quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Enquanto eu viajava

Insônia na viagem: pode a divina providência ser mais fanfarrona que isso? Ouço a gatinha do hostel Cape Town miar pela janela, em Cambará do Sul. Os galos começam sua sinfonia matinal. E eu, como quem não dorme, quero matá-los às estilingadas atrás da cortina. O teto é de madeira, lembro do meu avô, dos primos, cheiro de terra, café e chuva do norte do Paraná e a saudade me inunda. O interior do Brasil é bonito o suficiente pra nos fazer sentir que a energia criadora divina não é uma invenção nossa por conta do vazio existencial. Bebi um pouco de vinho, ouvi Maná e também Trem Bala, de Ana Vilela, com os colegas deste albergue interiorano na noite anterior. Este hostel aliás é o único em que vi famílias inteiras se hospedando nos quartos coletivos. Conseguimos aproveitar o finzinho do expediente da padaria para comer cueca virada, rir e filosofar da vida, tomar café e improvisar uma janta. O sono se vira do avesso dormindo em quarto coletivo, mas também podemos ensaiar um arremedo de família num dia e pouco de passeios, piadas, refeições, cantoria e confissões entre "os mais novos amigos de uma semana atrás". Meu livro, o adulto, que comecei depois das primeiras semanas de ócio criativo das férias, se organizou em pedaços dentro de mim. Ensaio plugar os insights emocional, sociólogico, psicológico e da minha busca entre um trabalho, viagem e uma epifania ameaça inundar essa cama. O galo porém me convoca a aterrar e desta vez não o quero matar, seria ligeiramente vexatório acordar o povo do quarto num choro de conexão, sintonia e significado.
E nem a cachoeira ajudou disfarçar minha cara de noite mal dormida
Almoçamos horas depois das andanças pelo cânion de Itaimbezinho, mas meu corpo resolveu ter fome entre quatro e cinco da manhã seguinte: ah, esse sistema digestivo fora de órbita ainda me paga! Apesar do nome do restaurante no almoço conter preocupantemente um galeteria na fachada finalmente consegui comer sem carne, nem me entupindo de lanche e depois terminar enfezada. É que fazer isso no interior do Rio Grande do Sul é uma façanha. Uma horta nos abasteceu com salada orgânica, mas sem falir na refeição - esta e uma das coisas que seguem me brochando em viver na cidade grande: os preços dela. Matei saudade de torteli com moranga que conheci na 1a vez que choquei  gaúchos na serra dispensando o churrasco de chão. E o creme de baunilha tinha qualquer coisa das sobremesas da minha mãe... Ou seria da madrinha? Nem tudo foram flores: a farra dos derivados de leite fez a cólica de intestino me pegar de um jeito que senti saudade do banheiro com buraco no chão do meu avô. Sei lá, nestas horas agachar sempre parece que salvará das pontadas intestinais. Tenho muito do lado brejeiro da única amiga jornalista paranaense (da região em que há anos tinham banheiros com buraco no chão). Ela foi uma das poucas que me alertou quando uma várzea trabalhística chamou pra trabalhar onde ela pagou seus pecados antes de mim. "Fale sobre sua prisão trabalhista com as manas. Eu falaria": vou criar essa campanha. Teimamos em caminhar horas entre os mirantes do único cânion que deu tempo de visitar: e não é que a névoa e chuva do começo da manhã resolveram dar uma trégua? O guia explicou que antigamente havia um único continente na terra e quando ele separou, esta região vulcânica deu origem à paisagem local: uma estupidez de bonita! Desse jeito é fantástico aprender ciências. Se é que entendi direito... Do cânion pra cima, Rio Grande do Sul, do penhasco pra baixo, Santa Catarina. Prova visual de que as fronteiras são uma cretinice indefensável. Estudo de campo geográfico. Ele explicou que a Trilha do Rio do Boi tem esse nome porque o gado despencava. Depois contou um causo gauchesco fantástico: estava como as crianças que conto histórias - botando a maior fé... Até que ele deu uma brochada enfiando a explicação científica no final. Na saída do parque soubemos que o pessoal está sem receber há três meses. O que mais o governo federal abastecerá alem de seus bolsos e o judiciário? A turma lá ama mesmo o lugar, pois segue atuando voluntariamente, por doações, pra divulgar e manter o Parque de Aparados da Serra. Me aproximei duma parceira paranaense de viagem, também arquiteta, mestiça e de volta à casa dos pais: parecendo a mana que voltou ao Nordeste! Cáspita as histórias se repetem! Conheci também um professor de inglês que dá aula numa escola em que queria ensinar teatro: faço minha auto propaganda espontânea e... caramba! Dormi sonhando com aula cênica em inglês!
