domingo, 9 de setembro de 2018

A TPM me mantém em cativeiro

Baixei um aplicativo porque sou tão de humanas que erro até as contas do ciclo menstrual. A questão é que até esse programinha pra celular é machista: avisa meu período fértil, mas a chegada da TPM não. Resultado: na última descompensação hormonal mantive o encarregado da fábrica de chocolate Pan como refém. Porque essa indústria? Bom, é a mais próxima de casa e a única que todo dia faz um saldão estilo industriais vendem tudo. Ameaça fechar, mas já está há décadas deixando o bairro Santa Paula, em São Caetano com cheiro de chocolate no ar. Bom, exigia de resgate a produção da semana. Sim, somente sete dias no mês "quero mudar de sexo, cruzar a fronteira, deixar os amigos do trabalho falando sozinhos, sair pra comprar cigarros, eles lembrarem que não fumo, não entenderem nada e eu sumir sem deixar rastro". Daí que enviaram a guarda municipal para negociar quando no auge da última TPM exigia 1/4 do carregamento de chocolate mensal da fábrica vizinha como resgate do funcionário que sequestrei. A policial, também de TPM, exigiu meia produção do resgate que pedia para limpar minha barra, já que sou professora e meu surto não pegaria bem entre os funcionários públicos locais. A dona da fábrica, já na menopausa, avisou que não cederia, mas sua marqueteira, também "hormonalmente descompensada", botou panos quentes oferecendo um meio termo de 1/32 da produção que demandava, mas como contrapartida do preju eu e a policial municipal teríamos que gravar testemunhais do poder do chocolate contra a TPM. Nisso a PM atravessou o samba das negociações e eles, que não são conhecidos por bater antes de entrar, cortou abruptamente esta intrincada negociação e... Bom, agora escrevemos de trás das grades mesmo. Eu e a policial civil pedimos compaixão das manas feministas, doação de chocolates e... Bem, uma advogada que entendesse particularidades feministas também seria bem vinda... Dizem até que temos atenuante de pena quando perdemos a cabeça no auge da TPM...

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Cerrado e eu: um caso de amor

as férias se descarando na minha fuça
Goiás me atravessou duma tal forma que tive que decantar antes de voltar ao blog (que aliás precisa mudar de nome, já que não consigo ser tão periódica nas atualizações, afogada entre aulas, produções, contações, casa, gata e família). No começo, há quase duas semanas, cismei que o sono que aquelas pedras no solo e a tentativa da região "afinar meu violão desafinado por São Paulo" não deixaria aproveitar tudo que ansiava conhecer (ah, essa ansiedade doença da cidade grande, que vai feito pochete conosco pra fora da megalópole). Ouvia isso de quem morou lá e me chocava de deixarmos a doideira urbana nos adoecer. Mas foram uma tarde e umas noites caindo na cama cedo pra no terceiro dia eu já ter cara de férias, segundo a anfitriã da Casa Gentileza, uma mãezona
os generosos indígenas nos convidavam a dançar e cantar com eles
para filhas únicas atrapalhadas feito eu. Penso que os insights que o Cerrado me traz possam ainda colaborar para outros amigos pirados pela correria de Sampa. Ser alertada dos preços caros na lanchonete duma atração que queria visitar foi outro choque: caraca, encaramos estes valores de onde venho (e nem ganho tanto para naturalizá-los). Realmente quando tocamos o foda-se de não ter tanta verba, nem tanto tempo e ser pouco descolada (minhas costas já não encaram camping e sou um 0 à esquerda na culinária pra economizar por lá como deveria), de fato o que sentimos, pensamos, vai rolando a despeito da falta de sinal de celular. Todo dia "cantava" outro turista meio
meditei pelas cachoeiras
