fizessem o favor de nos acolher ou oferecer material, mas somos todos alunos da rede de educação municipal nesta região do ABC. Mas simbora que a batalha continua!

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Coração Multiétnico

Sempre brinco que minha mente é budista (são os livros e retiros em que mais me encontro e me ajudam com a ansiedade), o coração "macumbeiro" (porque comecei pesquisar dança e música afro em terreiro para um personagem que o diretor queria parecido com pomba gira e até hoje encho os olhos d'água com apresentações e cantos "para subir"), mas minhas práticas cristãs (com uma angústia reincidente, nada como uma reza tradicional aprendida na infância). Talvez por isso tivesse tanta vontade de conhecer São Luiz do Paraitinga (desejo tão antigo que vi a cidade se inundar e reconstruir pela TV, mas fui visitar bem depois). A maior parte da minha família não é tão multiétnica quanto eu. Cristãos de carteirinha, alguns já inclusive se rebatizaram em igrejas evangélicas, mas devo às tias uma curiosidade de infância das memórias divertidas e teatrais que partilharam comigo sobre as procissões, as risadas entre as romarias e como quase queimavam as companheiras de reza na rua em trânsito com as grandes velas que carregavam, entre um cochicho e uma gargalhada com os primos. Sim, no interior eles não tinham amigos: só a primaiada que ao passar férias um no outro, já dobrava a quantidade de crianças em casa, fazendo minha avó jurar: "vou fugir pro mato"! Por isso, pela paixão por patrimônio histórico colorido e paixão sertaneja pela cultura cabocla, em junho (é, estou devendo este post há meses), fui com meu companheiro na Festa do Divino de São Luiz do Paraitinga. Fizemos um bate e volta meio hardcore: partimos de São Paulo pra Taubaté e de lá noutra condução rumo às romarias cênicas. Perdi as fotos entre uma troca dum celularzinho retrô e o atual... Mas as memórias do encanto com aquela devoção lembrando cortejos cênicos ainda estão vivas! Tivemos dica gratuita duma colega operadora de turismo e como fomos e voltamos no mesmo dia, pudemos esticar as pernas no Cantinho dos Chalés, duma parceira dela, também sem custo. Foi tudo meio fora da curva, como costumam ser minhas viagens fora da caixa. A hospitalidade e generosidade são bem caipiras - no melhor sentido!
Mesmo assim conferi ao vivo e a cores - quantas cores! - a brincadeira do pau de sebo, as ricas, animadas e históricas congadas de várias regiões, as tradicionais fanfarras, encontro das bandeiras, bonecões artesanais cruzando a cidade (pequena, é verdade), os emocionantes estandartes e dança de fitas que só tinha ouvido os tios interioranos contarem nos reencontros familiares ou mestres de Congo ensinar informalmente no Sesc Santo Amaro. Meu companheiro, que não é sincrético como eu, gostou da viagem super sônica - devemos ter passado mais tempo em trânsito que em São Luiz - os problemas são que somos um país pouco marqueteiro com suas riquezas caboclas e de transporte público complicado fora dos grandes centros. Nas idas e vindas por Taubaté, me senti meio "criança feliz" vendo as homenagens ao Monteiro Lobato em forma de estátua para Emília (foi meu apelido na adolescência). Sempre concordei com a famosa personagem: "eu sou a independência ou morte"! Relendo o folheto que fez a propaganda das atrações deste ano, sinto vontade de voltar e não só encher os olhos com a fé colorida e teatral dos habitantes e visitantes interioranos, mas experimentar vivências e palestras como fiz na Chapada Gaúcha, durante o XV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas. Sinto que entre uma incursão e a outra sertão adentro ensaio uma fuga estrategicamente sonhada pro interior, que é de onde minha alma nunca saiu.
P.S: A trilha deste post variou entre Renato Teixeira e Ivan Lins, com bandeira do Divino

