quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Das surpresas narrando fora das áreas cultural e educativa

Neste recesso escolar deu pra experimentar de tudo um pouco: desde férias interioranas offline econômicas até contação de histórias fora dos segmentos escolar e cultural. Na segunda possibilidade de vivências rolaram surpresas e aprendizados dos mais inesperados. Como diria um programa infantil retrô da TV Cultura na minha infância: senta que lá vem história...
Comecei narrando histórias sozinha depois de não conseguir combinar ensaio com meu músico durante três ou quatro dias. Nada de novo sob o front com relação a estas parcerias criativas. Fiz numa rede comercial com a maior parte das lojas em shopping que não conheceria se não fosse trabalhando, pois ao contrário de parentes cujo hobby é passear nesses centros comerciais,  só vou para estes locais quando o tempo está muito apertado e só tenho curto espaço para resolver três ou quatro coisas duma vez - então atravesso a avenida e vou no pedante shopping de São Caetano, cujo bairro curte simular que está em Alphaville: batizou todas avenidas do entorno com alameda. Vi que fizeram uma divulgação caprichada, porém em algumas delas as gerentes lamentaram que muitos clientes estivessem de férias ou que os pais levaram para ver Rei Leão no cinema. Brinquei que não conseguia concorrer com todos efeitos colaterais e marketing desta produção. Só que as brincadeiras têm um quê de verdade rs
Já na segunda semana consegui finalmente firmar parceria com amiga budista e artista com quem ensaiei e narrei as demais histórias. Artistas populares se namoram um tempinho antes de engatar noivado porque sempre tem umas aulas, pendenga familiar ou imprevisto pelo caminho adiando as
parcerias criativas. Numa das poucas lojas de rua da zona sul, a gerente dividiu conosco que mudamos o olhar que teve sobre um dos livros contados, que tinha achado triste e alterado o fim para os pequenos que contou, porém nem percebeu que tratávamos da mesma obra. De novo a praga do politicamente correto contaminando nossas avaliações literárias. Não, a obra não acaba muito bem para os bichos do enredo, mas por acaso a vida sempre termina bem? Nada pedagógico a gente querer encerrar tudo no felizes para sempre. Mas nem para os bem nascidos termina sempre para cima, embora estes tenham problemas gourmet. Mas para os seres humanos, o livro encerra com uma luz no fim do túnel. E nós não estamos na floresta como os protagonistas da fábula do escritor, então... Vale conhecer ou ouvir Leão Humilde, de Pereira Lima, indicado pelo clube de leitura infantil Leiturinha.
Na zona leste contamos para uma criança super participativa, depois a mãe veio pedir desculpas, mas é melhor para imaginação desta expectadora mirim que super interaja do que se perca em atrações muito estimulantes ou digitais (em muitos dos espaços trabalhados havia várias). Tivemos retornos gratificantes das mães, funcionárias se lamentando dos clientes que só usaram a prestação de serviço local e foram para outros compromissos, mas aqui minha experiência educativa colaborou: as mães e crianças atentas têm experiência na educação, o que impacta nos estímulos educativo e lúdico que dão em casa. Os africanos têm razão no provérbio "é preciso toda uma aldeia para educar uma criança".
Um dos espaços que contamos - enorme! É a sede - tinha metade da loja em parceria com espaço de estimulo à criatividade que só conhecia fora de shopping, mas adivinhe? Só fazem atividades mão na massa, sem equipamentos eletrônicos, caseiras e artesanais. Ou gourmetizando atividades maker. Até quem é de fora da educação reconhece que telas e jogos cedo ou o tempo todo com os pequenos os prejudica! Até a receptividade e interessse nesse local era outro.