duro do albergue para agitarmos caronas pela região (já que não podia "desrosquear minha pepeca", largá-la no hostel e agilizar caronas sozinha e sem medo de ser violentada). No primeiro dia, visitando São Jorge, o poço São Bento e a feirinha natureba de Alto Paraíso com um carioca, encontrei sem querer minha amiga atriz paulista. Me liguei que preciso fazer as pazes em família para não sair batida de tudo que é lugar que me cutuca a gastrite, como um dos meus novos amigos de viagem. Tive um ensaio de pânico com as pedras lisas, o gelo da água e meu amigo sumindo mergulho adentro (não à toa né, quebrei o pé em Paraty e estrepei minhas primeiras férias maiores como professora). Sei lidar com isso no trem paulistano, não no mato. Parece que todos seus cagaços e demônios resolvem vir à tona, mas amigas que moraram lá já tinham alertado. Fiz que conta que não temia estragar o resto da viagem com os medos urbanos e traumas antigos. Quando finalmente conheci a Aldeia Multiétnica, depois de dois anos divulgando e com amigos gêmeos da história e geografia (aliás a viagem foi um tal de conhecer professor que quase fazíamos reunião pedagógica pelos botecos locais à noite). Senti que faziam uma espécie de performance, bem voltada àquele público meio turistão hippie chic da rica zona oeste de São Paulo. Entendi que se queria ter mais noção do que
esse canto subia e emocionava os caminhantes lá em cima
perdemos da cultura deles, tinha que entrar naquele tempo antropólogo de dormir numa aldeia. Me emocionei com discurso duma indígena na mesa feminista, antes mesmo da tradução, soube depois duma fala dos povos originários canadenses que a tradutora tirou a acusação dos franceses levarem bebida e droga às aldeias de lá na hora de nos falar em português o que ouvíamos em francês. Percebi que fazia toda diferença a "turistada" com grana não se conectar à ancestralidade indígena que tínhamos oportunidade de entrar em contato e ouvi por um amigo indígena dos professores que foram comigo que não saber o que significavam os nomes indígenas de bairros paulistas falava muito sobre os donos das terras, além dos colonizadores terem cortado a língua de quem não aceitava falar português há centenas de anos. É um milagre de Tupã ainda termos mais de duzentos idiomas desses povos nativos. E que orgulho das indígenas que manejam o facão terem posto um no pescoço dos empresários de Belo Monte para ouvi-las! Percebi ainda que as crianças caíam numa boa, deixavam suas mães falarem sem ciumeira, tudo por não contar só com elas como referências adultas femininas em suas tribos. Voltei bem nutrida, embora de bode do público hipster não parar de fazer live e selfie nos momentos dos rituais. Eu bem pedia desculpa pra fotografar e só não resisti quando aquele céu único do cerrado se apresentou. Tentei fazer como me ensinou
já destruída de abusar de mim mesma
o samba "alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarzinho". Imagine se lá também não encontrei amiga da formação de doula sem querer - bom, minha mãe diz que só cruzamos com conhecidos em multidões sem combinar com conexoes fortes com eles.
Nos dois dias seguintes passei horas em trilhas e micro escaladas pelas cachoeiras Almécegas I e II, São Bento, Santa Bárbara, Barbarinha e joguei a toalha na Capivara, já sem perna, $, sol e ânimo para "praticamente gravar um Lost na mata do cerrado". Nas primeiras, fiquei muito grata de poder andar, ver, mergulhar e boiar naquele banho de natureza que precisava (lembrei de crianças eternamente internadas que o Fê já contou histórias na Santa Casa). Sim, o cagaço foi embora. Pode ser inclusive que ele fosse de histórias pesadas familiares dos proprietários de parte das terras me contaminando..Vai saber? Depois da "overdose esquisotérica" de Goiás, não duvido de mais nada. Uma passarinhada típica local nos cumprimentou entre as trilhas e o albergue - tucanos, araras... Estava bom pro meu pai curtir, doido por eles! As flores do Cerrado, das mais diversas cores, nos davam uma pena da suspeita de algumas pessoas da região, de que o incêndio do ano passado tenha mesmo sido proposital (os poderosos locais parecem gostar mais dos empresários que dos turistas ecochatos)... Vi que por não ter muito contato com natureza em Sampa, chego no interior e quero ter dar conta de mais do que o corpo consegue... Resultado no quinto, sexto dia já tive que pegar leve com a perna doendo e sem $. Mas no quarto dia de vai e vem
não era nem o gelo que me congelava e sim não enxergar distância das pedras nos pés
