segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Festa da Firma

Quando penduraram o aviso da festinha anual de confraternização, a maior parte do departamento torceu o nariz.
O (forçado) amigo secreto corporativo já obriga cortar do orçamento o presente do afilhado e pra presentar justo quem nem mexe o nariz quando é cumprimentado cedo na salinha do café.
Mas as firmas seguem forçando amizade com estes deboches institucionalizados da equipe.
Este ano, a equipe revolveu não só enfiar o pé na jaca, mas mergulhar de cabeça.
Todo fim de ano é a mesma lenga lenga.
Liberam a bebida no último dia de expediente.
Quando as pessoas estão pra lá de Bagdá o chefe que mal passa ali para assinar os cheques resolve fazer um "discursinho".
O que eles chamam de "família" mal se aguenta em pé e o "dono do barraco" resolve fazer uma ode ao neoliberalismo.
O sindicalista disfarçado desta vez também resolve não deixar barato.
- Então este ano conseguimos implantar o 14o e participação de lucros?
Acho que liberaram a bebida um pouco cedo demais.
- Veja bem...
Os salgadinhos cala a boca começam a circular.
O aspirante a sindicalista quer subir no palanque que sua imaginação improvisou.
Mas o espaço nem tem um. Os camaradas do "deixa disso" o apartam.
O aspirante a gerente que ria sozinho de suas piadinhas machistas se empolga quando soltam uma música abafa rumores de "injustiça" e dá um tapão na bunda da funcionária em quem passou o ano despejando um assédio moral não muito sutil.
Ela que também já estava com os "ovários cheios" daquela opressão do patriarcado corporativo, joga cerveja nele.
Talvez a bebida foi generosa demais, lamenta o povo do RH.
O artista infiltrado como operário de escritório se empolga quando começa a tocar Sidney Magal, afinal era a trilha do primeiro filme que ele conseguiu um papel com fala, filmando de madrugada, sobe numa mesa e começa a interpretar um go go boy.
Os senhores que desejavam uma aposentadora a salvo de vexames, também tentam conter as mulheres enfiando doações na cueca dele.
Definitivamente, a bebida saiu cedo e em doses generosas demais, a gerência concluiu. E resolve beber também.
A "piãozada" do chão de escritório resolve virar o jogo em plena confraternização e toma o poder do buffet: força a diretoria a servir até alta madrugada, aos gritos de:
- Vocês nunca mais encontrarão parceiros de trabalho dispostos assim! É bom agradar ou começarão o ano tendo que passar café e tirar o lixo do banheiro! Sejam simpáticos ou mandaremos vocês pro xérox ano que vem!
Alguns colaboradores tentam fugir pelas janelas.
É quando chega a mulher barraqueira do encarregado da expedição. Soltando os cachorros logo de cara:
- Como se não bastasse segurar meu marido o ano todo, em pleno de fim de ano que preciso de ajuda pra liberar os pratos que faço pras ceias dos clientes preguiçosos, ele faz hora extra em plena festa da firma e ainda dança com essa sirigaita que passa o ano de gracinha com ele? Isso não ficará assim!
O estopim da ciumeira parece ter sido a Suzinete, da... recepção ou secretaria? Os acontecimentos também foram processados por outro bebum corporativo. Não há indícios de que haveria de fato um caso, porém para ciumenta, feita fora do eixo já é motivo suficiente para rodar a baiana.
Parece que a esta altura do campeonato voaram copos, as pessoas se esconderam atrás do balcão de doces, o moço do som deu no pé, mas largou a caixa lambuzada de cerveja para trás (difícil ele carregar tudo naquela guerra e ainda por cima, escorregando Itaipava).
É quando interfere a filha do encarregado do arquivo morto:
- Vocês nunca foram crianças e nem fizeram desperdício de guerra de brigadeiros em buffet infantil?
As famílias começavam a resgatar seus membros, já que os escritórios vizinhos denunciaram o barraco corporativo na Internet.
Justamente pela bebida ter sido distribuída ligeiramente cedo, os colaboradores começaram ressaca moral de uma criança puxar a orelha deles no auge do rebolado do ator operário.
Foram saindo de cabeças baixas, com mulheres ou filhos perguntando pelo 13o atrasado e se ele tinha sido "investido" nesse mico de festa da firma.
Para deixar a poeira abaixar, um zap anônimo deu férias coletivas à "família da firma" por uns 15 dias.
Bem que o pessoal mais visionário do RH avisou que essa história de chamar os colaboradores de família ainda ia acabar mal.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Caverna do Conselho de Dragão dos Ciclos

A Liga da Justiça Pedagógica é convocada para se embrenhar na Caverna do Dragão do Conselho de Ciclo. Alguns levam mantimentos, outros bebidas, mas corajosos que são, deixam as armas de lado. No máximo podem dar com o diário um no outro, em caso de divergência. Mas nunca chegaram ao desespero de causa de recorrer a objetos perigosamente pontiagudos como lápis, tesoura ou caneta, jamais! Despedem-se de amigos e familiares. O momento é tenso. Há comoção entre colegas e parentes, nunca se sabe quanto a jornada pode durar.
Tudo vai bem entre avaliação de um aluno turista aqui ou outro "estupidamente inteligente" lá, até que empacam nestes que um reclama que não lê, a outra argumenta que é criativa, o terceiro chia que não faz contas e o quarto emenda assegurando que se sai bem nos debates. O circo está armado: as discussões são inflamadas e prometem não ter fim. Os educadores fazem involuntariamente estágio em psicopedagogia: todo o trágico histórico de vida destes estudantes é trazido à tona. Lágrimas. Alguns pedem para sair da sala, é demais: abusos, crimes familiares, moradores de rua, violência doméstica... Soluços. Quando os mais afetados pedem suspensão das discussões para lavar o rosto ou reabastecer com café, são invariavelmente presos na Caverna e apesar de não estarem em nenhum pôquer infindável, escutam:
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
A mais insone dos professores argumenta que sem café já é insalubridade demais. Tem pouca adesão. Vários professores já estão sem forças para argumentação. A que sofre de insônia começa a ter abstinência de cafeína. Como os dramas escolares foram muito pesados para uma discussão inicial, a coordenadora e o diretor prometem ir para uma sala mais leve. Educadores suspiram. De fato passam por vários casos em que os conceitos são mais consensuais, até que chegam noutro polêmico:
- Não junta lé com cré!
- Pinta tão bem - o professor de artes sempre "causa", enquanto diversos reclamam, ela vê que é criativos, interativo ou imaginativo. Vários se seguram para não esganá-lo.
- A tabuada do dois ou três ele tem que emprestar dedo do vizinho para calcular os resultados.
Neste aluno são gastos dias e dias de debates. Os alunos que tinham se pré disposto a acompanhar as avaliações, pedem arrego:
- Minha família está me procurando no IML!
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
Um secretário começa a rezar. Os sociólogo e a filósofa protestam:
- O estado é laico!
- Vão ocupar aqui também? - a coordenadora teme o histórico militante deles.
Desta vez é o diretor quem resolve o impasse e passa, pois a vida dele não era simples: trabalha longe, madruga, tem três filhos, mora num barraco, a mulher fugiu com vizinho, deixou dívida no bar, a filha não sai da boca...
Comoção. Educadores se consolam e deixam aluno passar. É demais para uma vida tão jovem, como poderia pensar em estudos? Pobrezinho! Pensando bem, rendia até demais com esse contexto do entorno do pobre coitado...
A reza do secretário rende. Passam por vários estudantes sem precisar sacar as armas dos diários ou os super poderes dos trabalhos e provas. Infelizmente, a sala mais simples termina e a coordenadora diz que não pode fazer nada, mas precisam avaliar a 7a série mais "encardida". Os educadores encarariam o dragão de Komodo, mas fogem desta  turma.
O primeiro aluno já provoca um impasse:
- Analfabeto funcional não pode passar!
- Aí já é esculhambação!
- Ele joga tão bem - quando o professor de arte não empaca a discussão, é a da educação física quem trava tudo.
Debates se arrastam por semanas. Filhos ligam. Maridos e mulheres fazem panelaço na porta do colégio. Educadores são dados como desaparecidos, mas seguem escutando da gestão:
- Ninguém sai! Ninguém sai!
Professores sabem que sua casa foi perdida em chamas. Os sinais dos celulares foram cortados. Amigos íntimos falecem de preocupação com o sumiço dos professores. Educadores reclamam que parentes foram dar parte na delegacia por cárcere privado.
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
Há professores com olheiras. Os mantimentos acabam, Educadores começam a comer os diários. Aí já  foi calamidade pública. Coordenadora e diretor agilizam os casos mais complicados. Um bairro inteiro com mães solteiras, ex detentos, pais que viram os filhos serem mortos, estudantes que fogem de casa e se abrigam no colégio.... Melhor não provocar um problema a mais na vida destas vítimas de outras vítimas.
Chegam a um acordo de solicitar reposições quando as bebidas terminam e educadores ameaçam beber o branquinho corretor de rasuras. Os impasses mais polêmicos terão que fazer trabalhos sobre sustentabilidade, cultura afro, indígena ou gênero, estes temas que precisam transpassar todas matérias. Um professor se acorrenta ao bebedouro como protesto pela demora na escola de encerrar o Conselho. Estes assuntos são sorteados rapidamente entre as turmas. Um sociólogo sugere emendar numa ocupação na escola contra... Professores tentam linchá-lo e a turma do deixa disso socorre.
Quando os portões do colégio se abrem e os educadores saem da Caverna do Dragão são recebidos com comemorações emocionadas. A imprensa local foi cobrir quando saíram do cativeiro, ops...! Quando encerraram a missão na Caverna. Alunos que acompanharam dão depoimentos emocionados à polícia:
- Foi horrível! Pensamos que não veríamos nunca mais a luz do dia fora das salas de aula...
A paz volta à quebrada em que o Conselho finaliza.
Ao menos até o outro bimestre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Terapia inesperada e lúdica