O Guimarães Rosa têm razão: sertão é o que não conhecemos. O país é uma escola interiorana pra aprendermos fazendo, muito embora os transportes e o marketing de turismo nacional só divulguem o já congestionado litoral - e a maior parte dele, aliás, beeem parecido, comparado à diversidade sertaneja. Cada um dos sotaque, acolhimento, simplicidade, comida interiorana, histórias de rodoviária, colegas de viagem e de área do banco da frente no ônibus, hortênsias de beira de estrada, fotos antigas, gentilezas, memórias, identidade, livraria-centro cultural-café Miragem com empreendedora ativista dos costumes gauchescos perdidos e causos fazem a via sacra até lá sem carro valer a pena. Até Guarulhos, há três partidas atrás, me surpreendeu por amanhecer mais vermelha, aberta e sem nuvens há uma semana! Viagem é uma meditação em processo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Festa da Firma

Quando penduraram o aviso da festinha anual de confraternização, a maior parte do departamento torceu o nariz.
O (forçado) amigo secreto corporativo já obriga cortar do orçamento o presente do afilhado e pra presentar justo quem nem mexe o nariz quando é cumprimentado cedo na salinha do café.
Mas as firmas seguem forçando amizade com estes deboches institucionalizados da equipe.
Este ano, a equipe revolveu não só enfiar o pé na jaca, mas mergulhar de cabeça.
Todo fim de ano é a mesma lenga lenga.
Liberam a bebida no último dia de expediente.
Quando as pessoas estão pra lá de Bagdá o chefe que mal passa ali para assinar os cheques resolve fazer um "discursinho".
O que eles chamam de "família" mal se aguenta em pé e o "dono do barraco" resolve fazer uma ode ao neoliberalismo.
O sindicalista disfarçado desta vez também resolve não deixar barato.
- Então este ano conseguimos implantar o 14o e participação de lucros?
Acho que liberaram a bebida um pouco cedo demais.
- Veja bem...
Os salgadinhos cala a boca começam a circular.
O aspirante a sindicalista quer subir no palanque que sua imaginação improvisou.
Mas o espaço nem tem um. Os camaradas do "deixa disso" o apartam.
O aspirante a gerente que ria sozinho de suas piadinhas machistas se empolga quando soltam uma música abafa rumores de "injustiça" e dá um tapão na bunda da funcionária em quem passou o ano despejando um assédio moral não muito sutil.
Ela que também já estava com os "ovários cheios" daquela opressão do patriarcado corporativo, joga cerveja nele.
Talvez a bebida foi generosa demais, lamenta o povo do RH.
O artista infiltrado como operário de escritório se empolga quando começa a tocar Sidney Magal, afinal era a trilha do primeiro filme que ele conseguiu um papel com fala, filmando de madrugada, sobe numa mesa e começa a interpretar um go go boy.
Os senhores que desejavam uma aposentadora a salvo de vexames, também tentam conter as mulheres enfiando doações na cueca dele.
Definitivamente, a bebida saiu cedo e em doses generosas demais, a gerência concluiu. E resolve beber também.
