Nunca foi boa em dietas. Sempre praticava mais dias de enfiar o pé na jaca e sair do controle do que disciplinados. Por décadas foi a rainha da cólica de intestino e nuns exames já meio produzidos pra dar esse resultado, descobriu uma intoleranciazinha, mas estranhava que mesmo em temporadas de abstinência do queijo, as dores batiam ponto. Até que ouviu a nutricionista, fez umas experiências, tirou o glúten, quando distraiu e colocou de novo na alimentação... Não só rolou da velha cólica como voltou a ter dor de estômago. Tirando o glúten o corpo ia ficando em paz de novo, mesmo quando enfiava o pé na jaca com os derivados de leite. Pronto, era isso o glúten. Foi quando ela, que já não comia carne há uma década, se sentiu naquele pesadelo em que desconfiou que fosse parar caso virasse vegana: não é possível se confraternizar com mais ninguém. O vento, o ar, a água e a terra têm glúten. Nunca se ligou como era viciada em pães, bolos, bolachas e que comia muito na rua devido a isso. Já está quase feito drogada:
- Estou há quase uma semana e meia sem glúten! Só por hoje!
Sente aquela irritação sem fim de quem não pode comer 2939212384134 coisas, mas quer todas. Vai tomar banho e quer comer o hidratante, tão cheiroso aquele creme. Certeza que é para a pele?
Volta à infância. Vai encontrar amigos e carrega lancheirinha: abre sua boia particular sem glúten. Como diversas vezes não tem gosto, faz um exercício budista para não dar na cara o quanto a adaptação a irrita profundamente.
Comprou pães sem glúten, sem lactose... Desenvolveu uma teoria:
- O pão que o diabo amassou é sem glúten! Veja que embalagem simpática: "ainda mais gostoso se aquecido". Só é comível aquecido. Caso contrário, nem sola de sapato não deve ser tão ruim.
Acha a vida fanfarrona. Agora que uma parte significativa da civilização se adaptou aos vegetarianos, não encontra mais nada em lanchonete, bar, restaurante, boteco, nem cafeteria do Sesc sem glúten. Sorri com fome e pede uma água de coco. Ou um açaí. Neste frio, o estômago segue com fome. Está feito modelo bulímica: cheirando o que não pode mais comer.
E na cozinha então? Agora que tinha chegado ao nível comível cozinhando sem carne, tem vontade de levantar, chamar o encarregado, reclamar da comida... Então se lembra que ela mesma é que fez, engole, mas sonha com um doce ou salgado que se pensar muito, é capaz de também dar reação.
O marido começou estranhar uns sumiços em casa..
- Viu meu creme de barbear?
- Comi.
- Mas você não passou mal?
- Ah deu um piriri, mas super de boas pra quem não tem mais cólica de intestino, nem dor de estômago.
Preocupado, deu cabo de todo arsenal cheiroso feminino: hidratante, creme de cabelo, para as mãos, os pés.
Ultimamente os amigos têm estranhado seu sumiço.
Mas está numa empreitada terapêutica empreendedora: criou os intolerantes anônimos. Tem ouvido muitas noites, de outros irritados feito ela:
- Olá meu nome é Antônio e já estou há um mês sem glúten.
- Boa noite Antônio - devem responder todos em coro.
Será esta a tal síndrome do intestino irritado?
Não querem saber. Estão se organizando para descobrir quais cremes farão menos estragos caso desapareçam com eles dos banheiros de casas, furem a dieta e comam qualquer coisa cheirosa para pele que não tenha glúten.
Esperamos que sobrevivam.