Numa das últimas apresentações, um aprendizado para além dos estudos acadêmico-artístico. Acho
que conferindo o pesquisador e artista Flavio Desgranges ano passado estudei que o que criamos só se completa apresentando, com a interação do público. Às vezes quando minha voz ficava muito fora do que ouvia no ensaio em casa, cismava com minhas ansiedade ou asma e me cobrava. Mas lá, vivenciei o quanto a arte - narrativa também - é uma construção com variáveis diversas que não temos como controlar. Na penúltima loja, havia um espaço para mães com bebês pequenos demais, meio escondido, mais fechado. Ele me fez perceber que espaço que se diz fechado, mas é amplo demais, já se transforma num local aberto e vai impactar na acústica. Nesta tarde foram ver colega de trabalho e outra amiga com filhos, uma delas  atravessou a cidade para assistir. A alegria da plateia enfrentar dificuldade na chegada e ofertar essa raridade contemporânea no contexto digital - a escuta - já me fez entregar uma contação numa empolgação grata. E como quando contava histórias diferentes a cada quinze dias em biblioteca de colégio particular, a toque de caixa porque o ritmo industrial nos aperta o tempo dilatado dos ensaios, as últimas narrações se tornam o resultado do ensaio involuntário das primeiras contações anteriores, que o sistema capitalista transforma invariavelmente em treino. No fim de semana posterior ao término das contações a ex chefe escreveu mandando foto, elogiando e escreveu que estava impressionada como desenvolvi vozeirão. Achei engraçado pois ela só conhecia minha versão sisuda fantasiada de executiva na comunicação.
Depois ainda encerrei a formação que dei no Galpão de Cultura e Cidadania de São Miguel, em parceria com a Fundação Tide Setúbal com a mesma amiga atriz, violeira e preparadora de elenvo Cris Martins, aproveitando o cenário do Ponto de Leitura local e finalizando musicalmente as apresentações dos assistente social, educadora, dona de casa, estudante e estagiário que estudaram narração lá comigo. Mas isso ja é assunto para outro post...!

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Ainda as férias

E nas últimas férias escolhi... Passar frio! O que não fazemos pelos amigos não? Deixei um frio de bater queixo em São Paulo e fui de encontro a outro de bater dente no sul de Minas. Não voltava para lá há mais de 16 anos, desde que gravei matéria para o programa Próxima Parada da Rede Mundial lá em Monte Verde. E como brinquei uns anos depois com um professor da Metodista: "passou de madrugada numa emissora da Band, mas nem meus pais devem ter visto". Ele jurava que alguém sempre vê, porém pelo pouco que trabalhei com audiovisual, não deve ter razão. Como podem verificar, o sul mineiro me provoca digressões nostálgicas. Desta vez fui conhecer Gonçalves com os amigos do meu companheiro, ops, agora também meus. Na verdade eles ficavam em Paraisópolis, mas me levavam pro centrozinho de Gonçalves. Estava rolando um Festival da Latitude. Por pouco
não reencontrei um colega do Programa de Iniciação Artística (Piá/ SMC/ SP) tocando por lá. Como diria uma amiga, o mundo é mesmo muito redondo! Curtimos degustação, só demos uma olhada nas gélidas cachoeiras, tomamos cafezinho pra tentar dar pelé no frio, subimos numa montanha que até tinha uma antena feito o Pico do Jaraguá, porém o lado que a urbanização não detonou era estupidamente mais bonito, batemos perna pelas lojinhas de artesanato nas quais gostaria de empacotar tudo e levar pra casa, vimos parte de um show e duma oficina gastronômica, comi no sol com amigos, passei frio na rede... Só queria registrar nos autos para a posteridade: eu precisava disso! Há um ano e meio eu só estudava e trabalhava nas viagens (claro, fazer isso fora de Sampa inclui sempre um certo alívio, porém pra hiperativos, depois de férias à toa... O corpo quer saber: "o que te fiz que não me deu isso antes"?). Matei as saudades de comer truta. Lembrei no restaurante que já tinha gravado noutro da rede, onde tem tanque com o peixe lá na Campos do João rústica mineira. Vi mais cerejeira do que quando fui num festival japonês delas com ex chefe no interior de São Paulo. Tirei umas fotos de desenhos de pássaros da Mata Atlântica, feito de caneta esferográfica por uma