A futura paciente chega ao consultório onde fará terapia. Não encontra secretária, senta e confere as revistas expostas para leitura. Considera um milagre não serem "do período jurássico". Geralmente são tão antigas que nem se anima a conferir. Sem alguém para informar se atrasou ou não, o que a recebe assim que pisa na ante sala do consultório é o rádio. E ele está muito bem sintonizado: Gilberto Gil. Nem precisou muito e já começou a cantar. Quantos shows dele já tinha visto? Conferiria muitos mais, é o tipo do cantor que nunca provoca exaustão. Mesmo sem recepção humana, o local é bem acolhedor, tem paredes verde claras - chega a pensar que devem provocar algum efeito sugerido pela cromoterapia, porém não estudou o tema a fundo. Os enfeites são simpáticos. Agora a estação vai para um samba. Rodas com amigos, clima de entrosamento, memórias partilhadas em mesas de bar simples vêm à memória em questão de minutos. Para ela, sempre que estivesse down, escutando este ritmo já ficaria tão bem que nem era preciso incluir tratamento algum a mais. Tinha esquecido isso. Bem, com aquela sala sem ninguém conferindo agenda ou avisando que havia chegado, começou a dançar. Foi instintivo. Se divertiu mais quando achou um espelho. Nisso a emissora pôs no ar um forró. Soltou-se ainda mais! Perdeu até a curiosidade com as publicações para leitura. Quem a julgaria naquela espera pelo tratamento sem intermediações? Lembrou de amigos, noites animadas, risadas na madrugada e shows inesquecíveis. Começou na sequência um reggae. Perfeito para o fôlego "semi sedentário" (às vezes conseguia fazer exercício, noutras não). Apresentações que conferiu adolescente, maratonas regueiras, companhias divertidas, tudo foi voltando à tona e emocionando sem esperar. A cabeça resolveu fazer mini flash backs que a tocava, a cada nova música... Tinha um aspecto que a divertia no espelho. Nisso começaram a surgir pessoas de outras salas no corredor do andar, esqueceu que a porta ficava aberta com um peso. Seu acompanhamento corporal espontâneo à seleção musical devia estar chamando a atenção. Nesta altura do campeonato já se sentia tão animada, que nem se importava mais. O cabelo suado, pulava junto com ela. A bolsa já havia caído no sofá. Água? Podia tomar ao fim desse entrosamento inesperado com o rádio. Consultórios próximos estranhando? Nenhum colaborava com suas contas. A despeito do cansaço, cantava, dançava, lembrava até que...
- Vamos lá? - chamou a terapeuta, abrindo a porta de repente.
- Não preciso mais, obrigada!
- Mas seu horário é agora!
- Sua rádio já me ajudou muito!
- Hoje faria avaliação em conjunto das suas questões...
- Parabéns pelo bom gosto doutora.
E a ex paciente começa partir cantando todas misturadas depois de o que...? Quinze muitos ou menos de euforia musical nostálgica. A emenda saiu melhor que o soneto: o convênio seria "tão paduro" na cobertura das sessões, na melhor das hipóteses só introduziria os dramas à terapeuta e já precisaria sustar as consultas e ficar com tudo no vácuo, pois costuma levar um "tempozinho" pro paciente e a terapeuta se entrosarem...
- Doutora? - pouco antes de partir resolveu tirar a dúvida derradeira.
- Pois não - ela respondia, ainda estranhando muito a reação da paciente perdida.
- Que estação fica sintonizada na sala de espera?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Maremoto doméstico

Antes era sempre uma chuva
agora tem um lastro
Para quem voou tanto
um pouso é sempre uma descoberta
Nós fomos lapidando
essa linguagem nova, intraduzível
Por essa modelagem única
um ninho tão nosso!
Nossos passos na areia
começaram meio desconexos
Agora tatuamos este caminho
em cada palmo de nós
Nós não nos sabíamos
companheiros - fomos tateando
Descobrimos os espaços de encaixe
as rotas de combustão
e os portos de chegada aguardada!
Os dedos traçaram rotas
mapas recém desenhados
As pernas inventam um laço
e depois afrouxam
Nossas palmas reconfiguram
encontros já aguardados
Ainda assim, descobertos
suspirados e chorados
Um universo a escrever
mas gemidos escapam pelas linhas
Alguma bússola norteou
esta cruzada de ideias e sonhos
E um mapa do tesouro
foi criado neste incerto ajuste
Esse improvável acerto
aguardado e até desacreditado
Como era eu sem nós?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Retiro de mim

É oficial: envelheci. Claro, os médicos vêm com metáforas, pegue mais leve e reduza o ritmo, mas não é praticamente a mesma coisa? Ouvi que não podia continuar fazendo tudo isso e automaticamente minha síndrome de Peter Pan sagitariana me cobrou "mas sempre aguentei". Foram dias de choque: a hiperatividade também era doente, mas mais aceita por amigos, chefes, parceiros, então me apeguei nela por um loooongo e tenebroso inverno. Um chute no ego: sim, também havia um que havia amado o papel de bobo da corte de tal forma que a única coisa que lembrava para lá da animadora de plateia era a deprê. E a memória que ficou dum extremo ao outro alertava: não se mova, do lado de lá doi inacreditavelmente. Aqui, entre as muitas e muitas atividades não era possível ouvir qualquer dor interna. Quando a exaustão era demais, um sono na marra aliviava e muito. As pessoas dizem que é só voltar à minha essência. E usar auto conhecimento. Fiz uma coleção de retiros, meditações e vivências, mas o caminho rumo a me conhecer não tem qualquer sinalização. E depois da ansiedade absurda, logo no começo do feriado, caiu uma exaustão: o sofá nunca me pareceu tão delicioso. Chove, o tempo resolveu chorar por mim. É um luto da partida da boba da corte. Vejo amigos e família, mas não quero falar com ninguém. No máximo chorar sem saber a razão. E ter que explicar que sim, mesmo com bom emprego, namorado, família que não me desabonem, doi. Não é paupável, nem localizável. Temporada de virar ostra. Escrever. Comer um pouco, quando o corpo grita por abastecimento. Compreendido, não ser mais hiperativa para não adoecer. Como ser outra coisa que não deprê? Não me joguei dum extremo ao outro por não ter ido ao Playcenter na infância: minha mente opera em modo mal configurado. E não fui exatamente eu que programei. Ela só deu gritos depois de stress corporativos e grandes preocupações familiares com saúde. Mas dizem que são só gatilhos, Já não era lá muito convencional querer ler, escrever e desenhar a infância toda, sem parar para comer, tomar banho... E produzir dúzias de poemas inspirada pelo lado "dark side of the moon" de Fernando Pessoa e Carlos Drummond na adolescência? Indícios estranhos de algo fora do prumo. Certo, nada de hiperatividade: me monitoro e quando quero enviar projeto de parceria para trabalho em pleno feriado, topo "dar uma voltinha" pra evitar fazer hora extra na licença médica. Não sei porque cargas d'água estou com vergonha de voltar num dos lugares que comeu meu tão necessário sono nos últimos meses e jogar a toalha. Sempre fui boa nisso na área anterior, afinal éramos trocadas feito modess. Já nessa não: me envolvo, tenho dó de partir. Sinto ainda mal estar de cortar a palhacinha com a qual me entrosava razoavelmente e talvez voltar... À essência no meu canto de anos e anos atrás? Tudo bem então agradar os outros e me machucar, inclusive fisica e emocionalmente? Não, não sei fazer nada disso, então cama, cobertor, água e a gata são ótimos companheiros temporários para esta licença médica. Ao fim dela algum texto, amigo, médico ou eu mesma terei tudo isso mais claro. Quem sabe?