domingo, 9 de setembro de 2018
A TPM me mantém em cativeiro
Baixei um aplicativo porque sou tão de humanas que erro até as contas do ciclo menstrual. A questão é que até esse programinha pra celular é machista: avisa meu período fértil, mas a chegada da TPM não. Resultado: na última descompensação hormonal mantive o encarregado da fábrica de chocolate Pan como refém. Porque essa indústria? Bom, é a mais próxima de casa e a única que todo dia faz um saldão estilo industriais vendem tudo. Ameaça fechar, mas já está há décadas deixando o bairro Santa Paula, em São Caetano com cheiro de chocolate no ar. Bom, exigia de resgate a produção da semana. Sim, somente sete dias no mês "quero mudar de sexo, cruzar a fronteira, deixar os amigos do trabalho falando sozinhos, sair pra comprar cigarros, eles lembrarem que não fumo, não entenderem nada e eu sumir sem deixar rastro". Daí que enviaram a guarda municipal para negociar quando no auge da última TPM exigia 1/4 do carregamento de chocolate mensal da fábrica vizinha como resgate do funcionário que sequestrei. A policial, também de TPM, exigiu meia produção do resgate que pedia para limpar minha barra, já que sou professora e meu surto não pegaria bem entre os funcionários públicos locais. A dona da fábrica, já na menopausa, avisou que não cederia, mas sua marqueteira, também "hormonalmente descompensada", botou panos quentes oferecendo um meio termo de 1/32 da produção que demandava, mas como contrapartida do preju eu e a policial municipal teríamos que gravar testemunhais do poder do chocolate contra a TPM. Nisso a PM atravessou o samba das negociações e eles, que não são conhecidos por bater antes de entrar, cortou abruptamente esta intrincada negociação e... Bom, agora escrevemos de trás das grades mesmo. Eu e a policial civil pedimos compaixão das manas feministas, doação de chocolates e... Bem, uma advogada que entendesse particularidades feministas também seria bem vinda... Dizem até que temos atenuante de pena quando perdemos a cabeça no auge da TPM...
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Cerrado e eu: um caso de amor
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| as férias se descarando na minha fuça |
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| os generosos indígenas nos convidavam a dançar e cantar com eles |
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| meditei pelas cachoeiras |
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| esse canto subia e emocionava os caminhantes lá em cima |
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| já destruída de abusar de mim mesma |
Nos dois dias seguintes passei horas em trilhas e micro escaladas pelas cachoeiras Almécegas I e II, São Bento, Santa Bárbara, Barbarinha e joguei a toalha na Capivara, já sem perna, $, sol e ânimo para "praticamente gravar um Lost na mata do cerrado". Nas primeiras, fiquei muito grata de poder andar, ver, mergulhar e boiar naquele banho de natureza que precisava (lembrei de crianças eternamente internadas que o Fê já contou histórias na Santa Casa). Sim, o cagaço foi embora. Pode ser inclusive que ele fosse de histórias pesadas familiares dos proprietários de parte das terras me contaminando..Vai saber? Depois da "overdose esquisotérica" de Goiás, não duvido de mais nada. Uma passarinhada típica local nos cumprimentou entre as trilhas e o albergue - tucanos, araras... Estava bom pro meu pai curtir, doido por eles! As flores do Cerrado, das mais diversas cores, nos davam uma pena da suspeita de algumas pessoas da região, de que o incêndio do ano passado tenha mesmo sido proposital (os poderosos locais parecem gostar mais dos empresários que dos turistas ecochatos)... Vi que por não ter muito contato com natureza em Sampa, chego no interior e quero ter dar conta de mais do que o corpo consegue... Resultado no quinto, sexto dia já tive que pegar leve com a perna doendo e sem $. Mas no quarto dia de vai e vem
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| não era nem o gelo que me congelava e sim não enxergar distância das pedras nos pés |
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| comi essas flores azedinhas... |
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| por do sol na Aldeia Multiétnica: como resistir? |