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Doula de alunos melhores

Dar aulas é como parir a professora dos nossos sonhos de tempos em tempos - em intervalos que não podemos prever. Isso se nos abrirmos à colaboração dos estudantes, se permitirmos que cursos, as histórias ou vivências realmente nos afetem. A ponto de abrir mão da aula planejada milimetricamente pros alunos também criarem. Pagar pra vê-los nos provar que a arte pode estimular o acesso criativo ao inconsciente coletivo. É permitir que oficinas de iniciação artística dadas para crianças me atravessem e "reiventem" minhas aulas no ensino formal para jovens e adultos.
Para ser ligeiramente didática, tive uma uma diretora teatral que sentíamos como "parteira de cena" quando travávamos em improvisos coletivos. Me miro muito nela: minha meta é ser parteira de estudantes melhores. Sejam arteiros ou profissionais lógicos. E tenho visto estudante do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) se apropriar do material meio de lado na escola formal em Santo André, se pintar, usar figurino e sair fazendo malabares depois duma narração dramatizada minha. E daí que ele não emprestou os livros que recomendei? O melhor que tinha para se resignificar naquela noite nos limites de sempre da educação pública foi um artista de rua no corredor do colégio. E foi tocante fazer parte daquilo de alguma maneira.
Com as crianças no Programa de Iniciação Artística (Piá) de São Paulo já entramos num ritmo "tudo ao mesmo tempo aqui e agora": levo ideias, o parceiro de música também, mas os participantes... Eles nos ensinam jogos, abraçam os que propomos, usam meus acessórios de cena em improviso, se montam para divulgar o programa conosco nas salas de aula, cantam música autoral do parceiro de trabalho, criam esquete conosco, pedem bis das canções, querem ver os instrumentos, o livro, se entrosam com os "participantes turistas" dos encontros, nos incluem no que criam, modelam, desenham, embarcam
em paisagem sonora...
Não tem como isso não reverberar quando chego ao ensino formal: não por acaso descobri uma brinquedoteca escondida onde dou aulas no EJA há meses. Esta pode ser uma grandeza e tanto ensinando: levar, mas abrir mão para que eles também proponham, sugiram, se coloquem, dividam experiências ou se questionem:
- Professora não ter amigo gay é preconceito?
Não tenho todas as respostas para o que se perguntam e me questionam, mas sinto estar num rumo certo deixando com a pulga atrás da orelha. Fazer debate render em turmas mistas de 16 a 60 anos certamente tem temperozinho dos encontros com as crianças e pré adolescentes no Piá. E quando nos abrimos ao abastecimento das relações, da troca, do encontro, da descoberta... Mesmo com mais de 50 horas entre trânsito, aulas, planejamentos, oficinas, reuniões... É uma canseira boa! Somos nutridas. Vamos pro "próximo round escolar" com a corda toda.
Nestas horas experiencio que dar aulas é uma arte. Da entrega, pré disposição, co criação... Um privilégio fazer o que gostamos em tempos sombrios para arte educação. Tem frio na barriga antes de encontrar os estudantes também. Não é porque não temos todo o tempo de criação dos artistas que não parimos obras até inesperadas - porque o planejado tinha uma rota traçada, a criação em grupo faz uma releitura da aula e nos surpreendemos positivamente. Já fico até querendo repensar meu TCC. Arte educação é migrar de trem bala a barco sem vela a espaçonave futurista dos Jetsons em processo. Só que tudo tem uma razão de ser. Parir novos seres humanos. Ser doula de estudantes melhores. E simbora que como não podia deixar de ser, o tempo urge. Muitas vezes não nos veem como artistas, mas estas obras custam sangue, suor e lágrimas e nem todo mestre está disposto a se reinventar. Mas sigamos nós mesmos com nossa resistência, trabalho de bastidores e formiguinha...

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Era só um curso...