A "piãozada" do chão de escritório resolve virar o jogo em plena confraternização e toma o poder do buffet: força a diretoria a servir até alta madrugada, aos gritos de:
- Vocês nunca mais encontrarão parceiros de trabalho dispostos assim! É bom agradar ou começarão o ano tendo que passar café e tirar o lixo do banheiro! Sejam simpáticos ou mandaremos vocês pro xérox ano que vem!
Alguns colaboradores tentam fugir pelas janelas.
É quando chega a mulher barraqueira do encarregado da expedição. Soltando os cachorros logo de cara:
- Como se não bastasse segurar meu marido o ano todo, em pleno de fim de ano que preciso de ajuda pra liberar os pratos que faço pras ceias dos clientes preguiçosos, ele faz hora extra em plena festa da firma e ainda dança com essa sirigaita que passa o ano de gracinha com ele? Isso não ficará assim!
O estopim da ciumeira parece ter sido a Suzinete, da... recepção ou secretaria? Os acontecimentos também foram processados por outro bebum corporativo. Não há indícios de que haveria de fato um caso, porém para ciumenta, feita fora do eixo já é motivo suficiente para rodar a baiana.
Parece que a esta altura do campeonato voaram copos, as pessoas se esconderam atrás do balcão de doces, o moço do som deu no pé, mas largou a caixa lambuzada de cerveja para trás (difícil ele carregar tudo naquela guerra e ainda por cima, escorregando Itaipava).
É quando interfere a filha do encarregado do arquivo morto:
- Vocês nunca foram crianças e nem fizeram desperdício de guerra de brigadeiros em buffet infantil?
As famílias começavam a resgatar seus membros, já que os escritórios vizinhos denunciaram o barraco corporativo na Internet.
Justamente pela bebida ter sido distribuída ligeiramente cedo, os colaboradores começaram ressaca moral de uma criança puxar a orelha deles no auge do rebolado do ator operário.
Foram saindo de cabeças baixas, com mulheres ou filhos perguntando pelo 13o atrasado e se ele tinha sido "investido" nesse mico de festa da firma.
Para deixar a poeira abaixar, um zap anônimo deu férias coletivas à "família da firma" por uns 15 dias.
Bem que o pessoal mais visionário do RH avisou que essa história de chamar os colaboradores de família ainda ia acabar mal.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Caverna do Conselho de Dragão dos Ciclos

A Liga da Justiça Pedagógica é convocada para se embrenhar na Caverna do Dragão do Conselho de Ciclo. Alguns levam mantimentos, outros bebidas, mas corajosos que são, deixam as armas de lado. No máximo podem dar com o diário um no outro, em caso de divergência. Mas nunca chegaram ao desespero de causa de recorrer a objetos perigosamente pontiagudos como lápis, tesoura ou caneta, jamais! Despedem-se de amigos e familiares. O momento é tenso. Há comoção entre colegas e parentes, nunca se sabe quanto a jornada pode durar.
Tudo vai bem entre avaliação de um aluno turista aqui ou outro "estupidamente inteligente" lá, até que empacam nestes que um reclama que não lê, a outra argumenta que é criativa, o terceiro chia que não faz contas e o quarto emenda assegurando que se sai bem nos debates. O circo está armado: as discussões são inflamadas e prometem não ter fim. Os educadores fazem involuntariamente estágio em psicopedagogia: todo o trágico histórico de vida destes estudantes é trazido à tona. Lágrimas. Alguns pedem para sair da sala, é demais: abusos, crimes familiares, moradores de rua, violência doméstica... Soluços. Quando os mais afetados pedem suspensão das discussões para lavar o rosto ou reabastecer com café, são invariavelmente presos na Caverna e apesar de não estarem em nenhum pôquer infindável, escutam:
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
A mais insone dos professores argumenta que sem café já é insalubridade demais. Tem pouca adesão. Vários professores já estão sem forças para argumentação. A que sofre de insônia começa a ter abstinência de cafeína. Como os dramas escolares foram muito pesados para uma discussão inicial, a coordenadora e o diretor prometem ir para uma sala mais leve. Educadores suspiram. De fato passam por vários casos em que os conceitos são mais consensuais, até que chegam noutro polêmico:
- Não junta lé com cré!