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| sem entender o guia quilombola numa das trilhas, caí de amores pela literatura deles |
sábado, 19 de maio de 2018
Há TPMs que "nos têm"
Em maio, uma TPM me teve. Foi nesta proporção mesmo. Não sei se um mix de problemas pequenos que se somaram e ganharam um peso maior, se quando não sofremos disso "xóvens" recebemos o mal estar com juros e correção monetária na fase... Digamos "maduras, quase caindo da árvore" ou há meses em que perdemos o pé e piramos no modo "angústia/ ansiedade descontrol". Afastem-se todos! Nem o aplicativo menstrual ajudou. Aliás, a esmagadora maioria deles avisa o período fértil. Só quero saber quando me esconder do universo porque está Tenso Pacas Mesmo. Ou pra conseguir isso tenho que passar meses informando estado de espírito, ânimo, alimentação, sono, disposição, exercício e vida sexual? Tecnologiazinha enxerida... O remédio antroposófico que já me deu a graça de passar pelo ciclo todo como se nada tivesse acontecendo, este mês não fez cócegas. Quis cruzar a fronteira, mudar de sexo, separar, jogar tudo pro alto, tive a sensação que a deprê fugiria comigo em desembestada carreira, como a fuga dos bandidos é descrita em entrevistas do programa do Datena. Mesmo depois de menstruar passei uns diazinhos do cão ainda. Geralmente vem e o mal estar emocional escorre modess abaixo, assim que desce. Apesar de ser feminista, conhecer os perigos da pílula, ter circulado nos círculos de mulheres badauês, tenho cogitado fortemente voltar a tomar anticoncepcional, emendar cartela e fugir disso. É injusto sermos reféns dos hormônios, nem usaremos mais eles! Uma noite nem fui trabalhar, parecia que ia descer e meu quadril cairia, de tanta dor no fim das costas. Cólica não tenho desde adolescente (ah, que ciclo tão gracioso, me poupando delas), mas a lombar vira um pesadelo acordada. Isso tudo bem quando comecei as danças brasileiras no Centro de Danças de Santo André e eu em dúvida se o fim das costas me arrebantava porque estava voltando à rotina de me exercitar três vezes por semana madura, quase caindo do galho ou porque ia descer. Quando desceu e em alguns dias a deprê não passou, quase liguei ao CVV. Tenho sonhado acordada em voltar à ginecologista natureba que me ajudou com fitoterápico a sair da pílula anos e anos atrás. Com esse veneninho hormonal diminuí meus ciclos de 1/3 vazando décadas e décadas atrás. Será que tem solução riponga pra TPM "do capiroto"? No nervo e proseando com amigas gringas em situação similar, pesquisei a geleia real. A primeira que encontrei, em embalagem minúscula, pensei que era produzida por apicultores albinos, na remanescente da Mata Atlântica e ouvindo Mozart, de tão cara! Depois encontrei as pílulas compráveis. E quando vamos comentar sobre a Tá Pra Morrer com umas almas insensíveis que praticamente debocham "nunca tive, não é da nossa época, coisa de 'xóvem'"... Rapaziada a gente tem até desconto na pena quando cometemos crime em TPM! Tô achando que é o caso de produzir um stand up sobre isso. Único jeito de capitalizar a dita cuja...
sexta-feira, 18 de maio de 2018
A Busca de um Corpo Extraordinário
Há duas semana as danças brasileiras me carregam pelo coração no Centro de Danças de Santo André. Namorava com estes ritmos há tempos, em oficinas do Sesc, aulas abertas de ONGs e curso do Instituto Brincante. Mas conseguindo uma das vagas gratuitas neste espaço do ABC, a possibilidade das apresentações no fim do ano aqueceu meu peito nesta época de retorno do frio. Dancei em cena no ensino médio (que na minha época chamava-se colegial), quando descobri que educação física podia ser lúdica, a criação com colegas de classe, encantadora e a troca com o público, inebriante. Apresentações alimentam esta gente de teatro como eu. Para mim, voltar à dança é sempre um movimento "porque demorou tanto pra voltar"? Ah, o trabalho, estudos, dores, distância, falta de grana, cansaço... Sempre o mundo nos apartando de nossas paixões inveteradas. Mas aos quarentinha percebi que se esperar o corpo dar trégua, não retorno aos exercícios que me alimentam. A última semana foi sofrida, mais por TPM que devido à lombar ou ao quanto o corpo estava enferrujado, já que vinha praticando pilates pra "rainha da coluna" (como diria a atriz Georgete Fadel) e natação pra asma, porém ambos com movimentos tão díspares da dança, fora a água segurando a bronca do impacto.