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

14 Dias Para Descobrir o Que Minhas Licenças Têm a Me Dizer

",,,essas velhas dores que acreditava que não voltariam..."
Nesta quinta minha hiperatividade "velha companheira de guerra" deu pau. No banho, já estava começando a ficar nervosa: ou cozinhava pra levar comida à reunião pedagógica semanal, ou atualizava as aulas que daria à noite ou planejava as aulas do dia seguinte. Para distrair esta ansiedade, fui lavar os cabelos com no poo: depois que aboli os derivados de petróleo, voltei a desembaraçá-los no chuveiro.
"Momento mini flash back": no começo da semana já tinha cantado a bola ao meu chefe mais recente: vinha acordando com peito apertado, chorando a caminho do trabalho e levantando com taquicardia. Entre ficar felizinha por ganhar como meu marido e esperar dar pau, preferi ficar pobre com saúde, optaria por um trabalho só... Ouvi que o feriado estava chegando e...
O nervoso ameaçou retornar e a manhã só estava começando: como discutir saúde 4 horas com jovens se as dicas pedidas aos colegas especialistas não chegavam? Em dias de mal estar, a imaginação some sem deixar pistas. Como improvisar uma manhã tendo estudado outras áreas no dia seguinte? "Coloquei o nervoso na árvore" e fui lavar minha calcinha. Nada como um trabalhozinho braçal para tirar a voz da ansiedade.
Esta semana tinha voltado ao médico, contado que estava chegando tarde, desligando e dormindo uma hora, despencando da cama seis horas, o mal estar todo, o retorno à cárdio sem que nada desabonasse patologicamente meu coração, só pra ganhar atestado e fazer exercício, mas também pra entender de onde vinham este disparo e dores no peito... Ouvi que estava estressada e me "remedicaram" com a dose antiga. Assim que ele receitou e deu outra caixa nova, puxei pela memória:
- Não foi com este que tive uns efeitos colaterais piores que barato de bebida?
Ele investigou meu histórico de 219191 médicos dos quais "fugi em desabalada carreira", quando me trataram só como uma doença ou um órgão e constatou que não, nada ali apontava indícios contra o novo "toureador" de stress.
Retomei a maratona típica do dia sem aula: fiz feira lá na loja do MST (não existe quase nada próximo numa cidade em que o tamanho é "uma falta de educação" como São Paulo, num momento em que mais que nunca os produtores familiares rurais precisam de apoio - a escola deles no interior foi invadida e atiraram sem mandato de busca há pouco tempo), fui atrás dum remédio natural contra TPM (todas as demais dores driblo com mato, chá... Sou semi natureba), passei na cárdio que até sugeriu um semi retorno ao jornalismo (é, definitivamente 37 horas de aula, reuniões e 8 de planejamento na semana não estavam caindo bem), voltei para casa depois de umas quatro horas de trânsito... Como é que aguentamos São Paulo mesmo?! Horas de prosa com o marido, sequestrozinho básico de tempo de sono, manhã seguinte de reunião, tarde ótima de oficina com bolsistas iniciantes, toda a chuva do mundo para chegar à escola: o guarda chuva quebrou e abraçou minha cabeça, tentava checar se o caminho que tinha que andar era aquele mesmo, mas a ventania virava o tecidinho plastificado e o que o sustentava quase do avesso... Tinha medo de parar em algum lugar e esperar pois o aguaceiro não dava sinais de que diminuiria e lá na minha quebrada, toró desse nível leva carro, árvore... Não seria muito difícil dele também me levar. Sem contar que os comércios locais fecharam. Cismei que São Pedro estava inconsolável com a eleição de Trump nos Estados Unidos. Todos os palavrões que já ouvi na vida chegaram ao colégio comigo... Da secretaria, ganhei uma blusa emprestada para aplacar o frio: não era possível me secar em jeans e botinha fazendo cheque, cheque, molhada até chorar. Até meu pâncreas estava cheio de água. Ninguém com roupa de academia para emprestar. Porém com a blusa emprestada saí animadinha que a humanidade ainda se ajuda assim, sem perspectivas de tomar algo em troca. Maior novela mexicana para os estudantes assentarem, montar o projetor e dar a aula de Brecht... "O analfabeto político"... A cada vez que ouço trechos dele, me emociono de novo e de novo... Enquanto não volto a encenar, é assim que me toco de novo.
Lá estava eu no dia seguinte limpando a areia da gata, após um banho meditativo e aquele mal estar sem tempo para tudo que sou demandada. A "escolha de Sofia" apontou o planejamento das aulas que não domino. O laptop deu pau. Comecei chorar como criança. Falei com amiga, tia, a vizinha veio em casa. Verifiquei se o pessoal da escola queria que fosse no meio da programação da tarde e noite inteiras, me mandaram ao médico, a vice diretora ainda disse que me amava, aí que desaguei, nunca ouvi nada nem vagamente humano em momento de crise antes, no jornalismo ou nas assessorias de imprensa. Ainda é me afeta o tratamento mais humano da educação pública.
Aborreci um tio com carona para o pronto socorro e uma amiga para passar vexame comigo lá: já estava com a parte de trás e de baixo da cabeça doendo quando vomitei. Um plantonista me passou ao outro, porém a segunda foi tão categórica quanto meu médico me escrevendo: "é definitivo: você não pode continuar com este ritmo: diminua ou não podemos fazer nada". Não é possível que melhore dormindo 3 horas a menos. Se descansar só no final de semana, fico mal pois o cansaço é cumulativo. Descubro em pleno inferno astral que é oficial: envelheci. Fui 220 voltz a vida toda, mas meu corpo já não dá conta de todas minhas ideias. Eu e a amiga fazemos terapia informal no corredor de espera. Meus pais não deixam de lado a possibilidade de bancar "a carona do Jarbas" para voltar, não sem antes fazer um "pit stop" nos meus tios, afinal quem se aposenta faz umas andanças meio estopa: enroscando em tudo que é lugar antes de chegar. Me indigno com um ensaio de xenofobia entre os meus, causo um "mal estarzinho" básico, mas me divirto com as memórias de 219211 anos atrás e as histórias dos netos deles. Como não amá-los apesar de todas suas contradições?
Ao voltar para casa meu namorado alertou:
- As mil vontades na cabeça seguem como uma pilha: sem melhorá-las você continuará sofrendo!
Me sinto como meus alunos sem a menor ideia do que fazer. No dia da crise pensei vagamente em meditar, lavar louça, não consegui nada, só me render à exaustão. Quando muitas pilhas das 210390 coisas que sempre quero fazer me deixam em polvorosa, não sei como tranquilizá-las. Ai cáspita, talvez tenha que voltar à terapia...
Revejo um amigão de colégio na manhã seguinte e entre debates e encantamentos com a paixão bandida da educação, retomando um ensinamento budista de que desejos maldosos ainda que não concretizados deixam aquela energia de mal estar que nos prejudica, lembro do namorado na véspera:
- É assim que minhas 930932 vontades de estudar, me exercitar, meditar, ler, escrever, viajar derrubam meu corpo, mesmo que não tenha mais gás para realizar todas como antigamente me maltratam. Ele está certo: é quase uma doença auto imune...
A prima irmã escreve para fazer algum trabalho manual que desloque a mente da dor mental para a atenção que qualquer coisa braçal demanda. Encontro um ateliê educativo gratuito e aposto nele como fonte terapêutica da semana em que meu corpo me estancou gritando, porém ainda não sei como silenciar minimamente a mente quando sai do eixo e pipoca, hiperativa. Que ela não pode seguir empilhando sonhos e inspirações não concretizados, já começo entender como sabotadora do tratamento. O único passo atrás que dei em uma década de tratamento foi não emendar seis coisas e reduzir drasticamente o sono a uma horinha. Eu ou a idade fizemos isso?
E inspirada no escritor Gustavo Tanaka que ouvimos nas palestras e vivências do programa de coach, empreendedorismo e auto conhecimento terminado há um mês, retomo a escrita por dias... Como quem espera dela uma luz de cura.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Talvez ainda dentro da bolha