pela região nem carona pedíamos mais, os colegas de trilha já ofereciam. Passei horas e horas proseando com novo amigo - adivinha se não era professor? Sobre capoeira, religião afro... Acho até que fomos monotemáticos com os outros amigos de viagem comendo e ouvindo música nos botecos da região. Teve vezes em que não resisti a pagar de ativista contra racismo e machismo em plenos café da manhã e jantar turísticos. É, levei mais de meia viagem para ficar lerda como meu pai, começar a ver cara de viagem pelas fotos, esquecer bolsas para trás e abrir mão de militar porque afinal, era recesso, não só escolar, mas do meu personagem briguento, familiar e ativista. Confirmei pela enésima vez que falta faz planejar o que, quando e com que $ faria quando curti mais a família que nos recebeu, outro turista duro tipo "pode crê" como eu no hostel. Ainda assim me dei uns presentinhos de comer no Cravo e Canela, Empório Santa Maria, Tasquinha, comprar lembrancinhas na Galeria Preguiça (embarcar na prosa com a atendente paulista) e curtir a falta de farol
comi essas flores azedinhas...
em Alto, fazer tudo a pé e me ligar com a adolescente do albergue que gosto de jovens em pequenas quantidades, só fico em alerta demais quando estão "em quadrilha" nos colégios. Sim, neste finzinho já estava com "banzo de viagem" na quase volta, pois teria que adiantar minha volta com pit stop não programado em Brasília. Não queria perder as derradeiras noite e manhã em Alto Paraíso, mas no fim das contas o engano quanto aos horários de partida dos ônibus para a capital e a pouca diferença das lotações entre as cidades me deram mais um tempinho no Cerrado. Finalmente encanada com a questão de onde dormir em BSB, ganhei aos 45 do 2o tempo uma ajuda duma amiga do MST, que sem carro para me apoiar lá, mobilizou senhoras para me pegarem na rodoviária, levar para dormir noutra amiga simples dela (cuja casa me auxiliou lembrar que nunca nos ligamos de ser gratos pela casa e bairro em que vivemos serem mais estruturados e menos perigosos pras bandas de SP) e ainda ganhei companhia para o aeroporto, na falta dum Uber que topasse encarar cidade satélite brasiliense. A gente só se liga do próprio privilégio dormindo entre os humildes, já que também estamos cercados de amigos paulistas em condições favoráveis. Não conseguiria retribuir essas gentileza em Sampa para minha amiga assentada, pois aqui não temos tempo nem para nós.
por do sol na Aldeia Multiétnica: como resistir?
O que o Cerrado me ensinou desta vez? Que continuo adiando melhorar meu condicionamento para encarar as trilhas mais caprichadas dos parques dos Veadeiros (MG) e Veredas (GO); a respeitar meus limites quando a dor e o aperto "acendem luzinhas internas de emergência"; que não só o céu e a gentileza das pessoas lá são outros, o tempo também; que quando os indígenas vão espontaneamente à cachoeira cantar e danças sem se preocupar com a turistada registrando tudo em audiovisual pelo entorno, é outra arrepiada que dão nas nossas peles (ganhamos essa bênção com os cariris xocós); que boiar e ver a água das cascatas cair em mim dá vontade de chorar; que só as construções das ocas para mesas indígenas feministas já prova o quanto não eram primitivos catzo nenhum; que uma  oca coletiva em que cada parte feita artesanalmente dela remetia às áreas do corpo humano emocionava e não dava coragem de sair fazendo mil cliques feito turista caricato japonês (desculpem amigos nipônicos); que os africanos e indígenas têm uma certa razão quando cismam que as fotos roubam nossas almas (somos e não
sem entender o guia quilombola numa das trilhas, caí de amores pela literatura deles