Temos experimentado as danças afro brasileiras. Nenhum movimento ao qual nossos membros estão habituados. Tem um quê de ancestral nas descobertas, música e coletividade. Quarta vivenciamos a água de Oxum. Nesta sexta a exigência dos joelhos, agachamentos, pulos foram me dando um cagaço. Depois de umas décadas não só nosso psicológico tem seus traumas. Ano passado senti o joelho durante o caboclinho lá no instituto do Antônio Nóbrega. Mas lá para as tantas, senti que de fato buscávamos um corpo extraordinário, que tantas senhorinhas em cena comigo não estavam se colocando travas, quem sabe não era o caso de se permitir, se jogar ou se provocar? O corpo inédito é um salto no desfiladeiro. Não é porque tenho imaginação literária que tenho a corporal provocada pela professora Cris Santos. É um jogo, uma criação em conjunto de imagens, uns giros didáticos, um sentir este corpo que pode, uma procura de uma expressividade que se perdeu, mas o corpo tem memória e evoca percursos. Vimos e experienciamos mãos de mel, pés no barro, bacia que se deslocava como água, músicas até mais caribenhas que africanas e fomos encontrando este território expressivo que é mágico - e não dói. Estávamos entre linóleo e colegas. Mas fomos criando, sentindo e expressando o que a professora conduziu. E foi potente!
Os relaxamentos extrapolam tanto os cênicos! A gente nem reconhece mais a tensão que se apegou aos nossos músculos e articulações. Preciso que façam os dois lados pra sentir o corpo mais entregue andando pelo espaço, perceber meio lado trabalhado por parceiros de cena ainda não consigo.
Há várias educadoras na minha turma. Os alunos podem ganhar com isso: ao menos no EJA II de Santo André nem arte educador dançarino temos. Mas parece leveza, movimento, desprendimento, destravamento demais para as aulas curtas que temos. Já se avizinha no horizonte possíveis festas juninas escolares. Vamos sentindo o que é possível.
Fora que ocupar os espaços culturais santoandreenses é político. Temos que nos engajar, apropriar e valorizar. A iniciativa pública periodicamente tenta sucatear todas escolas livres locais. Mas nós resistimos dançando!
Temos experimentado as danças afro brasileiras. Nenhum movimento ao qual nossos membros estão habituados. Tem um quê de ancestral nas descobertas, música e coletividade. Quarta vivenciamos a água de Oxum. Nesta sexta a exigência dos joelhos, agachamentos, pulos foram me dando um cagaço. Depois de umas décadas não só nosso psicológico tem seus traumas. Ano passado senti o joelho durante o caboclinho lá no instituto do Antônio Nóbrega. Mas lá para as tantas, senti que de fato buscávamos um corpo extraordinário, que tantas senhorinhas em cena comigo não estavam se colocando travas, quem sabe não era o caso de se permitir, se jogar ou se provocar? O corpo inédito é um salto no desfiladeiro. Não é porque tenho imaginação literária que tenho a corporal provocada pela professora Cris Santos. É um jogo, uma criação em conjunto de imagens, uns giros didáticos, um sentir este corpo que pode, uma procura de uma expressividade que se perdeu, mas o corpo tem memória e evoca percursos. Vimos e experienciamos mãos de mel, pés no barro, bacia que se deslocava como água, músicas até mais caribenhas que africanas e fomos encontrando este território expressivo que é mágico - e não dói. Estávamos entre linóleo e colegas. Mas fomos criando, sentindo e expressando o que a professora conduziu. E foi potente!
Os relaxamentos extrapolam tanto os cênicos! A gente nem reconhece mais a tensão que se apegou aos nossos músculos e articulações. Preciso que façam os dois lados pra sentir o corpo mais entregue andando pelo espaço, perceber meio lado trabalhado por parceiros de cena ainda não consigo.
Há várias educadoras na minha turma. Os alunos podem ganhar com isso: ao menos no EJA II de Santo André nem arte educador dançarino temos. Mas parece leveza, movimento, desprendimento, destravamento demais para as aulas curtas que temos. Já se avizinha no horizonte possíveis festas juninas escolares. Vamos sentindo o que é possível.