- Pinta tão bem - o professor de artes sempre "causa", enquanto diversos reclamam, ela vê que é criativos, interativo ou imaginativo. Vários se seguram para não esganá-lo.
- A tabuada do dois ou três ele tem que emprestar dedo do vizinho para calcular os resultados.
Neste aluno são gastos dias e dias de debates. Os alunos que tinham se pré disposto a acompanhar as avaliações, pedem arrego:
- Minha família está me procurando no IML!
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
Um secretário começa a rezar. Os sociólogo e a filósofa protestam:
- O estado é laico!
- Vão ocupar aqui também? - a coordenadora teme o histórico militante deles.
Desta vez é o diretor quem resolve o impasse e passa, pois a vida dele não era simples: trabalha longe, madruga, tem três filhos, mora num barraco, a mulher fugiu com vizinho, deixou dívida no bar, a filha não sai da boca...
Comoção. Educadores se consolam e deixam aluno passar. É demais para uma vida tão jovem, como poderia pensar em estudos? Pobrezinho! Pensando bem, rendia até demais com esse contexto do entorno do pobre coitado...
A reza do secretário rende. Passam por vários estudantes sem precisar sacar as armas dos diários ou os super poderes dos trabalhos e provas. Infelizmente, a sala mais simples termina e a coordenadora diz que não pode fazer nada, mas precisam avaliar a 7a série mais "encardida". Os educadores encarariam o dragão de Komodo, mas fogem desta  turma.
O primeiro aluno já provoca um impasse:
- Analfabeto funcional não pode passar!
- Aí já é esculhambação!
- Ele joga tão bem - quando o professor de arte não empaca a discussão, é a da educação física quem trava tudo.
Debates se arrastam por semanas. Filhos ligam. Maridos e mulheres fazem panelaço na porta do colégio. Educadores são dados como desaparecidos, mas seguem escutando da gestão:
- Ninguém sai! Ninguém sai!
Professores sabem que sua casa foi perdida em chamas. Os sinais dos celulares foram cortados. Amigos íntimos falecem de preocupação com o sumiço dos professores. Educadores reclamam que parentes foram dar parte na delegacia por cárcere privado.
- Ninguém sai! Ninguém sai! Ninguém sai!
Há professores com olheiras. Os mantimentos acabam, Educadores começam a comer os diários. Aí já  foi calamidade pública. Coordenadora e diretor agilizam os casos mais complicados. Um bairro inteiro com mães solteiras, ex detentos, pais que viram os filhos serem mortos, estudantes que fogem de casa e se abrigam no colégio.... Melhor não provocar um problema a mais na vida destas vítimas de outras vítimas.
Chegam a um acordo de solicitar reposições quando as bebidas terminam e educadores ameaçam beber o branquinho corretor de rasuras. Os impasses mais polêmicos terão que fazer trabalhos sobre sustentabilidade, cultura afro, indígena ou gênero, estes temas que precisam transpassar todas matérias. Um professor se acorrenta ao bebedouro como protesto pela demora na escola de encerrar o Conselho. Estes assuntos são sorteados rapidamente entre as turmas. Um sociólogo sugere emendar numa ocupação na escola contra... Professores tentam linchá-lo e a turma do deixa disso socorre.
Quando os portões do colégio se abrem e os educadores saem da Caverna do Dragão são recebidos com comemorações emocionadas. A imprensa local foi cobrir quando saíram do cativeiro, ops...! Quando encerraram a missão na Caverna. Alunos que acompanharam dão depoimentos emocionados à polícia:
- Foi horrível! Pensamos que não veríamos nunca mais a luz do dia fora das salas de aula...
A paz volta à quebrada em que o Conselho finaliza.