somos nós lá no celular, mídias sociais e laptops); que aos 40 não dá mais pra abusar da minha "casa corpo" comendo só fruta e bolacha horas e horas caminhando, pra só à noite jantar; que talvez tenha mesmo visto uma espaçonave na noite de fogueira feita pelo povo do hostel (outras caminhantes comentaram o mesmo no dia seguinte, mas não botei fé porque tinha bebido); que estou muito longe da minha versão zen da minha temporada jornalouca (quando fazia e estudava yoga, massagem, reiki, acupuntura, a ponto de hoje zoar os amigos badauês e o próprio universo quando demorou a me arrumar pernoite em Brasília); que o céu do Cerrado é esse de mentira, produzido, que só conhecemos nos planejados planetários urbanos (lá vi Saturno, Marte e um porrilhão de estrelas); que há doenças típicas de cidade grande, é só por o pé nelas para sentir ansiedade, alergias, necessidade de marcar nosso próprio território com nossas crenças que não chegarão aos mais velhos; que a eterna tensão de que seremos agredidas como mulheres nos faz mal (na volta, numa lotação com outros dois caras retornando, vi que num momento puxei papo na esperança "não me estupre, sou a moça pouco atraente das prosas sem fim"); que se levamos 15 dias para relaxar do ritmo doente das cidades grandes e em 99% dos passeios operários que fazemos só descansamos uma semaninha, isso também deve colaborar para nunca desligarmos e adoecermos. É uma bíblia, eu sei. Quem tem tempo para textões em Sampa? Mas escrevi na esperança de tatuar em mim as fichas caídas entre Alto Paraíso, Cavalvante e São Jorge (GO). E também para devolver a vibração pro universo: me leva de volta, menos enferrujada e numa viagem menos aos sopetões! Evoé!

sábado, 19 de maio de 2018

Há TPMs que "nos têm"

Em maio, uma TPM me teve. Foi nesta proporção mesmo. Não sei se um mix de problemas pequenos que se somaram e ganharam um peso maior, se quando não sofremos disso "xóvens" recebemos o mal estar com juros e correção monetária na fase... Digamos "maduras, quase caindo da árvore" ou há meses em que perdemos o pé e piramos no modo "angústia/ ansiedade descontrol". Afastem-se todos! Nem o aplicativo menstrual ajudou. Aliás, a esmagadora maioria deles avisa o período fértil. Só quero saber quando me esconder do universo porque está Tenso Pacas Mesmo. Ou pra conseguir isso tenho que passar meses informando estado de espírito, ânimo, alimentação, sono, disposição, exercício e vida sexual? Tecnologiazinha enxerida... O remédio antroposófico que já me deu a graça de passar pelo ciclo todo como se nada tivesse acontecendo, este mês não fez cócegas. Quis cruzar a fronteira, mudar de sexo, separar, jogar tudo pro alto, tive a sensação que a deprê fugiria comigo em desembestada carreira, como a fuga dos bandidos é descrita em entrevistas do programa do Datena. Mesmo depois de menstruar passei uns diazinhos do cão ainda. Geralmente vem e o mal estar emocional escorre modess abaixo, assim que desce. Apesar de ser feminista, conhecer os perigos da pílula, ter circulado nos círculos de mulheres badauês, tenho cogitado fortemente voltar a tomar anticoncepcional, emendar cartela e fugir disso. É injusto sermos reféns dos hormônios, nem usaremos mais eles! Uma noite nem fui trabalhar, parecia que ia descer e meu quadril cairia, de tanta dor no fim das costas. Cólica não tenho desde adolescente (ah, que ciclo tão gracioso, me poupando delas), mas a lombar vira um pesadelo acordada. Isso tudo bem quando comecei as danças brasileiras no Centro de Danças de Santo André e eu em dúvida se o fim das costas me arrebantava porque estava voltando à rotina de me exercitar três vezes por semana madura, quase caindo do galho ou porque ia descer. Quando desceu e em alguns dias a deprê não passou, quase liguei ao CVV. Tenho sonhado acordada em voltar à ginecologista natureba que me ajudou com fitoterápico a sair da pílula anos e anos atrás. Com esse veneninho hormonal diminuí meus ciclos de 1/3 vazando décadas e décadas atrás. Será que tem solução riponga pra TPM "do capiroto"? No nervo e proseando com amigas gringas em situação similar, pesquisei a geleia real. A primeira que encontrei, em embalagem minúscula, pensei que era produzida por apicultores albinos, na remanescente da Mata Atlântica e ouvindo Mozart, de tão cara! Depois encontrei as pílulas compráveis. E quando vamos comentar sobre a Tá Pra Morrer com umas almas insensíveis que praticamente debocham "nunca tive, não é da nossa época, coisa de 'xóvem'"... Rapaziada a gente tem até desconto na pena quando cometemos crime em TPM! Tô achando que é o caso de produzir um stand up sobre isso. Único jeito de capitalizar a dita cuja...