Fora que ocupar os espaços culturais santoandreenses é político. Temos que nos engajar, apropriar e valorizar. A iniciativa pública periodicamente tenta sucatear todas escolas livres locais. Mas nós resistimos dançando!
terça-feira, 10 de abril de 2018
Ar "petroquimicado"
Nosso vizinho cospe fogo no ar. E não é um dragão. Estamos longe de uma terra do nunca. Quem solta fogo pelas narinas é a indústria petroquímica de Capuava, entre Mauá e Santo André, no ABC Paulista. Presenciei uma noite em que ela resolveu também derramar fogo. E então, muitos de nós, professores, não conseguimos seguir com as aulas. Vários estudantes quiseram debandar apavorados. Irônica como típica sagitariana, dizia que se era para escapulir, que fosse a três bairros de distância. Porque o ar "petroquimicado" já nos persegue há tempos nesta região. E segundo estudos da USP, compartilhados pela professora da ciências, esta poluição específica colabora com distúrbios da tireoide. Mas quem salva as glândulas da periferia? Nosso governo espoliando até nossas calças é que não é. Onde estão os ecochatos nessas horas? Na periferia eles são urgentes. Mas deixando à parte o tom panfletário dessa crônica, na noite em que a petroquímica saiu de sua rotina, assustando amigos e parceiros de trabalho, fui muito atriz pra seguir com a aula. E a petroquímica emitia sons assustadores, como um animal em cativeiro que ruge. Quando cheguei à sala de professores, questionando ainda calma os sons, meus colegas de escola já estavam tão assustados quanto os alunos. Lembrei da tireoide perdida da minha prima, na mesma cidade. Este ar "petroquimicado" segue contaminando até o Campestre, já perto de São Caetano? Na minha vizinhança não é o ar o mais pesado e sim, o solo, na Vila Carioca, também contaminado por indústrias, já próximo ao Ipiranga, que se bobear ganharam até isenção fiscal pra entregar este presente de grego à comunidade. Quem está por nós nas quebradas? Quando denunciaram o solo problemático dali, perto do Heliópolis, já na capital paulista, nem todos puderam desocupar suas moradias. Quem nos preserva da gente? Que evoluir tecnologicamente desconsiderando a comunidade é também um risco.
No dia seguinte, o fogo do céu da petroquímica estava tímido. E a contaminação silenciosa segue... Quem nos preserva deste avanço tecnológico ligeiramente destruidor? No meio da semana, não dou aula no Capuava. Mas e quem dorme entre o fogo e a contaminação? Parafraseando Elza Soares, a carne pobre é a mais barata do mercado.
No dia seguinte, o fogo do céu da petroquímica estava tímido. E a contaminação silenciosa segue... Quem nos preserva deste avanço tecnológico ligeiramente destruidor? No meio da semana, não dou aula no Capuava. Mas e quem dorme entre o fogo e a contaminação? Parafraseando Elza Soares, a carne pobre é a mais barata do mercado.
domingo, 17 de dezembro de 2017
Retiros de TO e suas reminiscências
Foi um feriado intenso, como não podia deixar de ser fazendo e ao mesmo tempo estudando teatro do oprimido, conhecendo chilenos, argentinos e uruguaios usando TO contra exploração das mulheres, poluição e apropriação duma baía tradicional, pequena pela indústria de gás, entre outros tantos modos de se por em cena politicamente.
Também mexeu muito com minha porção ancestral pouco estudada oficialmente ver os jovens bahianos usando TO para resgatar a memória africana, aplicar jogos no CASE, onde jovens cumprem medidas sócio educativas, ouvir estas jovens com suas poesias "tapa na cara", levar livro do educador delas como uma amostra dos saraus periféricos baianos, visitar quilombo, ver a dança das Bijuzeiras de Areia Branca, ouvir os quilombolas tocarem, descobrir o doce mugunzá e acompanhar por dias um espaço teatral periférico resistente abrindo espaço para cultura popular e tradição oral.
A própria troca entre os participantes me fez descobrir uma espécie de teatro educativo (será que estou traduzindo direito?), poesia no ônibus, outros modos de explorar TO contra violência doméstica e como trocar os protestos pelo TO no confronto com policiais...
É de uma riqueza absurda por a Rede Sem Fronteiras de Teatro do Oprimido pra trocar vivências! Comer juntos, se conhecer mais na fila do banho frio, rir na caminhada pro quilombo Quingoma de Dentro, saber mais da realidade machista e racista pelas parceiras de práticas na van entre o alojamento e o CASE... Enfim, uma nova Bahia, arte educadores e atores foram se descortinando devagarzinho.