Encerrei o programa Recalculando a Rota (ou não) no misto de palestras e vivências Firefly Wonderland, em Florianópolis, no Impact Hub, neste final de semana. Sei que é uma linguagem jornalística demais para um condensado de experimentações, abraços, insights, beijos, reconhecimento de companheiros virtuais de jornada de auto conhecimento e coach, desmonte do racional da não compreensão de muito do que viu, surpresas e improvisos. Mas é a comunicação em que mais fico em casa... Também contei a história A Cidade que Perdeu Seu Mar, de Elias José e abri o bocão com muitos que vieram abraçar e pedir "para continuar minha missão como narradora de histórias" - é, era algo que desconfiava, mas me "quebra na emenda" ouvir de recém conhecidos este reforço.
Não começamos lá muito bem ajustados. A balada da sexta me pegou de saia justa: estou enferrujada para eventos de luz baixa e música alta, recebi uma série de abraços e lembranças das trocas online:
- Francine!
E eu mais sem graça do que quando aluno me reconhece e me pergunto: cadê o nome dele neste córtex cerebral?
Antes das clássicas apontadas de dedo, meu tratamento de sono "come" parte das lembranças mesmo, desculpem novos amigos desvirtualizados!
Mas no mesmo dia à tarde agitamos encontros ao vivo e a cores e conheci a gaúcha Laís, também da educação, embora atualmente esteja nos bastidores. Circulamos demais entre shopping e lojinhas da Lagoa, acabei reencontrando com o mar já com o frio me segurando a ânsia saudosista da maresia, mas também foi surpreendente me aproximar justo de quem não conversei tanto antes entre aulas, atividades e meditações virtuais. Pisca alerta também acendeu: há tempos sou meio Zeca Pagodinho "deixo a vida me levar" e não me posiciono: "vamos pra praia, lojas e compras são urbanas demais"! Conheci ainda a outra coach do programa e participante de Curitiba com quem já tínhamos trocado sobre nossos olhos nos "quebrarem na emenda" com o famigerado glaucoma. Até aí, "estava tranquilo, favorável". Esta segunda etapa foi no Café Cultura, onde como diria a parceira de andanças "não tomamos café, mas um evento", de tão lindos os drinks dos baristas.
Sábado tivemos aquela manhã "como se escreve sobre o que não sei falar, só sentir"? Um casal resumiu muito rápido a atuação deles com Águas de Micael, tomamos juntos, vários foram lá para uma expansão personalizada e em tempo real de consciência e "caíram". Foram amparados, claro! Mas não entendemos nada, inclusive incrédulos caíram também. Não, não era igreja ou algo do gênero. Depois tivemos thetahealing, uma meditação/ terapia que nos remove as crenças que permitimos - tinha experimentado aqui em São Paulo, mas o sono que advertiram que poderia ter entre os alunos da Casa Violetta que me atenderam customizadamente, só rolou lá, no coletivo, com a terapeuta Letícia Taveira. Mais desentendimentos da cabeçóide que vos fala! Bom, o racional sapateando teve que ser posto "em cima da árvore", ele não decifraria nada. Para quem ainda não conhecia a jornada de autoconhecimento e empreendedorismo da Alana, criadora do programa, introdução à saga de como pariu o livro, as aulas e orientações que reúnem tantos, tantos "perdidos querendo se encontrar": uma centena e meia ou duzentos espectadores, acho eu, ela também contou sua jornada. O escritor Gustavo Tanaka partilhou sua experiência de entrar numa multinacional, questionar tudo aquilo, empreender, falir, escrever 11 Dias de Despertar - Uma Jornada de Libertação do Medo, como deixou de se esforçar e viu fluir as postagens, curtidas, compartilhamentos e publicação fluírem mais fácil. Daqui, duas lições: escrever depois que choramos aliviados e se nos encontramos lá no Firefly, é porque já éramos buscadores. Tivemos ainda empresa de área tradicionalmente coxinha - comunicação - mostrando porque optou pela insegurança, responsabilidade, frio na barriga, comprometimento, medo, mudanças quando no geral é o caminho oposto que a área vai atrás. Esta foi a empreendedora Glóbulo e deu até uma "vaga saudade" de atuar nisso. O médico Pedro Trauczynski apresentou um olhar lúcido da paternidade, como uma oportunidade de exercitar a presença, a criatividade e o amor sem ressalvas das crianças. Lembrei muito a forma com que Marcos Piangers, escritor, gaúcho e da comunicação trata sua relação com os filhos - e olha que este nem teve pai! Desconfiei que procuro um caminho similar nas contações de histórias, pois é como exercito meu instinto maternal, meio terceirizado com os filhos de amigas e público das narrações dramatizadas, num caminho lúdico, de ouvi-los, me nutrir e dar gás à imaginação dos pequenos. Também ouvimos a Jaque Barbosa e o Eme Viegas, do Hypeness e Casal Sem Vergonha, sobre a virada dos trabalhos clássicos para terem seus próprios sites e iniciativas nômades digitais. Ao mesmo tempo que que parece que todos temos esta possibilidade de ir atrás de nossos sonhos dum trabalho talhado para nós mesmos, desconfio já não ter saúde para uma meia dúzia de aninhos 12h ou mais diárias ralando "a bunda na ostra" atrás do computador para depois suavizar este ritmo. Como brinquei com a criadora do Poder para Empreender com quem partilhei caronas, pois Floripa segue com transporte público sofrível, "quero crescer, mas não exagera". Eles já tem 30 funcionários, milhares de alunos e uma caralhada de page views. Sinto que me descobri para além da comunicação: vibro no palco, em sala e formações! Porém foi um estalo e tanto lembrar depois de ouvi-los de seguir conferindo a série Continue Curioso, daqueles que largaram o certo pelo duvidoso e estão realizando seus sonhos. Finalizamos cantando, dançando, tocando percussão, da maneira mais tocante que poderíamos conhecer o projeto Grande Roda de Tambores, de Curitiba: poucas coisas me viram do avesso positivamente como uma batucada! Acabei precisando comer e dormir cedíssimo, como se a maratona inicial tivesse me mexido horrores - provavelmente foi isso mesmo que ocorreu, embora meu lado cabeçudo siga questionando tudo e todos... Hoje só o deixo mais falando sozinho, já que nem tudo tem explicação mesmo, é sentir, meio como conferir dança e se satisfazer emocionando, não buscando uma mensagem, que nem toda apresentação artística e de auto conhecimento tem explícita, de cara. Muita ficha cai na lida diária mesmo. Domingo fiz a narração de histórias depois do depoimento dum amigo de programa e ouvi no almoço a mesma percepção da minha mãe, que sou outra pessoa no palco. Bom, a ideia é essa quando estudamos e fazemos teatro... Sei que meu coração está entre as coxias, mas ainda choro ouvindo que tenho que continuar com isso, que emociono com pedidos de dicas de cursos... Na sequência, o terapeuta Ricardo Neto me mexeu particularmente por sua pegada politizada em pleno fim de semana do auto conhecimento: acredita que os mais pobres massacrados pelo sistema não terão como se conscientizar mais, porém nós sim. Numa manhã além da imaginação, a futurista Lala Deheinzelin abriu as cortininhas criativas de todos para vislumbrar como poderá ser futuramente, além de mostrar imagens antigas que já davam pistas do que temos hoje em dia, mas me tocou ela ter alertado que é muito mais difícil mudar aspectos sociais e culturais, além de quando fui desabafar o quanto é doído ser "o ET de Varginha entre os que amamos e trabalhamos", ela ter me aliviado o olhar:
- Não tente desentortar a banana. Não fui diferente. Se cerque dos mais similares cada vez mais!
Por conta dessa ampliação da prosa com ela, acabei perdendo a Letícia Mello contando seu voluntariado na Ásia, que rendeu o livro Do For Love, faz parte do projeto de mesmo nome e está agora realizando um documentário do que voluntariar no Camboja, Vietnã e Tailândia a transformou. Foi um livro que enrooooolei para finalizar (pois era delicioso conferir página a página), mas quando acabei pouco depois consegui cobrir e voluntariar no XV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, na Chapada Gaúcha/ MG: ando numa pegada de desbravar e aprender com o sertão brasileiro. Também me identifico com a pegada desencanada dela: não dá pra voluntariar numa região tão simples preocupada com unhas! Carolina Nalon trouxe seu trabalho de comunicação autêntica - também fiquei à margem, ainda proseando com Lala, mas senti o potencial das pessoas pararem e se olharem, num exercício de pausa e conexão que já vi inclusive na praça Roosevelt, em Sampa. Nós das artes temos até costume de fazer isso, mas os participantes se acabaram de chorar, poucos riam. Nós não nos olhamos, ainda menos em tempos digitais, que sem uma interface de equipamento, não tem amor, reencontro, trabalho, nada!
Talvez aterrando ligeiramente em meio a tantas conexões sutis, o médico Leonardo Aguiar foi bem corajoso de revelar como a medicina se atrela a atuar em cima das doenças, sintomas, não das causas, algo que vi assustada há anos no filme O Jardineiro Fiel. Porém apresentou caminhos, possibilidades mais humanizadas dentro da cirurgia plástica, apoio inimaginado empoderando pacientes, como força de vontade de cliente dele "contaminou" positivamente outra corredora noutro estado, a ponto de tentarem até mesmo melhorarem politicamente a cidade - eu caí de amores por estes palestrantes que tangenciaram o lado "ação no mundo", pra além de me aprimorar.
Ainda na abordagem espiritualista, Christian Robert Rocha introduziu a Kabbalah em meio a luzes baixas, sua própria experiência familiar, deixando claro como era pouco tempo para um assunto tão rico, conectando com sua experiência humanizando pacientes sofrendo câncer e prestando homenagem aos seus mestres nesta jornada.
Encerrar com o escritor Gustavo Santos nos divertiu, tocou e acho que abalou o olhar judaico cristão de culpa contra o amor próprio. Não eram apenas aspectos técnicos ou acadêmicos levados ao palco, ele compartilhou suas próprias experiências amorosa (digna dum filme, que ao menos ganhou as páginas de sua obra Os Lacos que Nos Unem), familiar (tão traumática quanto qualquer uma de nossas memórias) e profissional (de passar temporada comprida sem trabalho, o que maltrata qualquer ânimo). Destacou como temos que nos por à frente do que faremos, diremos ou sentiremos, pois não podemos culpar os que nos cobram o que não desejamos para gente e como os que se esquecem questionam e se amarguram depois.
Sim, foi uma overdose positiva de auto conhecimento, coach e empreendedorismo, por assim dizer. Domingo ainda rolou mais thetahealing coletivo e novamente um sono sem fim que me carregou pra cama após as palestras e vivências cedíssimo, após uma pizza solitária. "Paguei de anti social" com estes efeitos colaterais, mas segunda cedo consegui caminhar um pouco na água friorenta do mar de Canasvieiras, lembrar de vários que me sugeriram dar palestras e ter um clique: daria de acolhimento da diversidade pela multipotencialidade dos estudantes, por ter passado em ambiente tão pasteurizado quando o jornalismo, celebrar a diversidade maior das escolas, estranhar a contradição de alguns conservadorismos aqui e ali, entre professores, gestão e estudantes e sentir saudade do palco, onde cabem negros, azuis, japoneses, lilases, gays e todo o universo rejeitado fora das artes cênicas. Agora,.. Mãos à obra!
P.S.: É uma das poucas vezes em que não volto com o mal estar saindo desta "bolha de retiro" para o trabalho. Gosto dele, estou mais em crise com as distâncias, trânsito, poluição e dificuldade de rever os amigos de São Paulo.
P.S.:2 Parte dos links inseridos para dar ideia do que vivenciamos são antigos, pois as palestras e experimentações recentes ainda não foram editadas...

domingo, 18 de setembro de 2016

Então, essa sou eu após décadas de tinta e creme com petróleo?

Há uma semana me livrei do resto de tinta que ainda manchava meu cabelo: dois anos tentando deixá-lo crescer e tudo que ganhei foi uma "californiana sem querer". Uma "abóbora do Halloween" se instalou no fim das madeixas, que nesta altura do campeonato estava bem "ripongas" - e eu insistindo pros alunos que hippie era a resistência paz e amor dos anos 60, não eu.
Mas somos cobradas não? Uma amiga queria saber porque estava descuidada, nesse meio tempo uma tia passou colorantes sem amônia e de tanta pressão até fui usar henna pra cobrir as manchas, mas ao chegar onde usam o produto caí de amores por um "vermelho light" meio natureba. Quando visito parente cujo hobby é comprar, a gozação é que não pinto "para preservar os lençois freáticos". Já até li sobre o tema, devo ter comentado, mas não lembro de ter defendido o "discurso ecochato".
Nunca tive muita paciência para horas e horas de manicure, cabeleireiro e depilação, suas "conversinhas novela" e revistas de fofoca da "era da pedra". Mas por um bom tempo, era o loiro que cismava que combinava, até cair de amores pelo vermelho, só que anos e anos depois, concordar com um amigo na casa de quem vivia dormindo:
- Pô você pintou há uma semana, mas desconfio que a maior parte ficou no box de azuleijo branco depois que você tomou banho.
Faz algum sentido virar escrava de fazer retoque? Sei que não há comparação com amigas da transição capitar, que antes não podiam tomar chuva, entrar na piscina ou no mar. Mas tínhamos também uma bronca danada de manchar tudo que é toalha e roupa depois de pintar:
- Afinal o que desse tom ficou em mim depois de tanto desbotar?
Também achei que não tinha sentido falar às amigas de cabelo afro para se assumirem e eu com uma cor que não era minha. Numa extensão universitária da Federal do ABC e Ação Educativa, me toquei que só adotávamos padrões de cores de cabelos europeus. Nem lembrava o que estava por baixo de tanta amônia.
Acompanhei ainda conhecidas tirando produtos com derivados de petróleo para adotar higienizador menos industrializado, sem espuma, os no poo. Me enviavam links de blogueiras que ficaram até uma semana sem lavar para sair resíduo dos antigos e usar estes mais naturais. Se fosse tentar uma transição dessas, terminava cheia de dreads. Queria, mas cismava que não fosse para cabelo enrolado. Fora a questão do bolso não comportar por um tempo. Em meio a um programa de auto conhecimento em que tirei muita dúvida com colega virtual que lembrava a Vanessa da Mata, fui à Garagem os Cachos, onde tratam as crespas de São Paulo. Como a cabeleireira já foi jornalista, explicava como era meu cabelo, o que faria com ele e como reagiria. Há quase sete dias adotei os no poo, pois também não concordava com a espiral de consumo em que nos perdíamos - nem tanto por não achá-lo bonito com creme antigo, mas por passar shampoo, condicionador e leave in comuns e ainda não dar conta de desembaraçá-lo, coisa que fazia um tempo razoável atrás, com os dedos e condicionador no chuveiro mesmo. Só com o higienizador o cabelo já soltou todo. Sigo com aflição que mecham na minha cabeça, sempre cismo que estão "lavando louça nela". Mas tirando as manchas, apareceu outra cor, um castanho escuríssimo. Óbvio que não voltaria ao castanho claro de antes da tinta. Sigo em abstinência do ruivo. E me surpreendo de alunos, colegas e parentes afirmando que o rosto mudou, que combina com minhas roupas diferentes ou que fico mais nova. Quem é que dizia que o que assumíamos se revelava mais bonito que qualquer artificialidade? Finalmente desapeguei de outra identidade visual e mantenho o tratamento  natural, me habituando aos poucos à falta de espuma. Ao menos não testaram em animais.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cordel anti dor insistente da avó

Há muitos anos dava aula na roça uma senhorinha que podia não ter estudado muito, porém na época quem tinha um pouco mais de conhecimento já partilhava com os demais na escola rural. As família saíam dos sítios para só visitar parente, portanto era natural que primos se casassem. Aliás uma das filhas da protagonista da história achou bem esquisito quando veio para a cidade grande e as pessoas tinham amigos, já que sua vida social era toda tomada só com a "parentada".
Bem, a irmã desta professora na roça casou-se com o irmão de seu noivo e mudando do interior de São Paulo pro norte do Paraná chorou muito de saudade da família original. O noivo da professorinha em questão cismou que não aguentaria casar e levar outra emotiva lá para a região da terra vermelha, cheiro de café e chuva e escreveu para ela.
Professorinha sustou a aula para conferir a carta, era algo esperado, muito diferente dos zap ou mensagens pelo Face de hoje, chegando tão rápido e fácil. Porém quando foi dar uma namorada literária na missiva, o noivo havia escrito:
"minha querida noivinha
escrevo a fim de falar do nosso noivado
tão bem começado, tão mal acabado"!
Nem leu o resto: foi uma choradeira que só, Os alunos não entenderam, mas também não conseguiram continuar com ela seus estudos. Rolou chá de camomila, colo de prima e consolo de irmã, pois as famílias eram generosas no tamanho. Mas a chateação se esgotou naquela mesma noite.
Anos e anos depois a ex professorinha, já dona de casa, casada com outro amor, tendo criado sete filhos e mimado dez netos e um bisneto, sempre retomava esta lembrança, arrematando com o conselho sábio que a família tanto ouviu:
- Terminou? Tem licença para chorar hoje e já está de bom tamanho.
Vi o bisneto adolescente seguir o conselho dela anos e anos depois com término de namoro pelo zap.