Ao menos até o outro bimestre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Terapia inesperada e lúdica

A futura paciente chega ao consultório onde fará terapia. Não encontra secretária, senta e confere as revistas expostas para leitura. Considera um milagre não serem "do período jurássico". Geralmente são tão antigas que nem se anima a conferir. Sem alguém para informar se atrasou ou não, o que a recebe assim que pisa na ante sala do consultório é o rádio. E ele está muito bem sintonizado: Gilberto Gil. Nem precisou muito e já começou a cantar. Quantos shows dele já tinha visto? Conferiria muitos mais, é o tipo do cantor que nunca provoca exaustão. Mesmo sem recepção humana, o local é bem acolhedor, tem paredes verde claras - chega a pensar que devem provocar algum efeito sugerido pela cromoterapia, porém não estudou o tema a fundo. Os enfeites são simpáticos. Agora a estação vai para um samba. Rodas com amigos, clima de entrosamento, memórias partilhadas em mesas de bar simples vêm à memória em questão de minutos. Para ela, sempre que estivesse down, escutando este ritmo já ficaria tão bem que nem era preciso incluir tratamento algum a mais. Tinha esquecido isso. Bem, com aquela sala sem ninguém conferindo agenda ou avisando que havia chegado, começou a dançar. Foi instintivo. Se divertiu mais quando achou um espelho. Nisso a emissora pôs no ar um forró. Soltou-se ainda mais! Perdeu até a curiosidade com as publicações para leitura. Quem a julgaria naquela espera pelo tratamento sem intermediações? Lembrou de amigos, noites animadas, risadas na madrugada e shows inesquecíveis. Começou na sequência um reggae. Perfeito para o fôlego "semi sedentário" (às vezes conseguia fazer exercício, noutras não). Apresentações que conferiu adolescente, maratonas regueiras, companhias divertidas, tudo foi voltando à tona e emocionando sem esperar. A cabeça resolveu fazer mini flash backs que a tocava, a cada nova música... Tinha um aspecto que a divertia no espelho. Nisso começaram a surgir pessoas de outras salas no corredor do andar, esqueceu que a porta ficava aberta com um peso. Seu acompanhamento corporal espontâneo à seleção musical devia estar chamando a atenção. Nesta altura do campeonato já se sentia tão animada, que nem se importava mais. O cabelo suado, pulava junto com ela. A bolsa já havia caído no sofá. Água? Podia tomar ao fim desse entrosamento inesperado com o rádio. Consultórios próximos estranhando? Nenhum colaborava com suas contas. A despeito do cansaço, cantava, dançava, lembrava até que...
- Vamos lá? - chamou a terapeuta, abrindo a porta de repente.
- Não preciso mais, obrigada!
- Mas seu horário é agora!
- Sua rádio já me ajudou muito!
- Hoje faria avaliação em conjunto das suas questões...
- Parabéns pelo bom gosto doutora.
E a ex paciente começa partir cantando todas misturadas depois de o que...? Quinze muitos ou menos de euforia musical nostálgica. A emenda saiu melhor que o soneto: o convênio seria "tão paduro" na cobertura das sessões, na melhor das hipóteses só introduziria os dramas à terapeuta e já precisaria sustar as consultas e ficar com tudo no vácuo, pois costuma levar um "tempozinho" pro paciente e a terapeuta se entrosarem...
- Doutora? - pouco antes de partir resolveu tirar a dúvida derradeira.
- Pois não - ela respondia, ainda estranhando muito a reação da paciente perdida.
- Que estação fica sintonizada na sala de espera?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Maremoto doméstico

Antes era sempre uma chuva
agora tem um lastro
Para quem voou tanto
um pouso é sempre uma descoberta
Nós fomos lapidando
essa linguagem nova, intraduzível
Por essa modelagem única
um ninho tão nosso!
Nossos passos na areia
começaram meio desconexos
Agora tatuamos este caminho
em cada palmo de nós
Nós não nos sabíamos
companheiros - fomos tateando
Descobrimos os espaços de encaixe
as rotas de combustão
e os portos de chegada aguardada!