artista leiga, pra mostrar ao meu pai ligeiramente autista - que depois reconheceu a maioria das espécies no meu celular. A gente sai de perto dos nossos, mas eles não saem de nós. Fui bem servida de blusa, finalmente estreei o cachecol e touca que minha segunda madrinha me deu, mas devo confessar que em alguns momentos nenhum deles fazia cócegas, À noite havia tanta coberta em cima de mim, que mesmo quando virava de barriga pra cima não dava para ver o guarda roupas à frente. Gozado que sou super urbana, mas vou pro mato e me adapto facinho. Fiquei dias sem conexão. Em quatro dias se pegou wi fi três vezes foi muito. Mas penso que até isso foi providencial porque navegar em São Paulo à noite não ajuda dormir. Depois fui pra Niterói rever amigas budista e das danças brasileiras. Elas me levaram num boteco meio "vilamadalenizado" de lá, mas colocamos a prosa em dia. "Perdi" uma manha enrolando depois duma canseira de estrada em dose dupla, mas vamos combinar? Eu realmente precisava desses respiros. Pra não perder costume, minha ex marida me levou à praia Itacotiara. Um deslumbre, mas como é praia de surfista, o mar só me deu tombo na hora de tentar entrar. Então fui para o Rio de barca, que é transporte público, mas com a vantagem do visual e minha paixão inveterada por transporte fluvial. Na hora de embarcar me confundi numa máquina de cartão de transporte e lá se foi uma nota alta sem troco na hora da cobrança; Resultado: paguei de ambulante nas portas do trem paulista e fiquei oferecendo o cartão com várias viagens nas filas... E não é que consegui vendê-lo? Por fim, matei saudade duma amiga jornalêra, que me levou num natureba em Copacabana, andamos e rimos muito perto da feirinha. Ainda almocei com ela, dei uma de caipira quando vi e escutei o VLT (veículo leve sob trilhos) e fui com ele à rodoviária, amarradona feito criança. Um amigo do teatro do oprimido (TO) ainda tentou me ver antes de voltar, mas infelizmente não é só por aqui que o trânsito nos estrepa, porque ele chegou quando meu ônibus começou voltar. Este post é uma ode aos amigos pois graças a eles, minha última viagem foi tão em conta quanto os minguados frelas que ainda faço ocasionalmente para o jornalismo. Este post é para falar o óbvio: quem tem amigo não morre pagão. E que a educação como era de se esperar já está me fazendo precisar de outra trégua. E graças aos amigos, mês que vem tem mais, aqui na roça de Sampa mesmo! Aguardem cenas dos próximos capítulos....

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Quando a academia me arrebatou

Nunca pensei que encarar um academiquês pudesse me provocar alumbramento. Explico: venho do jornalismo, área em que tanto faz como tanto fez onde, quando e quanto estudamos - ganharemos o mesmo valor espartano de sempre. Daí que estudava bem mercenariamente: só fazia cursos livres ou técnicos. Nenhum faria cócegas no salário.
Adicionar legenda
Não que ache que o estudo têm que impactar o bolso. Mesmo sem retorno na comunicação, ainda assim estudava. Mesmo hoje em dia na educação, na qual diplomas rendem, estudo o que amo. É resistência, auto conhecimento e cura também. Mas precisando fazer vários frelas, plantões.. Estudava o que cabia na agenda infernal. Daí que o jornalismo me deprimiu. Lembra que estudo o que gosto? Já tinha quase 20 anos estudando teatro, literatura e contação de histórias. Tentei ser atriz, mas o machismo nos castings também me cutucou a gastrite. Foi quando o jornalismo analógico que estudei morreu (que Deus o tenha). E como a vida é muito fanfarrona avirei professora. E como uma nos cobram, esperam e estimulam que estudemos pacas. Graças à imersão em pedagogia griô que encarei nas últimas férias conheci - que ironico - outra jornalêra que me incentivou a concorrer como aluna especial do Diversitas. E cá estou eu finalizando performance no Teatro do Faroeste da Luz, por este programa que hackeou professores da USP pro centro periférico. Foram tantos aprendizados até chegar ao ponto de que o conhecimento se torna perturbador. Mas é pinga né?