Era só uma formação. Em doula. Mas estudar o que amamos nunca é "só uma capacitação". É olhar para o que nos move, nos conhecer melhor e... No caso do feminino, reconhecer antigas feridas negligenciadas, encontrar irmãs nesta jornada de resistência que é ser mulher desviando do machismo nosso de cada dia ou às vezes peitando o patriarcado - e rezando, claro que esta nunca é uma atitude segura.
Era só uma capacitação. Para além das aulas técnicas dos trimestres gestacionais, das fases do trabalho de parto, da placenta, das indicações reais de cesárea, do panorama no Sistema Único de Saúde, recomendações contratuais, plano de parto, puerpério... Estamos há quase duas semanas "internadas entre mulheres", nossas "mais novas amigas de infância da semana passada", oito horas por dia, o que se configurou informalmente num círculo improvisado de mulheres, que simbolicamente foram se ouvir e ser escutadas no Espaço D'Elas, no Butantã, em São Paulo.
Era só um curso. Mas lá compreendi que minha busca por um trabalho significativo, que em minhas temporadas de cursos de massagem, yoga, reiki, acupuntura não era por um percurso tradicional em saúde, mas pela humanização dela. Sempre desconfiei que se precisamos humanizar o que é feito por seres humanos, sinal de que a humanidade deu ruim, parafraseando minha professora de "contação" de histórias Ana Luiza Lacombe, que costuma dizer que se precisamos estudar narração de histórias, que é feita tão naturalmente em comunidades tradicionais, algo na sociedade pode ter desandado.
Não era só uma formação. Ouvir, aprender, ler e ser atravessada pelos relatos de partos, abortos, abusos, estupros, descasos, violências obstétricas, dificuldades com amamentação, criação de filhos e julgamentos. Vivenciar com eles o aprendizado pela história de vida do outro. E olha que conto histórias há décadas... Se tocar com tantas vivências. Se enxergar nelas. Nas entrelinhas.
Não era só uma capacitação. Ler, discutir, avaliar, debater, por em cheque, parir empatia em grupo e questionar conceitos, dúvidas e dinâmicas sobre humanização, filhos, disforia, dificuldades do universo trans, história de como o "capetalismo" se apropriou do corpo da mulher, sagrado feminino crítico, luto, avaliação do quanto os grupos de mães às vezes impõem partos que a maioria não tem como arcar... Só comprovou minha percepção da falta que faz humanidades nas formações de saúde.
Não era só um curso. Já vinha sendo tocante acabar de conhecer amigas com metade da minha idade, vivenciar alteridade com a troca de dores, praticamente plugar cabo USB emocional uma na outra e chorarmos juntas no nosso encontro de estreia. Imagine 80 horas caindo de amores pela luta de uma, conscientização da outra, batalha doutra companheira, indignação duma parceira de estudo, inocência de uma das comadres, militância ativa da que senta ao meu lado hoje, conexão da mais ressabiada, superação da que me desconcerta ontem, doçura da que admiro entre uma prosa e outra, abraço da mais nova velha irmã de jornada ou dor da que lembra tanto meus velhos mal estar de guerra? Foram narrativas curativas douladas, com o perdão da rima fora de lugar na prosa. Nós potencializamos sororidade. Provamos a falácia de nossa pseudo competitividade de gênero. Atravessamos um processo de cura em apoio, contradição e reflexão estratégica coletivos. É tão potente, inesperado, intensivo que dá uma dor no coração porque acaba em dois dias. Como se sustenta uma rede de apoio?
Deu bug na minha percepção da relação que tenho com o tempo de produção do que vendo. Não achei respostas, lógico: é uma travessia se encontrar na minha terceira reinvenção profissional. Percebi que estava me fixando à doença ou ao trabalho momentâneo e que isso boicota minhas viradas profissional e me reinventar para além do que trato. Uma semana depois do exercício empático de perguntar como estava o outro, ouvir e repetir o escutado sem julgar ou aconselhar, vi que podia usar a dinâmica de comunicação não violenta pra além da doulagem, mas com aqueles que amo e sofro quando não estão bem, proponho opções de melhora, mas não dou contar de ouvir os sobes e baixos porque tocam em feridas do que já enfrentei. Ainda questiono como passarei horas acordada apoiando um parto com meu sono chinfrim, mas desta vez, ao contrário de quando concorri numa formação em empreendedorismo que me roubaria o sono por dias, quero ao menos experimentar primeiro e avaliar depois. Vem, doulagem!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Dez anos

O que são dez anos
na balança amorosa?
Não muita coisa
matematicamente falando
Pego o fim da ditadura
e você o auge da música
e visual de qualidade duvidosa
bem quando nascemos
Teus amigos ainda
se divertem em porres
Os meus já administram filhos
Parte dos seus camaradas
estuda mudar de área
pela primeira e temerosa vez
Os meus já mudaram
alguns querem trocar de novo
outros cansaram de alternar problemas
Você se encanta com uma nova pós
eu já me perdi na minha coleção de cursos
Você ama seriado japonês
eu piro nas vlogueiras feministas
Você medita sem grandes dramas
Eu fujo e volto mentalmente
incontáveis vezes
em sessões de 15 minutozinhos
Você estressa com as malas
Eu já sonho com pé na estrada
no meio duma viagem
Você é paizão da gata
Eu quero ser mãe
um dia sim, zilhares de vezes nem pensar
Você tira tecnologia de letra
eu xingo quando dá pau
e saio de perto
Tua família é tranquila
A minha, falastrona
e louca mansa de carteirinha
Como natureba
você, longe disso
Você pesquisa dress code
eu visto o que encontro
pela bagunça dos empréstimos
pros eventos quadrados
Não temos a ver
mas um mundo díspare
se encaixou entre as diferenças
como continentes apartados
que se encontraram depois
duma jornada exaustiva
Mudo os planos
você se reinventa
e seguimos olhando juntos
pra mesma direção