Os dedos traçaram rotas
mapas recém desenhados
As pernas inventam um laço
e depois afrouxam
Nossas palmas reconfiguram
encontros já aguardados
Ainda assim, descobertos
suspirados e chorados
Um universo a escrever
mas gemidos escapam pelas linhas
Alguma bússola norteou
esta cruzada de ideias e sonhos
E um mapa do tesouro
foi criado neste incerto ajuste
Esse improvável acerto
aguardado e até desacreditado
Como era eu sem nós?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Retiro de mim

É oficial: envelheci. Claro, os médicos vêm com metáforas, pegue mais leve e reduza o ritmo, mas não é praticamente a mesma coisa? Ouvi que não podia continuar fazendo tudo isso e automaticamente minha síndrome de Peter Pan sagitariana me cobrou "mas sempre aguentei". Foram dias de choque: a hiperatividade também era doente, mas mais aceita por amigos, chefes, parceiros, então me apeguei nela por um loooongo e tenebroso inverno. Um chute no ego: sim, também havia um que havia amado o papel de bobo da corte de tal forma que a única coisa que lembrava para lá da animadora de plateia era a deprê. E a memória que ficou dum extremo ao outro alertava: não se mova, do lado de lá doi inacreditavelmente. Aqui, entre as muitas e muitas atividades não era possível ouvir qualquer dor interna. Quando a exaustão era demais, um sono na marra aliviava e muito. As pessoas dizem que é só voltar à minha essência. E usar auto conhecimento. Fiz uma coleção de retiros, meditações e vivências, mas o caminho rumo a me conhecer não tem qualquer sinalização. E depois da ansiedade absurda, logo no começo do feriado, caiu uma exaustão: o sofá nunca me pareceu tão delicioso. Chove, o tempo resolveu chorar por mim. É um luto da partida da boba da corte. Vejo amigos e família, mas não quero falar com ninguém. No máximo chorar sem saber a razão. E ter que explicar que sim, mesmo com bom emprego, namorado, família que não me desabonem, doi. Não é paupável, nem localizável. Temporada de virar ostra. Escrever. Comer um pouco, quando o corpo grita por abastecimento. Compreendido, não ser mais hiperativa para não adoecer. Como ser outra coisa que não deprê? Não me joguei dum extremo ao outro por não ter ido ao Playcenter na infância: minha mente opera em modo mal configurado. E não fui exatamente eu que programei. Ela só deu gritos depois de stress corporativos e grandes preocupações familiares com saúde. Mas dizem que são só gatilhos, Já não era lá muito convencional querer ler, escrever e desenhar a infância toda, sem parar para comer, tomar banho... E produzir dúzias de poemas inspirada pelo lado "dark side of the moon" de Fernando Pessoa e Carlos Drummond na adolescência? Indícios estranhos de algo fora do prumo. Certo, nada de hiperatividade: me monitoro e quando quero enviar projeto de parceria para trabalho em pleno feriado, topo "dar uma voltinha" pra evitar fazer hora extra na licença médica. Não sei porque cargas d'água estou com vergonha de voltar num dos lugares que comeu meu tão necessário sono nos últimos meses e jogar a toalha. Sempre fui boa nisso na área anterior, afinal éramos trocadas feito modess. Já nessa não: me envolvo, tenho dó de partir. Sinto ainda mal estar de cortar a palhacinha com a qual me entrosava razoavelmente e talvez voltar... À essência no meu canto de anos e anos atrás? Tudo bem então agradar os outros e me machucar, inclusive fisica e emocionalmente? Não, não sei fazer nada disso, então cama, cobertor, água e a gata são ótimos companheiros temporários para esta licença médica. Ao fim dela algum texto, amigo, médico ou eu mesma terei tudo isso mais claro. Quem sabe?

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

14 Dias Para Descobrir o Que Minhas Licenças Têm a Me Dizer

",,,essas velhas dores que acreditava que não voltariam..."