Penso que tenho que adotar a máxima da avó para desilusões profissionais, com amigas ou sonhos que se esfacelam. Adaptei a sabedoria meio demoradamente, mas antes tarde do que mais tarde!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Tinha uma formação no meio do caminho...

Estava acostumada a sair mexida de retiro, curso de yoga ou vivência de massagem. Não de curso cabeçóide educativo. Mas deve ser de se esperar quando vamos fazendo as conexões entre as tantas coisas que nos encantam. Explico: acabo de fazer um... Workshop? Oficina? Vá lá, dois dias seguidos sobre educação popular freiriana. A troco de que, cáspita, se já ouço isso dia e noite no Ensino de Jovens e Adultos da prefeitura de Santo André? Se já estudei pro concurso de São Paulo, meio que tudo na mesma linha, porém algo me dizia que devia ter um parafuso faltando entre o idealismo de coordenadora, a ironia de colega de trabalho e o próprio questionamento freiriano "onde deixei uma metodologia, que nem fui informado"? Bão, lá fui eu, viciada que sou em formação livre, tão "conhecimento a partir da prática e/ou debate". Ao menos na área cultural... Pois com o formador que foi do Instituto Paulo Freire tínhamos mesmo que intervir para construirmos juntos essas percepções que buscávamos, pois "se o planejamento dele desse certo, não tinha funcionado". A descoberta provando que nasci jornalista e morrerei jornalista é que falta sim um capítulo de um dos livros de Freire, que relaciona a pedagogia do oprimido à revolução, mas que não pode ser publicado na ditadura ou nos Estados Unidos, por motivos historicamente compreensíveis - só que um pesquisador que este professor estudou levantou o conteúdo estrategicamente cortado na Suíça. Um mapeamento mais cuidadoso da dialética que minha prima marxista tanto citava e... Eureca! Não, não tinha me esforçado, batalhado, estudado pouco ou tinha inteligência aquém do necessitado por este mercado tão"aberto aos que ralam". Tive chefe, tia, médica, pai, terapeuta, ex sem noção, propagandas e imprensa "estrategicamente coxinha"martelando estas falácias orelha adentro, em momentos em que o mercado me tratou mais descartável que modess. Estes julgamentos foram me empurrando mais para o limbo das dúvidas insolúveis "qual a pisada de bola da vez, já que nunca são honestos o quanto precisamos ao final das parcerias trabalhísticas"? E conforme os pés no traseiro foram se sobrepondo, deixei de conseguir enxergar a pseudo meritocracia cruel por trás dos questionamentos ou rótulos:
- Mas você já foi mandada embora?
- É batata: quem é inteligente e se esforça se posiciona bem no trabalho!
- Você não para em lugar nenhum!
- Não se esforçou o bastante!
Entre tantos outros abusos dos meus ouvidos e emocional. Não percebi como vamos para um lugar de dúvida do qual só saí fechando a porta conectando o pouco de Marx que estudei na Ação Educativa, esta formação recente, as lições "de orelhada" pela prima comunista, pai sindicalista e tias militantes de esquerda e o... budismo! Quem diria que se conectaria o espiritual ao dialético hã? Foi noutro ponto da aula, em que o formador explicava o quanto os dominantes tentam se sobrepor aos oprimidos detonando a cultura popular (tinha escutado explicações por cima na Faculdade Paulista de Artes), mas ela pode agonizar e se reiventa, balança, mas não cai, numa ginga tão similar à capoeira. Uma interpretação budista tibetana dos ensinamentos que estudamos há milhares de anos vê nossa mente como uma natureza luminosa que pode se recriar muito além de suas origens. Daí os filhos de esquerda de pais de direita, ou vice-versa, acadêmicos entre piões de obra, entre tantos casos.
Fora que depois de estudar orientação profissional, de novo com a Ação Educativa, na Federal do ABC, me via meio impotente para auxiliar os jovens nesta empreitada, pois volta e meia redesenho meu projeto de vida, porém... Nada de angustiante nisso! Se pelas vias formais nos sentimentos meio engessados ou solitários, já que tantos e tantos se adaptam à rotina, à burocracia, às normas, ao "foi sempre assim"... É possível se unir aos que não aceitam que seja desta forma desde que o mercado virou esta pasteurização das pessoas e serviços, pois sempre é viável partir para um movimento, uma associação, uma militância, um grêmio, uma terceira via. Um caminho do meio!
Foi um sem fim de debates e discordâncias o bastante pra não caber tudo que o professor - dos sem teto urbanos - programou que era preciso. Temos pela frente outro encontro, para partilhar o restante do que ele considera importante. O próprio resgate de experiências dele em comunidades longe dos grandes centros, as vivências dos outros estudantes são outros aprendizados não planejados de início.
P.S.: Em tempo: trabalhei/ estagiei com barriga e olhos vazando de apendicite e conjutivite e fui descartada em ambas situações. Mas não se empenhei... Oi?!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Banzo do sertão

Há dois meses voltei do cerrado mineiro, onde troquei textos das mesas redondas do XV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas por hospedagem e alimentação solidárias na Chapada Gaúcha (MG). Mas o cerrado da terra de Guimarães Rosa não saiu de mim. Vi as barraquinhas de buriti e capim sendo ocupadas aos poucos na praça da pequena cidade. Fui generosamente recebida pela presidência da Adisc, Agência de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável da região, por profissionais e agora novos amigos, que fui conhecer e me enturmar lá no evento mesmo. Quando passei mal de "overdose da produção do cerrado", depois de comer castanha de baru, sorvete de araticum e suco de coquinho, foi a mãe do meu anfitrião que me fez um chá de boldo do pé da planta - depois só faltei vomitar os olhos, ouvidos e nariz, mas ao menos salvei a noite pra me encantar com as dançarinas, o boi de - papel marchê? Que material faz aquele ator amador dar vida ao boi das lendas que li pra vários estudantes, mas só me apaixonei ao vivo no norte de Minas mesmo? Quando comecei a botar os bofes pra fora em plena cobertura da mesa sobre turismo de base comunitária (ah, a palestra em que chorava pela conexão com Gabriela, da Estação Gabiraba, que faz este turismo atípico no norte!), um dos organizadores da caminhadona Caminhos do Sertão, Almir Paraka, parou uma entrevista que dava para outra pessoa e foi me socorrer. Eu também já fui ajudada por estranhos em São Paulo quando passei mal em plena pauliceia desvairada, mas na roça mineira é como se não fôssemos estranhos, como se virássemos todos sertanejos, uma "familiazona" sem fronteiras (e por acaso não sou? Com avô que levantou a árvore genealógica de gerações e mais gerações jurando de pé junto: "somos caboclo com caboclo! Sem parente de fora do Brasil"!). Aliás tô pra ver cara mais inteligente que este Almir. Ele e outros palestrantes lá das mesas redondas do encontro fizeram renascer em mim aquela velha paixão jornalêra "que quando a fonte entende muito ou é apaixonado seja lá por que assunto for, eu me encanto junto até o fim da entrevista ou cobertura". No meio do meu "passa mal", comigo causando lá no fim de um dos debates, a Damiana Campos, do Instituto Rosa e Sertão parece que me deu um reiki, uma benzedura - bom, passando mal qualquer ajuda informal e dada de bom grado é bem vinda, mas lembrei da benzedeira que tive anos e anos aqui na esquina de casa, em plena "SãoPaulona", mas que infelizmente já se foi... Por falar no trabalho desta artista mineira, Damiana, as apresentações, articulações do Instituto durante as discussões e ainda por cima me receber para almoçar na mãe dela evocam memórias que se tatuaram em mim, só ainda não entendi onde - por poros e mais poros deste meu maior órgão - a pele impregnada de lembranças afetivas! Difícil ordenar em texto mais ou menos linear tudo que me capturou o coração irremediavelmente lá, mas logo que cheguei e ainda conferia a exposição e programação se configurarem aos pouquinhos no município, conheci seu Aleixo, da comunidade dos Patos, com suas memórias e histórias que tanto, tanto lembravam meu avô paranaense, registro vivo da migração de sua família da Bahia até Minas e a resistência deste povo na briga pela terra contra empresas avançando em suas demarcações rústicas de propriedade...