Você começa, se empolga, dói, mas não retrocede. Entendimentos da conexão entre trote e facismo que renderam áudios enormes dando aulas nao solicitadas via zap as amigas e primas. Virei a evangélica de humanas: você tem um minutinho pra escutar a palavra sobre diversidade, conflitos e intolerância? É o que estudamos lá. Às vezes vamos estudar na rua mesmo: como na última manifestação contra os cortes na educação, na caminhada pela Luz e na visita cantando Maria, Maria na casa de acolhida às trans Florescer. Sim, é humano demais - bem acima do esperado para estudos como estes. Assistimos performances, fizemos, incomodamos e fomos incomodados pela realidade, olhares inesperados e experiências partilhadas. Revisitei Walter Benjamin: over and over again, desde o jornalismo e especialização na arte de contar histórias. Senti saudade das apresentações de cultura popular, acolhida e cerrado da terra de Guimarães Rosa quando vimos aula, vídeos e músicas sobre as congadas mineiras. Dançamos samba de roda - e não soubemos o que fazer com o machismo na letra que se instaurou entre nós. Revi outro amigo jornalêro (sim, estamos por toda parte, nao importa o que e a tecnologia fez da nossa formação) e com ele matei saudades de dançar cacuriá, ritmo conhecido como oficineira no programa Piá. A sensação que dá é a de que semanalmente empurram janelas internas que não sabia emperradas e amploam, ampliam meus horizontes. Semestre que vem tem mais. E eu encaro porque - descobri - tenho um vício tolerado socialmente: estudar. Nesta semana soubemos que faremos um artigo. Perco o sono indecisa entre temas passional mente empolgantes pruma pesquisa. Mas não largo o osso!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Pedagogia e teatro dos oprimidos

Esta semana a aula da matéria O Lugar das Performances, que faço no programa Diversitas da FFLCH/ USP no teatro do Faroeste foi na rua. Fomos à manifestação contra os cortes na educação. Não encontrei os amigos professores e jornalista com quem falei antes de chegar e quase voltei. Mas devido à curiosidade que vem comigo desde o jornalismo fui espiar a av. Rebouças, já que os manifestantes iam do Largo da Batata, em Pinheiros à Paulista. A avenida estava tomada! Me animei e subi com estudantes, professores e ativistas. Entre gritos de guerra, palmas, bandeiras, estandartes e percussão me senti muito em casa. No meio do caminho projetaram Paulo Freire num dos prédios e fiquei pensando: que tempos são esses em que temos que desenhar o que defendia o patrono da educação para colegas da área, que parecem ter entrado de gaiato no navio? Sim, tivemos uma discussão no trabalho há um tempo razoável porque levaram um trecho dele para leitura, mas na discussão tivemos que ouvir o oposto do que ele acreditava. Aquelas reuniões das quais saímos mais nervosas que entramos. Tem fase da vida em que o conhecimento é perturbador... Mas ao mesmo tempo pesquisar, assistir explicações, mergulhas em vivências que nos afetam é um auto conhecimento muito transformador. Sempre tive a impressão de ter mais vontade de estudar arte que educação. O olhar meio lógico da pedagogia em cima das documentações que nos perseguem me faz fugir de estudos focados demais no educativo. Por essas e outras estou há uns três meses como aluna especial do Diversitas para futuramente fazer mestrado. Tinha entrado por indicação duma amiga da pedagogia griô, imaginando seguir estudando as narrativas das vlogueiras cyberfeministas, pertencimento digital, renovação do audiovisual e o quanto elas narram experiências próprias ou de conhecidos. No meio do caminho fui relembrando e ensinando aos jovens e adultos que trabalho na EJA em Santo André o teatro do oprimido (TO) de Augusto Boal. Tive uma vontade de pesquisar o que tenho aprendido repassando técnicas e estudos em TO