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A Busca de um Corpo Extraordinário

Há duas semana as danças brasileiras me carregam pelo coração no Centro de Danças de Santo André. Namorava com estes ritmos há tempos, em oficinas do Sesc, aulas abertas de ONGs e curso do Instituto Brincante. Mas conseguindo uma das vagas gratuitas neste espaço do ABC, a possibilidade das apresentações no fim do ano aqueceu meu peito nesta época de retorno do frio. Dancei em cena no ensino médio (que na minha época chamava-se colegial), quando descobri que educação física podia ser lúdica, a criação com colegas de classe, encantadora e a troca com o público, inebriante. Apresentações alimentam esta gente de teatro como eu. Para mim, voltar à dança é sempre um movimento "porque demorou tanto pra voltar"? Ah, o trabalho, estudos, dores, distância, falta de grana, cansaço... Sempre o mundo nos apartando de nossas paixões inveteradas. Mas aos quarentinha percebi que se esperar o corpo dar trégua, não retorno aos exercícios que me alimentam. A última semana foi sofrida, mais por TPM que devido à lombar ou ao quanto o corpo estava enferrujado, já que vinha praticando pilates pra "rainha da coluna" (como diria a atriz Georgete Fadel) e natação pra asma, porém ambos com movimentos tão díspares da dança, fora a água segurando a bronca do impacto.
Temos experimentado as danças afro brasileiras. Nenhum movimento ao qual nossos membros estão habituados. Tem um quê de ancestral nas descobertas, música e coletividade. Quarta vivenciamos a água de Oxum. Nesta sexta a exigência dos joelhos, agachamentos, pulos foram me dando um cagaço. Depois de umas décadas não só nosso psicológico tem seus traumas. Ano passado senti o joelho durante o caboclinho lá no instituto do Antônio Nóbrega. Mas lá para as tantas, senti que de fato buscávamos um corpo extraordinário, que tantas senhorinhas em cena comigo não estavam se colocando travas, quem sabe não era o caso de se permitir, se jogar ou se provocar? O corpo inédito é um salto no desfiladeiro. Não é porque tenho imaginação literária que tenho a corporal provocada pela professora Cris Santos. É um jogo, uma criação em conjunto de imagens, uns giros didáticos, um sentir este corpo que pode, uma procura de uma expressividade que se perdeu, mas o corpo tem memória e evoca percursos. Vimos e experienciamos mãos de mel, pés no barro, bacia que se deslocava como água, músicas até mais caribenhas que africanas e fomos encontrando este território expressivo que é mágico - e não dói. Estávamos entre linóleo e colegas. Mas fomos criando, sentindo e expressando o que a professora conduziu. E foi potente!
Os relaxamentos extrapolam tanto os cênicos! A gente nem reconhece mais a tensão que se apegou aos nossos músculos e articulações. Preciso que façam os dois lados pra sentir o corpo mais entregue andando pelo espaço, perceber meio lado trabalhado por parceiros de cena ainda não consigo.
Há várias educadoras na minha turma. Os alunos podem ganhar com isso: ao menos no EJA II de Santo André nem arte educador dançarino temos. Mas parece leveza, movimento, desprendimento, destravamento demais para as aulas curtas que temos. Já se avizinha no horizonte possíveis festas juninas escolares. Vamos sentindo o que é possível.
Fora que ocupar os espaços culturais santoandreenses é político. Temos que nos engajar, apropriar e valorizar. A iniciativa pública periodicamente tenta sucatear todas escolas livres locais. Mas nós resistimos dançando!