E depois, mais tarde, conferi-lo comandando a folia de reis e contando que ouviam em família:
- Ou dançam ou apanham! - e assim nasceu a primeira diretora teatral amadora e autoritária, diríamos aqui no "teatrão" paulistano...
Teve uma noite em que ganhei a graça de ver chegarem os caminhantes do Caminho do Sertão que mencionei acima, depois de uma semana circulando 160 km, refazendo a trilha de Riobaldo, do Grande Sertão Veredas, recebidos com festa em tudo que é aldeia local, não foi diferente na Chapada, em que cantaram para eles - as talentosas irmãs artistas Campos da cidade deste Encontro, conferi várias pessoas colocando água para eles descansarem os pés, preparando um café caprichado para que depois os participantes se "refestelassem" na comidinha mineira, além de muitos moradores e visitantes cheios de dúvidas, curiosidades e orgulho deles puxando uma prosa sem pressa.
Como se não bastasse tanta memória de aquecer o peito, ainda ouvi a missa sertaneja cantando "ó Deus salve o oratório"... como minha tia conta ter feito nas procissões do interior de São Paulo, então desconfiei: os interiores desse Brasilzão se conversam, não tem problema a lonjura que os distancia!
Fiquei muiiiiito animada pra um mestrado depois de prosear com a antropóloga Ana Carneiro, que fez um "estudão" sobre as receitas e histórias dos buraqueiros - ah sim, você sabia que além dos povos originários quilombolas e negros, temos também as veredeiras, machucadeiras e estes que a escritora estudou pela região do norte mineiro?
Reforcei meu apoio aos assentados ouvindo Maria, que veio de Brasília, falou nas mesas redondas e indicou aos "caipiras do asfalto" que não podem gastar os tubos em orgânicos Pão de Açúcar o serviço de entrega Céu de Passarinho. Por aqui podemos comprar do Armazém do Campo e dar um olé nos atravessadores que só encarecem as revendas, sem dividir lucro com produtor.Com relação a custos, me encantei ainda com o pesquisador Victor esclarecendo que valores de revenda tem embutido não só o que ganhamos, mas impacto ambiental, na saúde, impostos, parceiros para chegar aos clientes... E que acreditamos que o justo seria o pequeno produtor atender ao pequeno consumidor urbano!
Quis reforçar as lembranças, os agradecimentos às acolhidas, os novos amigos e também REcontar aos que já me "cantaram para dar aulas de teatro por lá", pois a arte educadora que fazia isso na Chapada estava voltando ao Rio de Janeiro: repassei tudinho, tim tim por tim para meus alunos e não só - também aos professores no Rede em Roda, encontro de partilha pedagógica que agitamos por aqui, na cidade que não para. Dividir que desconfio terem sido minhas primeiras férias em que relaxei de verdade, voltei com dor no coração de retornar, a ponto de passar dias chorando com a demora no trânsito, a poluição sonora,  a poluição das nossas vias aéreas, a distância e demora para rever os amigos, pois muiiiiitos conciliam diversos trabalhos, uns pra arcar com as contas e outros para assegurar a atuação profissional significativa que caçamos por toda uma vida.
Só sei que há uma semana e meia também visitei uma antiga amiga em Santos, embora não seja uma cidade tão sossegada quanto a Chapada Gaúcha, é um município que namoro viver quando aposentar (estou flertando com a ideia por amadurecer ou ficar tiazinha mesmo?). Foi outro retorno doído, pelos mesmos motivos que olhei de outra maneira ao vir do cerrado mineiro. Devo estar com alergia à cidade gigante pela 1a vez na vida. Por conta de que insistimos então? Parcerias, diversidade na programação cultural, parques que aliviam a falta do mato, parentes que "seguram o tchan" emocional conosco quando o bicho pega, amigos que apesar dos raros reencontros valem uma teimosia urbana ao nos revermos, retornos profissionais que começam a valer a pena, contações de histórias que me enchem o coração.... Até quando daremos conta de mais de 11 milhões de vizinhos, só Buda sabe!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Entre histórias e aulas

Recentemente contei a história de Urashima Taro na feira literária do Colégio Santa Clara, onde marco presença há dois anos e pela primeira vez o "conto me pediu uma música" no meio da narração dramatizada. Quando o pescador se encantava com o reino do Rei dos Oceanos, cheio de pedrarias no chão, "tasquei-lhe" se essa rua, se essa rua fosse minha... E sem estranheza a sabedoria oriental deu as mãos à tradição oral brasileira. E de quebra os estudantezinhos cantaram juntos.
Realmente achei que os contos usados em asilos podiam ser adaptados e explorados entre os
pequenos e suas professoras: levei ainda A Velhinha Que Dava Nome Às Coisas. Teve irmã e "aluninha" lenbrando de mim no último evento literário, outra estudante contando das suas corujas na escola de voo (não sabia que existia esse ensino especializadíssimo em Sampa) e alguns muito curiosos "você já escreveu um livro"?!
Por fim carreguei ainda a tiracolo A Rainha das Cores, de Jutta Bouer, que já tinha destacado as cores nas contações da Livraria Cultura,  só que também associo os tons a lugares (na obra, a autora só conecta às emoções). A personagem Coralina sempre me lembra nossa poetisa Cora (só pelo nome, pois uma é temperamental, outra pareceu ser um doce por toda uma vida).
Feito criança no mar
Não sei vocês, mas tenho A-DO-RA-ÇÃO pela praia, onde fui iniciar a parceria com a Melhoramentos. Montanhas e brisa do litoral te recebendo de volta, é ou não um cartão de visitas e tanto?
Tive que fazer uma "escolha de Sofia": Ziraldo ou Pedro Bandeira? Acabei lendo e adaptando com facilidade O Rei do Grande Rio, do segundo escritor e no evento de folclore do Colégio da PM de São Vicente destaquei sustentabilidade, cantei "eu não sou daqui, marinheiro só" e "quem te ensinou a nadar" - com as vozes do público acompanhando... O brinde do fim de semana foi rever amiga da Metodista, após 16 anos da nossa formatura, que também foi para a educação (deve ser a 4a dissidente da comunicação que tenho notícia... Jornalismo está na UTI mesmo).
Música vai na sacola de palha de Cuba
Invariavelmente recorro à minha memória da tradição oral nas apresentações, mas ao contrário das
colegas da pós na arte de contar histórias, a maioria lembra das mães ou avôs contando e cantando... Até recordo de momentos com meus familiares fazendo isso, porém não o conteúdo. Depois de dar a formação em literatura nas CEIs São Benedito e Nossa Senhora de Fátima em 2015, cismei que foram nas minhas "escolinhas" que ganhei esse repertório - ele me parece ancestral o suficiente para eu não identificar sua origem...
Apesar do mercado sempre demandar narração dramatizada só para os pequenos, semana passada meus estudantes adolescentes pediram música e
ainda me saíram com essa:
- Apaga a luz e conta uma de terror!
Eles bem que confirmam o que Rubem Alves dizia "adolescência é o prolongamento da infância".
Protagonistas de parte da aula
Os adultos faço voltar ao lúdico infantil ensinando teatro do oprimido (TO) e a maioria improvisou hospital e ônibus, que é onde tem mais desrespeito de direitos pra caber a sala toda atuando. Fui congelando e pondo outros elementos: grevista, médico cansado e repórter para incluir alunos que demoraram a entrar em cena. Discutimos cidadania, política, machismo e literatura para "temperar" a aula, mas não esperava que falassem aos outros professores - estes comentaram na sala em que passamos o intervalo: é, eles refletem também fazendo comédia (imaginava que discutíssemos depois só vendo). Acabou que até no corredor tinha adolescente querendo saber para que sala eu ia!
Só para ressaltar o quanto eles querem sim atenção e novas informações, eu e o namorido estamos fazendo formação e voluntariado no projeto Preparando Para o Futuro da ONG Sonhar Acordado. No fim da capacitação, dinâmicas e debates sobre esperança e consumo consciente já tinha jovem querendo saber se dava teatro, se minha pulseira era mesmo de canela e parte do grupo pra trabalho artístico se animou com a ideia de fazer TO.
Esperança para acender a chama alheia
É como já vi um antigo professor homenagear sua mestra no Face: o que nos passaram não estanca, nem morre, seguimos ensinando e o conhecimento flui como rio. Principalmente para não deixar a "peteca do ânimo" cair de tanto que meu mestre me ensinou, porém anda meio "borocoxô": a vela de um ensaia apagar e a gente segue acendendo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Reminiscências de uma partida recente

Quando uso a roupa que herdei da minha prima é como se ela ainda estivesse próxima. Em tempo: ela pode não estar assim ao alcance de um abraço, mas mudou pro outro lado do mundo e economizar o bastante para visitá-la na terra dos cangurus parece tão improvável quanto por minha alimentação em ordem depois que as contações, formações e aulas me tomaram toda agenda possível e imaginável. Para as famílias já mais distanciadas, esta saudade tão rápida (não tem uma semana que ela foi) parece um exagero, mas como diria minha avó, para os "loucos mansos" desta casa, é perfeitamente compreensível. Minha prima foi a caçula dos dez primos irmãos, que comeu meus batons e enfiou o resto deles nos meus sapatos. A que nos deixou com água na boca
pois tinha festas em buffet, que nós primos mais velhos nunca chegamos a ensaiar comemorar com pompa e circunstância como ela. É a descendente de pernambucano "bravinha" (como se os com ascendência interiorana não fossem). A que defendeu os nordestinos na Internet quando os "fascistas saíram do esgoto" na Internet (e às vezes na rua) na última eleição. A que também era um doce com sua avó de Pernambuco, também uma graça. A que aprendeu a cozinhar trabalhando e morando fora. Ela foi minha dama quando enfiei o pé na jaca e casei, mesmo sendo tão pouco católica, mas ela arrasou com seus cachinhos e riso meio sem graça. Afinal quando fiquei "borocoxô", era ela que me buscava, ainda que não fosse pra fazer nada em sua casa, mas deixar de me sentir um bicho preguiça inútil em pela crise de deprê. Ou fui eu que fiz um treinamento teatral online a toque de caixa quando ela quis fazer seu TCC conectando a hotelaria ao teatro. Depois também fui eu que "pus fogo" pra ela e sua amiga empreenderem comigo treinamento juntando as áreas anos depois. A que chorou quando homenageei seus pais com cordel num dos aniversários de casamento. A que casei contando e cantando na festa julina familiar. De quem herdei uma paixão tórrida pela cama (se é que isso é possível tendo vindo antes), quando estamos cansadas e só queremos sonecas e Netflix. Com quem ria ou falava sério acampando em sua "camazona" em reencontros familiares que enchiam a casa de sua mãe. Dona da casa em que promovíamos almoços ou jantares divertidos na lage de sua mãe depois da reforma no "cafofo dos Nunes Mendonça". Sei lá, TPM e partidas me deixam sensííível. Por conta disso, ao invés de dar tchau pessoalmente mandei um livrozinho artesanal e caseiro no lugar duma despedida tragicômica e fui atrás de tratamento alternativo. Seria muito chororô pra um até breve. É quem admiro e também me espelho para um voo mais arrojado estudando ou encarando sub emprego fora, ainda que temporariamente. É para quem desejo muitos negócios, cafunés neste casório recente, viagens, comilança, novos amigos, paisagens de tirar o fôlego e que sempre se lembre de onde veio, para ao contrário dos sem noção política na atual conjuntura brasileira, tenha sempre consciência de para onde vai.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Pirando antes de apurar