Nesta quinta minha hiperatividade "velha companheira de guerra" deu pau. No banho, já estava começando a ficar nervosa: ou cozinhava pra levar comida à reunião pedagógica semanal, ou atualizava as aulas que daria à noite ou planejava as aulas do dia seguinte. Para distrair esta ansiedade, fui lavar os cabelos com no poo: depois que aboli os derivados de petróleo, voltei a desembaraçá-los no chuveiro.
"Momento mini flash back": no começo da semana já tinha cantado a bola ao meu chefe mais recente: vinha acordando com peito apertado, chorando a caminho do trabalho e levantando com taquicardia. Entre ficar felizinha por ganhar como meu marido e esperar dar pau, preferi ficar pobre com saúde, optaria por um trabalho só... Ouvi que o feriado estava chegando e...
O nervoso ameaçou retornar e a manhã só estava começando: como discutir saúde 4 horas com jovens se as dicas pedidas aos colegas especialistas não chegavam? Em dias de mal estar, a imaginação some sem deixar pistas. Como improvisar uma manhã tendo estudado outras áreas no dia seguinte? "Coloquei o nervoso na árvore" e fui lavar minha calcinha. Nada como um trabalhozinho braçal para tirar a voz da ansiedade.
Esta semana tinha voltado ao médico, contado que estava chegando tarde, desligando e dormindo uma hora, despencando da cama seis horas, o mal estar todo, o retorno à cárdio sem que nada desabonasse patologicamente meu coração, só pra ganhar atestado e fazer exercício, mas também pra entender de onde vinham este disparo e dores no peito... Ouvi que estava estressada e me "remedicaram" com a dose antiga. Assim que ele receitou e deu outra caixa nova, puxei pela memória:
- Não foi com este que tive uns efeitos colaterais piores que barato de bebida?
Ele investigou meu histórico de 219191 médicos dos quais "fugi em desabalada carreira", quando me trataram só como uma doença ou um órgão e constatou que não, nada ali apontava indícios contra o novo "toureador" de stress.
Retomei a maratona típica do dia sem aula: fiz feira lá na loja do MST (não existe quase nada próximo numa cidade em que o tamanho é "uma falta de educação" como São Paulo, num momento em que mais que nunca os produtores familiares rurais precisam de apoio - a escola deles no interior foi invadida e atiraram sem mandato de busca há pouco tempo), fui atrás dum remédio natural contra TPM (todas as demais dores driblo com mato, chá... Sou semi natureba), passei na cárdio que até sugeriu um semi retorno ao jornalismo (é, definitivamente 37 horas de aula, reuniões e 8 de planejamento na semana não estavam caindo bem), voltei para casa depois de umas quatro horas de trânsito... Como é que aguentamos São Paulo mesmo?! Horas de prosa com o marido, sequestrozinho básico de tempo de sono, manhã seguinte de reunião, tarde ótima de oficina com bolsistas iniciantes, toda a chuva do mundo para chegar à escola: o guarda chuva quebrou e abraçou minha cabeça, tentava checar se o caminho que tinha que andar era aquele mesmo, mas a ventania virava o tecidinho plastificado e o que o sustentava quase do avesso... Tinha medo de parar em algum lugar e esperar pois o aguaceiro não dava sinais de que diminuiria e lá na minha quebrada, toró desse nível leva carro, árvore... Não seria muito difícil dele também me levar. Sem contar que os comércios locais fecharam. Cismei que São Pedro estava inconsolável com a eleição de Trump nos Estados Unidos. Todos os palavrões que já ouvi na vida chegaram ao colégio comigo... Da secretaria, ganhei uma blusa emprestada para aplacar o frio: não era possível me secar em jeans e botinha fazendo cheque, cheque, molhada até chorar. Até meu pâncreas estava cheio de água. Ninguém com roupa de academia para emprestar. Porém com a blusa emprestada saí animadinha que a humanidade ainda se ajuda assim, sem perspectivas de tomar algo em troca. Maior novela mexicana para os estudantes assentarem, montar o projetor e dar a aula de Brecht... "O analfabeto político"... A cada vez que ouço trechos dele, me emociono de novo e de novo... Enquanto não volto a encenar, é assim que me toco de novo.