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ar "petroquimicado"

Nosso vizinho cospe fogo no ar. E não é um dragão. Estamos longe de uma terra do nunca. Quem solta fogo pelas narinas é a indústria petroquímica de Capuava, entre Mauá e Santo André, no ABC Paulista. Presenciei uma noite em que ela resolveu também derramar fogo. E então, muitos de nós, professores, não conseguimos seguir com as aulas. Vários estudantes quiseram debandar apavorados. Irônica como típica sagitariana, dizia que se era para escapulir, que fosse a três bairros de distância. Porque o ar "petroquimicado" já nos persegue há tempos nesta região. E segundo estudos da USP, compartilhados pela professora da ciências, esta poluição específica colabora com distúrbios da tireoide. Mas quem salva as glândulas da periferia? Nosso governo espoliando até nossas calças é que não é. Onde estão os ecochatos nessas horas? Na periferia eles são urgentes. Mas deixando à parte o tom panfletário dessa crônica, na noite em que a petroquímica saiu de sua rotina, assustando amigos e parceiros de trabalho, fui muito atriz pra seguir com a aula. E a petroquímica emitia sons assustadores, como um animal em cativeiro que ruge. Quando cheguei à sala de professores, questionando ainda calma os sons, meus colegas de escola já estavam tão assustados quanto os alunos. Lembrei da tireoide perdida da minha prima, na mesma cidade. Este ar "petroquimicado" segue contaminando até o Campestre, já perto de São Caetano? Na minha vizinhança não é o ar o mais pesado e sim, o solo, na Vila Carioca, também contaminado por indústrias, já próximo ao Ipiranga, que se bobear ganharam até isenção fiscal pra entregar este presente de grego à comunidade. Quem está por nós nas quebradas? Quando denunciaram o solo problemático dali, perto do Heliópolis, já na capital paulista, nem todos puderam desocupar suas moradias. Quem nos preserva da gente? Que evoluir tecnologicamente desconsiderando a comunidade é também um risco.
No dia seguinte, o fogo do céu da petroquímica estava tímido. E a contaminação silenciosa segue... Quem nos preserva deste avanço tecnológico ligeiramente destruidor? No meio da semana, não dou aula no Capuava. Mas e quem dorme entre o fogo e a contaminação? Parafraseando Elza Soares, a carne pobre é a mais barata do mercado.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Retiros de TO e suas reminiscências

Este ano fui conhecer uma Bahia que ainda não tinha noção: a periférica Itinga, além de estudar e praticar teatro do oprimido (TO) nela. Levei meses pra escrever sobre, um pouco devido aos processos artístico-pedagógicos demorarem a decantar em nós. E outro tanto devido ao "bode" de se perceber semi nova pra dormir em alojamento estudantil. É, a aventureira "chovem" sagitariana com síndrome de Peter Pan tem resistido a partir do meu universo, mas uma hora aconteceria: não tem muita escapatória.
Foi um feriado intenso, como não podia deixar de ser fazendo e ao mesmo tempo estudando teatro do oprimido, conhecendo chilenos, argentinos e uruguaios usando TO contra exploração das mulheres, poluição e apropriação duma baía tradicional, pequena pela indústria de gás, entre outros tantos modos de se por em cena politicamente.
Também mexeu muito com minha porção ancestral pouco estudada oficialmente ver os jovens bahianos usando TO para resgatar a memória africana, aplicar jogos no CASE, onde jovens cumprem medidas sócio educativas, ouvir estas jovens com suas poesias "tapa na cara", levar livro do educador delas como uma amostra dos saraus periféricos baianos, visitar quilombo, ver a dança das Bijuzeiras de Areia Branca, ouvir os quilombolas tocarem, descobrir o doce mugunzá e acompanhar por dias um espaço teatral periférico resistente abrindo espaço para cultura popular e tradição oral.
A própria troca entre os participantes me fez descobrir uma espécie de teatro educativo (será que estou traduzindo direito?), poesia no ônibus, outros modos de explorar TO contra violência doméstica e como trocar os protestos pelo TO no confronto com policiais...