Quando acordo e cai só um filete de água, tenho medo de sair às ruas: penso que viveremos aquelas ficções fatalistas em que as pessoas estarão se estapeando por qualquer gota. Sei que estou até privilegiada: a última ocasião em que aconteceu foi entre um fim de noite e começo de manhã. Tenho trocado com conhecidos que precisavam levantar às três da madruga em tempos de seca urbana, pois o fornecimento só ia até seis da manhã. Por razões que fogem ao meu racional, esta manhã estou pirada sem a dita cuja. A pia começou dar cria, já há lactobacilos vivos sem contribuição de nenhum casei Shirota. É preciso conviver com a própria merda: o ser humano é isso aí também, lembra do filme o Cheiro do Ralo? Quem pariu aquilo no vaso? Talvez não seja tão cheirosinha quanto faz crer minha memória afetiva do banco de elogios. Haja fósforo. Agradeço aos céus pelo namorado ou a amiga diarista terem enchido o filtro (vivo esquecendo) e tomo o que resta quase em conta gota, me pelando de pavor de terminar antes do fornecimento voltar. Há dias em que trabalho esquecendo de me hidratar. Basta que só caiam duas gotas da torneira para desejá-la desesperadamente, minuto a minuto. Acabo de tomar café da manhã e já tenho fome: bem disse um terapeuta ayhurvédico (ou seria da medicina tradicional chinesa? Começo a ter delírios de memória) é como se tivesse dois estômagos. Faço logo um chá três em um: pro estômago, pro nervoso e com um fiapo de anis, pra adoçar muito ligeiramente, pois prefiro sem açúcar mesmo. Como é que não fazemos manifestações dia sim, outro também contra a má administração da Sabesp? Lembro que há pouco tempo fizeram um treino de ocupação militar da empresa, talvez também tenhamos que aprender com dissidente do exército a brigar até a morte pela última garrafinha. Sou daquelas que chega ao trabalho invadindo a diretora pela água atrás da pilastra, protestando que não se nega água a nenhum ser vivo e nem se solicita participação no rateio de arte educador que passa o chapéu, mas às vezes ele só recebe parabéns. Hoje é desses dias de virar piadinha na repartição. Será que a Sabesp é mais privada que pública? Como é que não fomos sequestrar algum secretário e só devolvemos após o reabastecimento normal na periferia? A quem recorrer para pagar menos, já que as torneiras às vezes fazem greve? Uma coisa é se entupir em três trabalhos, voltar exausta e desmaiar esquecendo do banho. A outra é acordar aguada por um chuveiro e ele avisar "tem, mas acabou". E essas tigelinhas de água da gata? Aguentam quanto tempo mantendo dengue à uma distância segura sem limpar e encher novamente? Talvez eu precise de mais chá... Ah sim, o namorido solicitou conferir junto ao condomínio o que ocorre, pois não bota fé em nossas "teorias da conspiração"... Procuro a administração: apenas lavam as caixas d´água e devem retomar o abastecimento em breve. E eu aqui desperdiçando meu talento dramático!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Vigília de estranheza

Mexi na bolsa da minha mãe depois de anos, infelizmente não com curiosidade infantil e sim para autorizar a internação dela num andar enquanto meu pai se tratava noutro, dentro do mesmo hospital. Tinha horas que meu piriri de dias tinha sustado. A carteira dela permitiu uma viagem no tempo: tinham fotos de infância, pose minha milagrosamente séria, do meu sobrinho bebezinho, dela nova, do meu pai no Exército - uma foto que já tive e não sei onde foi parar.
Não sabemos cáspita nenhuma sobre os pais virarem crianças, prática de compaixão e empatia antes de cuidarmos ativamente de quem nos permitiu chegar até aqui inteiros e "sacudidos". Há dias quando perguntavam se eles já não estavam sendo cuidados e o que eu ajudaria continuando em vigília ao lado da cama da mais fragilizada, nem sabia responder, nunca administrei um na semi intensiva e outro no quarto comum, só sentia grudada ao rodapé do leito, para... Mais tarde assinar papeis? Pedir pra ler a meditação da mulher da agenda da recepcionista? "Tourear" o pai ansioso? Não saber o que fazer com minha própria impotência?
Uma vez brinquei que só faziam e diziam o que queriam feito crianças na 3a idade e ouvi pra termos a mesma boa vontade que tiveram comigo pequena. Mas tenho a impressão que ao invés de ser educada, fui treinada militarmente pelo meu pai. E sem ter tido filhos, nem ensaiei razoavelmente para ser uma cuidadora mais certeira. Só sigo improvisando, num "nervo" que erre a mão e caia ou sei lá o que. Sigo desconsiderando o mal estar de não dar conta de tirar qualquer sombra de doença de quem gostamos com a mão. Descobrir que pior que ficar doente é quem amamos adoecer e não ter muito o que fazer. Comemorar ter trazido o computador, mas para que mesmo? Não continuo cinco minutos plugada nele sem parar e ajudar numa neura de que precise de algo que não sei fazer. Nenhum dos livros ou apresentações que ainda não consegui conferir do curso recentemente terminado será colocado em dia. Teria que dispor dum espaço já ocupado, ainda que momentaneamente. Ouço pra não esquecer de respirar, mas quem faz isso conscientemente com medo dos próximos capítulos dessa vigília? Ou sei lá, quem deixa de fazer, mesmo superficialmente? Os parentes ajudam a revezar, não é muito levezinho fazer esse cuidado aprendido aos 45 do segundo tempo sendo filha única e ainda assim o tempo no hospital é DI-LA-TA-DO. Que horas a medicação vem? Quando o mal estar passa? Só amanhã o médico chega? Quem diria, sentir saudades do trabalho. Não é que por planejamento, caracterização e projeto de aula em dia fica incrivelmente mais divertido de repente? Limpar a caixa de areia da gata, coisa mais delícia! Fazer algo que dependa de nós e saibamos que damos conta. Lidar com o "o não sei quando melhora, como e de que jeito"... Sei que não daria conta de viver para estudar o corpo humano, mas será que esse processo para um médico traz o mesmo tanto absurdo de descoberta impensada?
Lógico que tem também seu lado bom: uma colega me vibrou amor incondicional sem que eu esperasse - estes presentes intangíveis, sempre vindos de onde não se espera - e perguntou se me achava merecedora do amor incondicional divino. Fiquei horas argumentando "cabeçudamente" que sim, não só com ela, mas com meu namorado à noite também, para muitas impressões depois sentir que sinto, mas minha razão não tem muita ideia do que se trata, não alcança compreender. Até finalmente entender o que dizia a professora do curso recém terminado: sem sentir e pensar igual, nada fluirá. Somos todos parte da mesma família: conectados, ainda que pareçamos apartados. Aquela experimentação de que cismávamos ser uma gota à parte e com tanto amor vibrado de tudo que é lado, vivenciar que nunca deixamos de ser oceano. Uma incógnita o que vem pela frente, mas como previa Guimarães Rosa "viver é perigoso". Topando o medo subitamente vamos nos fazendo fortes. Ainda que com receio e atrapalhada.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tias postiças de coração saqueado

Afilhado Lucão visitando madrinha quebrada
A tia tem o coração confiscado pelos sobrinhos adotivos sem previsão de que ele vá voltar ao peito. Quem não tem irmãos mas adora um pequeno sai adotando os filhos dos amigos e primos - porém sem escolha nenhuma, eles é que vão te tomando de amores num assalto imprevisto. É verdade que não começou com os filhos dos amigos ou primos. Foi minha primeira enteada que quando perguntada se gostava de mim se saiu com a resposta:
- Eu amo! - e se agarrou às minhas pernas.
Desde então um pedaço do meu coração tem sido levado a cada primo de 2o grau que nasce ou amiga que confidencia esperar um bebê. Como toda parceira de feminices queremos sentir a barriga se transformando em lua cheia, saber dos ultrassons, oferecer sabe-se lá o que quando estão passando mal.
Como ser mulher é partilhar duma culpa jogada no nosso colo sem negociação, precisando estudar, trabalhar, fazer frela, exercício e ficar longe significa uma dor no coração de perder primeiros passos, palavras, dentinho. É escrever às mães meio irmãs querendo "detalhes sórdidos" de cada passo a mais que o "sobrinho" dá.
Leo caindo nos braços de Morpheu
Claro que morri de paixão com a filha da Lu Arroyo se pintando na Viradinha, com a Marina Lax da . Pesquisei vídeo de parto, gamei no movimento de humanização do nascimento, empoderamento materno, quero estudar para doula...! Fui visitar a Carol na véspera da cesárea, conferi o baby pouquíssimos dias depois, fiz dormir, me preocupei feito minha mãe quando ele operou a cabeça, quis ir ao hospital dar uma força pouco antes dele "entrar na faca", mas minha irmã é resiliente como só quem tem anos de militância:
paixão nonsense
Eu e Tatit pirando na curiosidade do Leozinho
Nanda Favaro me dando um peixe desenhado quando fiquei mais velha, quando a Narinha da Tatit Brandão quis que fosse convidada pruma festa dela mesmo sem ter filhos, numa ocasião mais espartana em que a lista dos que seriam chamados só incluía mães, vibrei com o primeiro filho da Bruna Morais, cabulei aula pra ver o nascimento da prima mais nova Nathalia Nunes e ganhei até concurso de redação falando da chegada da outra prima novinha Raira Torres ou mesmo fiquei na adorável expectativa quando vieram os novos filhos da Nanda e da Bru, fui uma madrinha relapsa da Luana, filha da Ana Paula Carvalho e fui arrebatada batizando o Lucas filho da prima Mariana... Mas quando a prima IRMÃ Carolina Mendonça engravidou do Pedro foi um processo meio atávico de quem se bateu na pré infância enjoar junto, comecei um diário da espera dele e dei para ela acabar de preencher depois no meio da gravidez, quando ela começou a curtir. Estes dias li que tia não troca fralda, deixa isso para a mãe. SQN Pedro eu já troquei sem sentir nem o cheiro, tamanha a
Pedroca me enlaçando definitivamente