Foi ainda incrível saber mais de Moçambique, trocar cartas com o ator de lá na vivência de teatro jornal (e mesmo conhecer outra forma de realizar esta ramificação de TO), aprender música moçambicana e meses depois aplicar a técnica adaptada com meus alunos do EJA, o Ensino de Jovens e Adultos.
As pessoas que conhecemos são tão talentosas, generosas, didáticas e lúdicas que eu e uma colega da grande São Paulo chegamos a improvisar uma cena contra opressão das mães com os colegas da Argentina sem se entender totalmente através das falas, até porque no palco não dava para dar texto devagar para as pessoas entenderem.
Nas rodas de troca, jogos e partilha exercitamos a paciência, escuta e controle da ansiedade, já que nem sempre os hermanos acompanhavam o que dizíamos (e nem nós entendíamos totalmente quando embalavam em debates, memórias, vídeos...).
Os únicos senão é que tive mais cansaço que o previsto e volta e meia, entre uma vivência de butô, exibição de vídeos e jogos me rendia à bendita cama inflável emprestada pelo amigo do meu namorado.
Quase toda noite tive barato de dormir meia boca, acordar com a cantoria juvenil da madrugada e pelas manhãs também não me conformava com o pessoal do Chile a todo vapor para jogar e improvisar logo cedo, enquanto ainda tentava despertar. Depois soube que os hermanos já estavam há meses mochilando na estrada, então claro que tinham um ânimo que eu, na batida de dois trabalhos, uma na educação informal, outro na formal e nesta fase SEMI (semi nova, semi magra e semi bem sucedida) não dava conta mesmo.
Fomos improvisando entre uma demora de café, overdose de programação (como fazer a escolha de Sofia entre tantas vivências incríveis com pessoas de experiências tão múltiplas?) e sono atrasado. Mas o pessoal de teatro é bom nisso não? No finzinho acabei ganhando uma noite na pousada de amigas do interior de São Paulo, com as quais estudei TO específico para a mulherada no Laboratório Madalenas um mês depois, no feriado de outubro, em Campinas. Um dia para lá de especial, em que entendi no meu corpo que as mulheres antes de nós tinham um destino mulher, não conseguiam fugir muito dele e também de onde vem esta eterna insatisfação de que nunca está bom - provavelmente da avó materna, que perdi aos 3 ou 4 anos, não queria casar, mas acabou assumindo as sobrinhas quando a irmã morreu e vivendo com meu avô, com quem convivi mais. Marcante! A expectativa é replicar fechando outras oficinas fora de Sampa com amiga do curso de doula.
Além disso tudo também matei saudade do formador em TO que tinha começado estudar o que? Há uns três anos atrás numa das ocupações do centro histórico paulistano. Porém na época estava exaurida de trabalhar dez horas como professora de biblioteca num colégio de freiras, mais 4 horas diárias de trânsito... Fomos encerrar este processo imersivo em TO ano passado, em Santo André mesmo, onde meu diploma foi pro brejo na troca de
gestão. Graças às contações, projetos e frelas anuais de jornalismo fui caçar meu certificado lá em terras bahianas e mergulhar na experiência em TO na periferia de Salvador. Achei que as periferias são todas iguais. Itinga me lembrava o Heliópolis. Espero "contaminar" outros estudantes com TO: por hora devido à limitação de tempo, recurso, frequência, entre outras, tenho improvisado com eles cenas imaginando e teatralizando opressões que vivem nos ônibus, hospital em que encaram tantos desrespeitos aos seus direitos. Esperamos evoluir no próximo ano com mais aulas e atuação pela 1a vez em centro público - colégio já pensado para o público da EJA. Enquanto atuamos nas EMEIFs, a Educação de Jovens e Adultos ainda é "ocupação" nos colégios - volta e meia sentimos como se fizessem o favor de nos acolher ou oferecer material, mas somos todos alunos da rede de educação municipal nesta região do ABC. Mas simbora que a batalha continua!
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