É de uma riqueza absurda por a Rede Sem Fronteiras de Teatro do Oprimido pra trocar vivências! Comer juntos, se conhecer mais na fila do banho frio, rir na caminhada pro quilombo Quingoma de Dentro, saber mais da realidade machista e racista pelas parceiras de práticas na van entre o alojamento e o CASE... Enfim, uma nova Bahia, arte educadores e atores foram se descortinando devagarzinho.
Foi ainda incrível saber mais de Moçambique, trocar cartas com o ator de lá na vivência de teatro jornal (e mesmo conhecer outra forma de realizar esta ramificação de TO), aprender música moçambicana e meses depois aplicar a técnica adaptada com meus alunos do EJA, o Ensino de Jovens e Adultos.
As pessoas que conhecemos são tão talentosas, generosas, didáticas e lúdicas que eu e uma colega da grande São Paulo chegamos a improvisar uma cena contra opressão das mães com os colegas da Argentina sem se entender totalmente através das falas, até porque no palco não dava para dar texto devagar para as pessoas entenderem.
Nas rodas de troca, jogos e partilha exercitamos a paciência, escuta e controle da ansiedade, já que nem sempre os hermanos acompanhavam o que dizíamos (e nem nós entendíamos totalmente quando embalavam em debates, memórias, vídeos...).
Os únicos senão é que tive mais cansaço que o previsto e volta e meia, entre uma vivência de butô, exibição de vídeos e jogos me rendia à bendita cama inflável emprestada pelo amigo do meu namorado.
Quase toda noite tive barato de dormir meia boca, acordar com a cantoria juvenil da madrugada e pelas manhãs também não me conformava com o pessoal do Chile a todo vapor para jogar e improvisar logo cedo, enquanto ainda tentava despertar. Depois soube que os hermanos já estavam há meses mochilando na estrada, então claro que tinham um ânimo que eu, na batida de dois trabalhos, uma na educação informal, outro na formal e nesta fase SEMI (semi nova, semi magra e semi bem sucedida) não dava conta mesmo.
Fomos improvisando entre uma demora de café, overdose de programação (como fazer a escolha de Sofia entre tantas vivências incríveis com pessoas de experiências tão múltiplas?) e sono atrasado. Mas o pessoal de teatro é bom nisso não? No finzinho acabei ganhando uma noite na pousada de amigas do interior de São Paulo, com as quais estudei TO específico para a mulherada no Laboratório Madalenas um mês depois, no feriado de outubro, em Campinas. Um dia para lá de especial, em que entendi no meu corpo que as mulheres antes de nós tinham um destino mulher, não conseguiam fugir muito dele e também de onde vem esta eterna insatisfação de que nunca está bom - provavelmente da avó materna, que perdi aos 3 ou 4 anos, não queria casar, mas acabou assumindo as sobrinhas quando a irmã morreu e vivendo com meu avô, com quem convivi mais. Marcante! A expectativa é replicar fechando outras oficinas fora de Sampa com amiga do curso de doula.
Além disso tudo também matei saudade do formador em TO que tinha começado estudar o que? Há uns três anos atrás numa das ocupações do centro histórico paulistano. Porém na época estava exaurida de trabalhar dez horas como professora de biblioteca num colégio de freiras, mais 4 horas diárias de trânsito... Fomos encerrar este processo imersivo em TO ano passado, em Santo André mesmo, onde meu diploma foi pro brejo na troca de
gestão. Graças às contações, projetos e frelas anuais de jornalismo fui caçar meu certificado lá em terras bahianas e mergulhar na experiência em TO na periferia de Salvador. Achei que as periferias são todas iguais. Itinga me lembrava o Heliópolis. Espero "contaminar" outros estudantes com TO: por hora devido à limitação de tempo, recurso, frequência, entre outras, tenho improvisado com eles cenas imaginando e teatralizando opressões que vivem nos ônibus, hospital em que encaram tantos desrespeitos aos seus direitos. Esperamos evoluir no próximo ano com mais aulas e atuação pela 1a vez em centro público - colégio já pensado para o público da EJA. Enquanto atuamos nas EMEIFs, a Educação de Jovens e Adultos ainda é "ocupação" nos colégios - volta e meia sentimos como se fizessem o favor de nos acolher ou oferecer material, mas somos todos alunos da rede de educação municipal nesta região do ABC. Mas simbora que a batalha continua!