- Fica aí em casa que está mais confortável. O que é operar um filho pra quem entregou a cria pros nazistas em campo de concentração como a Olga Benário?
Já contei muita história em festa, livraria, centro cultural, parque, teatro, escola, fiquei encantada com aquele momento em que as crianças acompanham as descrições dos contos em que estou visualizando as cenas, mas nada como iniciar a lenda indígena de surgimento da noite no aniversário do Pedroca, esnobando a princípio pois estava enlouquecido com um presente de carro de bombeiro e depois vê-lo se aproximar, levantar o rostinho ou as mãos e querer tocar as estrelas imaginárias quando elas "saem" do caroço de tucumã. É um pedaço de mim mesmo. Na nossa família não tem essa de primo de 2o grau, parente é tudo um balaio só. Para ter ideia minha tia, mãe da Carol, quando veio do interior de São Paulo pro ABC achou estranhíssimo as pessoas "terem amigos": ela estava acostumada a só ter primos. O Mendonça só saíam das roças pra verem os Machados, que por sua vez só visitavam os Duarte, que só tomavam cafezinho nos Brandão. E acabou-se. O resto eram chefe ou colega dee escola. Não havia amigo pros "loucos mansos" da nossa família em Oswaldo Cruz, Marília e Vera Cruz. Eu sempre tive primo passando temporada em casa feito irmão postiço, mas também me acostumei cedíssimo a ter amiguinhos, já que uma das poucas coisas que gostava na escola era a socialização.
Mas "voltando à vaca fria": toda hora quero saber das sacadas no que o Pedro inventa. Mostro vídeo, apresento foto, orgulhosa feito madrinha de consideração (e comunista lá batiza filho?). Tem amiga que diz que só filho provoca umas ondas de felicidade nos pais, Óbvio que não tenho muito como argumentar sem ter parido, porém já ouvi colega da antiga profissão dizer que o amor aos filhos é da mesma natureza dos bichinhos de estimação, mas muito extrapolado. Sendo "mãe" do cachorro Bidu e da gatinha Peteca e fazendo um paralelo, tenho sim umas ondas de felicidade com os sobrinhos adotivos, provavelmente menos intensas.
Pedro é desses que diz que não queria ter nascido e sim, ser um carro de corrida. Sai emburradinho do quarto quando acorda e os pais não estão perto. Quando a mãe pede pra sair do banho, ele pergunta se a polícia virá tirá-lo. Quando Carol explica que ele nasceu pela barriga, pergunta se todos os bebês nascem assim e quando ela diz que alguns nascem por baixo, chora por que queria ter nascido do modo natural. Pulou na cama nova depois de ter quarto montessoriano com colchão no chão. Quando vê que estamos caindo de cansaço e ainda quer brincar, vai nos beijar para acordarmos. Disse à avó quando minha prima desmamou que o leite da mãe tinha estragado, mas que ele ainda arrumaria pra ele uma mulher com leite, depois da avó contar que não tinha mais também. Dá um instrumento para cada avô, pai e amigo próximo e quer improvisar regência. Cria outra melodia para músicas infantis de nossa infância que as professoras também devem cantar na escolinha.Quando minha prima fala pra dar brinquedos a mais aos pobres, ele manda que ela dê os dela ou os traga pra brincar com ele na casa dos pais. Como não amar e ficar com um naco a menos de coração longe? Lógico que não é a mesma coisa que ser mãe, mas vegetarianos também aceitaram trocar sabores novos bons pelos velhos sabores conhecidos que abrimos mão. Lá estamos acreditando ou procurando algo igual a qualquer coisa? É visceral a paixão. Amigos ou colegas meio que me contento na marra a acompanhar distanciada a evolução dos pimpolhos. Mas do Pedro não, toda hora preciso cheirar, agarrar, ouvi-lo dizer que só pode beijar criança quando ela quer, contar histórias... No caso do afilhado do Paraná a distância e falta de $ da troca de profissão estreparam todo esse processo de aproximação. Estamos pondo essa curtição em dia agora quando ele retorna e me descobri boa no tato com os jovens também (tenho bode da pedância curitibana). Mas quanto ao Pedro, quase atravesso dois municípios pra rever, apertar, atualizar a paixão e lógico, trocar figurinha com a mãe, que por incrível que pareça, é mais nova, mas jura que se inspirou  em mim politicamente e nas referências. Falando nisso, deixa eu agilizar o próximo reencontro.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Todas as cores do meu domingo

A arte é uma maneira lúdica de não só se auto conhecer, mas também se aprimorar. Claro que um olhar externo ajuda: no ensaio da contação da história A Rainha das Cores sábado foi a minha filha felina Peteca quem lembrou que no geral, as crianças mergulham na sacola de acessórios cênicos. No domingo promovi o companheiro a diretor cênico, não pensando no ano de teatro dele, mas na temporada muito maior que a minha de narração de histórias nos hospitais, onde as crianças estão em situação menos favorável do que as que encontro em minhas apresentações. Ele indicou onde chamá-las para entrar na história,
onde mudar o ritmo (caramba, preciso voltar à percussão!) e que tal por menos elementos e explorar menos objetos mais estrategicamente? É bem meditativo deixar minha ânsia de experimentação para lá da cena - pra não dizer mágico dilatar a horinha de contação e oficina, é uma espécie de tempo suspenso: não tem o velho corre corre do fechamento de matérias ou a aflição de que os 45 minutos de aula não darão conta... O generoso caos criativo do "tsunami de crianças" ávidos por mais contação e a fim de experimentar as canetinhas que só pintam no papel da Crayolla neste domingo na Cultura da Paulista
dão o retorno do que vale a gente batalhar toda uma vida por um trabalho significativo. É verdade que elas mesmo se reequilibram: de pronto achamos que não será possível atender todas, aquela vontade sem fim de conhecer, desenhar, pintar... Que nada! Pouco tempo depois estão lá completamente entregues à pintura, às descobertas do colorir, ao trocar de canetinhas... Sem muita interferência minha ou dos pais. Pouca negociação e pronto, já estavam experimentando pintar só no papel que "casa"
com a canetinha mágica, no mostrar dos desenhos e no perguntar o que acha? 
- Mas o importante não é que você goste?
E a cada contação, um redescobrir do meu próprio portfólio de histórias: ganhei e comprei tantos livros nas feiras literárias dos colégios em que estive semestre passado, que nem todas pude reinventar, redescobrir e aprender nessas narrações. De novo o companheiro esmiuça nossas prateleiras fartas e me questiona:
- Ué, não será sobre cores? Nem precisa ir muito longe: olha aqui a Rainha das Cores, de Jutta Bouer. 
Aqueles traços simples, porém ricos, estimulando todos curiosos e encantados a também recriar seus súditos vermelho, amarelo, azul... Eles sempre nos passam aventura, agressividade, quentura, teimosia e calma? Ou nós imprimimos isso às cores e ao que elas preencherem? O cinza é sempre tristonho? Meu avô nunca achou tempo nublado feio e talvez com ensinamento "do meu primeiro griô" acho esse tempo até meio poético.
Nessas narrações quem se abastece mais? Eu, as crianças ou os pais? Empatamos no encantamento? Pra que por régua num encontro tão lúdico, interativo e criativo? Seguimos nos estimulando sábado dia 23 de junho, às 15hs, desta vez na Cultura do Vila Lobos. Vamos juntos?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Resgate ancestral caboclo

"Quando não se sabe para onde ir, volte para onde veio", diz meu mestre griô afro Toumani Koyaté. Oche e fui reencontrar minhas raízes depois de pegar um ônibus, avião, mais um ônibus e vir parar no sertão, sendo que sou do ABC paulista?
Por mais contraditório que possa parecer sim.
Meu avô dizia que somos "caboclo com caboclo", com total conhecimento de causa, pois era do interior paulista, foi pioneiro no norte do Paraná e fez uma árvore genealógica que foi muiiiito longe. Era bom de pesquisa o vô.
Como fui no jornalismo. E doida de saudade que estava de escrever, vim produzir uns textos para o XV Encontro dos Povos da Chapada Gaúcha mineira. Com ranço de divulgadora, ofereci matérias
para revistas e jornal. Pena que a velha mídia tenha focado mais no mais do mesmo.
Vim nesta mistura de apresentações da cultura tradicional, debates agro ecológicos e exposições literárias relembrar como este meu avô contava histórias, pois não explorava recursos cênicos e nos encantava mesmo assim.
Descobri que os contadores sertanejos tem uma conexão e tanto com os caboclos! Devem beber ma mesta fonte indígena, africana...
Na cidade grande exploramos mais cenário, figurino, adereços... Nada por obrigação, mas é que na falta dum rio, bicho real para ressaltar partes estratégicas do conto, vamos de imaginação e
acessórios de cena mesmo.
Como contei aqui em cima estudei com griô africano. Por estas bandas descobri que temos também griôs mineiros. E é com eles que ando me encantando, aprendendo, rememorando.
Nesta quinta vi alguns visitantes dizendo que a poeira os confundiu ligeiramente na estrada até que conseguissem chegar.
Gozado! Pra mim ela disparou a memória olfativa de parte do cheiro lá do norte do Paraná.
Onde da última vez que visitei, lamentei que a mistura de cheiro da terra, chuva e café já tivesse se perdido.
Minas é terra fértil em escritores. Na exposição dos quinze anos do Encontro, conferimos não só
livros do Guimarães Rosa, mas também de estudantes locais, pesquisadores que como eu vieram cair de amores, escritores e fotógrafos que eternizaram: a região já coloca a sustentabilidade em pauta tem tempo. Pelo menos seis anos, mas sou ruim de conta e posso ter calculado mal.
Como educadora, acho que os professores estão à frente inclusive das capitais, onde algumas escolas têm que dar olé em gestões meio truncadas para trabalhar gênero. Empreendedorismo e finanças pessoais também já chegaram às salas de aulas destas bandas viu?
A chita, os fuchicos e bordados que encontrei em barracas, produtos e decorações, também buscamos utilizar seja em cenários, acessórios de cena ou figurinos, mas não para ser a "contadora chamativa das crianças dos espaços públicos urbanos".
Por lembrar avô, infantil e audição natural de narrações antigas, poéticas, despojadas dos recursos explorados atualmente até de modo inconsciente.
Para encerrar, ouvi Nhambuzim fazendo as malas em cima da hora na terça. E por aqui tenho falado muito neles: música inspirada na obra de Guimarães.
Como dei por estas bandas? Uma professora contou na licenciatura que fez um trabalho com os estudantezinhos que tinha, de modo que eles explorassem mais expressão corporal e ela fazia narração, sempre remetendo ao cerrado, que até onde entendi ela conheceu vindo ao Encontro de carona (há anos havia pouco sobre o evento na internet). Terminei como os aluninhos dela: "quero conhecer o sertão".
E cá estou.