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Território das Resistências

Nesta quarta quis tomar banho pela primeira vez depois de tirar a vesícula. No hospital me lavei correndo, com medo de cair, acelerada também pelo frio, sono e receio do chão depois que derrubar a bandeja de jantar. Tive tanta dor nas costas da maca no pós operatório que comi de lado na cama da enfermaria, tentando administrar as dores de gases no ombro, mas minhas manobras desajeitadas de sobe e desce do colchão fizeram a tigela de sopa se espatifar em mil pedaços. Sobraram estas lembranças em flash porque o máximo que sentia era vontade de deitar com tanto remédio, sono e dorzinha de barriga impossibilitada de tossir, suspirar, rir ou soluçar. Os professores de pilates têm razão: a barriga é a casa da força.
Pouco antes de entrar na faca na segunda escrevi sobre olhar o corpo como cartografia das nossas superações: são sete correções de glaucoma congênito, mas uma apendicite suporada e hérnia que a cicatriz desta última deixou (descobri isso explicando as operações pro anestesista ou pra médica assistente). É bonito pensar em nós mesmas como resiliência em processo, que vai que fortalecendo conforme os baques vêm. Bom, foi meu modo cabeçudo de dar perdido no medo e na fome do jejum que se esticou pelas burocracias que não achavam minha autorização médica: de medrosa que sou adiei a cirurgia duas vezes. Isso pode ter emperrado mais um pouco me internarem e operarem segunda, quando já tinha perdido quase todo o cagaço.
Hoje depois da burocracia de atestado pra lá, guia pra cá, voltei louca por um banho e esta história começada segunda pelas redes sociais tinha ficado em mim. Tomei susto com o roxo na barriga tanto quanto me assustei ajudando minha mãe no banho quando ela operou o seio - e também tinha um roxo. Estas marcas e as cicatrizes que ficam - em nós branquelas, não são a maioria que permanecem - carregam histórias de passar por cima de dores, enjoo, aflições, riscos... E sobreviver para contar as histórias - estas que nós, as narradoras amamos.
Mas era uma barriga inchada porque como me explicou a médica, parece que por fora não mexeu muito, mas por dentro são cortes e mais costuras. A gente não sabe se ensaboa correndo ou vai devagar. Estou tateando um novo corpo e ele ainda não me pertence. Entrei em conflito com ele depois de engordar após a apendicite, de outros tratamentos me sanfonarem e não emagrecer tanto quanto achava que devia. Devia segundo quem cara pálida? A gente milita tanto em sala de aula, nos movimentos feministas, mas parece que conosco sozinhas é que o bicho pega. Era como se só engolisse a aceitação da barriga engordar em quem teve filho - as outras jamais! Mas são duas operações abdominais, fora os tratamentos de sono engorda-emagrece. É uma história sobrevivência para celebrar.
Mais tarde, falando com minha prima irmã nervosa com sistema online de nota do microempreendedor individual dando pau (porque já tenho que sair da leseira da anestesia a todo vapor) ela me lembrou do básico: operou, tá viva. Hoje é o dia da gratidão. A $ é um coadjuvante neste contexto. São dez vezes em que entrei na faca, uma só pelo vídeo. Mas sigo semi inteira, semi magra, mas inteiramente pega de surpresa por este olhar.
A médica assistente, mais presente que o principal que só desceu do panteão dos deuses pra tirar as pedras e a vesícula, disse que ele preferia tirar os curativos no consultório. Olhando e mexendo meio desajeitadamente não entendo se tem esparadrapo manchado ou a pele indica que passou uma cirurgia por vídeo ali. Passo sabão e bucha pulando os trechos que prometem fortes emoções demais. Segue um território nebuloso de aceitação, vulnerabilidade e redescoberta.
Lembrei da oficina de fotografia e gênero que uma amiga dá. Não se fotografa a barriga inchada operada, a não ser que seja pra simpósio de saúde, TCC ou artigo médico. Quem acolhe a mulher que adoece, opera, engorda, emagrece, mas não muito, segundo a régua estética que ninguém consegue seguir? Acho que em primeiro lugar ela mesma: que soma de sobrevivência a celebrar eu me tornei! De novo no meio deste destino um contratempo de saúde me atropelou (porque a sensação é bem esta voltando de anestesia geral), mas eu ainda estou aqui! E sigo resistindo. Mas principalmente aprendendo a lidar com um corpo que não dá a luz, mas ainda assim engorda, emagrece e me tira do lugar de conforto. Deve ser um treinozinho pra empreitadas com menor espaço de contemplação e descoberta. Seguiremos teimando. E aprendendo a lidar. Que corpo e sobrevivência também é aprendizagem.