Lá estava eu no dia seguinte limpando a areia da gata, após um banho meditativo e aquele mal estar sem tempo para tudo que sou demandada. A "escolha de Sofia" apontou o planejamento das aulas que não domino. O laptop deu pau. Comecei chorar como criança. Falei com amiga, tia, a vizinha veio em casa. Verifiquei se o pessoal da escola queria que fosse no meio da programação da tarde e noite inteiras, me mandaram ao médico, a vice diretora ainda disse que me amava, aí que desaguei, nunca ouvi nada nem vagamente humano em momento de crise antes, no jornalismo ou nas assessorias de imprensa. Ainda é me afeta o tratamento mais humano da educação pública.
Aborreci um tio com carona para o pronto socorro e uma amiga para passar vexame comigo lá: já estava com a parte de trás e de baixo da cabeça doendo quando vomitei. Um plantonista me passou ao outro, porém a segunda foi tão categórica quanto meu médico me escrevendo: "é definitivo: você não pode continuar com este ritmo: diminua ou não podemos fazer nada". Não é possível que melhore dormindo 3 horas a menos. Se descansar só no final de semana, fico mal pois o cansaço é cumulativo. Descubro em pleno inferno astral que é oficial: envelheci. Fui 220 voltz a vida toda, mas meu corpo já não dá conta de todas minhas ideias. Eu e a amiga fazemos terapia informal no corredor de espera. Meus pais não deixam de lado a possibilidade de bancar "a carona do Jarbas" para voltar, não sem antes fazer um "pit stop" nos meus tios, afinal quem se aposenta faz umas andanças meio estopa: enroscando em tudo que é lugar antes de chegar. Me indigno com um ensaio de xenofobia entre os meus, causo um "mal estarzinho" básico, mas me divirto com as memórias de 219211 anos atrás e as histórias dos netos deles. Como não amá-los apesar de todas suas contradições?
Ao voltar para casa meu namorado alertou:
- As mil vontades na cabeça seguem como uma pilha: sem melhorá-las você continuará sofrendo!
Me sinto como meus alunos sem a menor ideia do que fazer. No dia da crise pensei vagamente em meditar, lavar louça, não consegui nada, só me render à exaustão. Quando muitas pilhas das 210390 coisas que sempre quero fazer me deixam em polvorosa, não sei como tranquilizá-las. Ai cáspita, talvez tenha que voltar à terapia...
Revejo um amigão de colégio na manhã seguinte e entre debates e encantamentos com a paixão bandida da educação, retomando um ensinamento budista de que desejos maldosos ainda que não concretizados deixam aquela energia de mal estar que nos prejudica, lembro do namorado na véspera:
- É assim que minhas 930932 vontades de estudar, me exercitar, meditar, ler, escrever, viajar derrubam meu corpo, mesmo que não tenha mais gás para realizar todas como antigamente me maltratam. Ele está certo: é quase uma doença auto imune...
A prima irmã escreve para fazer algum trabalho manual que desloque a mente da dor mental para a atenção que qualquer coisa braçal demanda. Encontro um ateliê educativo gratuito e aposto nele como fonte terapêutica da semana em que meu corpo me estancou gritando, porém ainda não sei como silenciar minimamente a mente quando sai do eixo e pipoca, hiperativa. Que ela não pode seguir empilhando sonhos e inspirações não concretizados, já começo entender como sabotadora do tratamento. O único passo atrás que dei em uma década de tratamento foi não emendar seis coisas e reduzir drasticamente o sono a uma horinha. Eu ou a idade fizemos isso?
E inspirada no escritor Gustavo Tanaka que ouvimos nas palestras e vivências do programa de coach, empreendedorismo e auto conhecimento terminado há um mês, retomo a escrita por dias... Como quem espera dela uma luz de cura.