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Coração Multiétnico

Sempre brinco que minha mente é budista (são os livros e retiros em que mais me encontro e me ajudam com a ansiedade), o coração "macumbeiro" (porque comecei pesquisar dança e música afro em terreiro para um personagem que o diretor queria parecido com pomba gira e até hoje encho os olhos d'água com apresentações e cantos "para subir"), mas minhas práticas cristãs (com uma angústia reincidente, nada como uma reza tradicional aprendida na infância). Talvez por isso tivesse tanta vontade de conhecer São Luiz do Paraitinga (desejo tão antigo que vi a cidade se inundar e reconstruir pela TV, mas fui visitar bem depois). A maior parte da minha família não é tão multiétnica quanto eu. Cristãos de carteirinha, alguns já inclusive se rebatizaram em igrejas evangélicas, mas devo às tias uma curiosidade de infância das memórias divertidas e teatrais que partilharam comigo sobre as procissões, as risadas entre as romarias e como quase queimavam as companheiras de reza na rua em trânsito com as grandes velas que carregavam, entre um cochicho e uma gargalhada com os primos. Sim, no interior eles não tinham amigos: só a primaiada que ao passar férias um no outro, já dobrava a quantidade de crianças em casa, fazendo minha avó jurar: "vou fugir pro mato"! Por isso, pela paixão por patrimônio histórico colorido e paixão sertaneja pela cultura cabocla, em junho (é, estou devendo este post há meses), fui com meu companheiro na Festa do Divino de São Luiz do Paraitinga. Fizemos um bate e volta meio hardcore: partimos de São Paulo pra Taubaté e de lá noutra condução rumo às romarias cênicas. Perdi as fotos entre uma troca dum celularzinho retrô e o atual... Mas as memórias do encanto com aquela devoção lembrando cortejos cênicos ainda estão vivas! Tivemos dica gratuita duma colega operadora de turismo e como fomos e voltamos no mesmo dia, pudemos esticar as pernas no Cantinho dos Chalés, duma parceira dela, também sem custo. Foi tudo meio fora da curva, como costumam ser minhas viagens fora da caixa. A hospitalidade e generosidade são bem caipiras - no melhor sentido!
Mesmo assim conferi ao vivo e a cores - quantas cores! - a brincadeira do pau de sebo, as ricas, animadas e históricas congadas de várias regiões, as tradicionais fanfarras, encontro das bandeiras, bonecões artesanais cruzando a cidade (pequena, é verdade), os emocionantes estandartes e dança de fitas que só tinha ouvido os tios interioranos contarem nos reencontros familiares ou mestres de Congo ensinar informalmente no Sesc Santo Amaro. Meu companheiro, que não é sincrético como eu, gostou da viagem super sônica - devemos ter passado mais tempo em trânsito que em São Luiz - os problemas são que somos um país pouco marqueteiro com suas riquezas caboclas e de transporte público complicado fora dos grandes centros. Nas idas e vindas por Taubaté, me senti meio "criança feliz" vendo as homenagens ao Monteiro Lobato em forma de estátua para Emília (foi meu apelido na adolescência). Sempre concordei com a famosa personagem: "eu sou a independência ou morte"! Relendo o folheto que fez a propaganda das atrações deste ano, sinto vontade de voltar e não só encher os olhos com a fé colorida e teatral dos habitantes e visitantes interioranos, mas experimentar vivências e palestras como fiz na Chapada Gaúcha, durante o XV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas. Sinto que entre uma incursão e a outra sertão adentro ensaio uma fuga estrategicamente sonhada pro interior, que é de onde minha alma nunca saiu.
P.S: A trilha deste post variou entre Renato Teixeira e Ivan Lins, com bandeira do Divino