para meus estudantes. Foi então que fui selecionada para mostrar esse trabalho no seminário intercidades de práticas na EJA, que acontecerá neste começo de junho na faculdade USCS, de São Caetano. Claro que me pediram para mudar o texto explicando o que falaria porque "é só um relato de experiência". Expliquei que não, é também estudo e prática artísticas. Impressionante como a academia é petulante: se não for pesquisa científica não é estudo... Freire é tão estudado por pesquisadores daqui e fora e era completamente avesso a isso. A pedagogia do oprimido dele, pensada para colaborarmos pela conscientização do oprimido e fim de sua exploração inspirou o TO, também criado para ensaiar a revolução que sonhamos. Gozado que Santo André já deu tanta formação em TO, os próprios praticantes e estudiosos da área conhecem a região por isso. Meus estudantes têm me mostrado o quanto refletem se divertindo, como o teatro é complexo e já deram retorno em auto avaliação como "escrevi essa aula com meu corpo". É um material freiriano e tanto para seguir com estudos mais formais - por hora tenho anos de leitura, prática dos jogos e aplicação deles com as salas. Ainda não sei como será minha escolha de Sofia de tema de pesquisa. Mas além de perturbador, estudar também é uma pinga. Para a qual não temos AA. Escrever futuramente sobre isso deve fazer outras fichas caírem. E que venham novas descobertas!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Potência terapêutica cênica

Peças e leitura dramática femininas têm sido terapêuticas para mim. Há pouco mais de uma semana e meia, desde que virei o jogo do tratamento para "tourear" a ansiedade e angústia - mas isso é assunto para outro post. Desde que comecei me sentir melhor fiquei em maior contato com a arte - que para mim é curativa e com a cultura popular - que também pode passar uns band aids em nossas dores emocionais. E desde então senti que fazia sentido ressuscitar o blog. É meio melancólico e nostálgico ter visto tantas mídias morrerem - LPs, K7s, CDs, disquetes, VHS, DVDs... Mas com algumas mídias sociais teimamos na resistência. Porque escrever também é resistir. Voltemos à vaca fria: vi As Cangaceiras Guerreiras do Sertão no teatro do Sesi com uma amiga de longa data. Caí de amores! E olha que não costumo curtir musicais. Porém a temática nordestina, as mulheres que se uniram ao cangaço ou foram sequestradas por ele se rebelando, as brincadeiras e ironias com as situações interpretadas, além do cenário e figurino muito criativamente elaborados quebraram minhas resistências. Bom, dramaturgia do Newton Moreno sempre que conquista, desde que vi Agreste. No final os atores ainda cantavam e a plateia já tinha levantado para aplaudir de pé. É um alento em tempos sombrios uma narrativa cênica que dê um sopro de esperança feminista.
Dois dias depois vi Cenas Centrífugas, projeto do Sesc Santo André, no qual três companhias teatrais se apresentam neste centro cultural e deixam seus cenários montados e expostos ao público. Fui com meus estudantes e com eles vimos Teatro de Torneado encenando parte da história caipira da família do diretor, colocando em cena um casal interiorano e parte dos seus quinze filhos. Me apaziguou com minha raízes caboclas. Ao fim, achei generoso a abertura do microfone para dúvidas e comentários, as demonstrações de dificuldades dirigindo os futuros atores (que ainda estudam na Escola Atemporal de Artes de Ribeirão Pires), a iluminação do camarim para que espiassem a correria com figurinos e elementos de cena, além da partilha de como escolhem cenário e construíram uma carroça que só entrará na peça quando já estiver mais completa. Meus aprendizes fazem vários cliques, ficaram sem graça de falar com o grupo cênico, mas voltaram também encantados. E eu, de novo, só me reencanto com o sotaque e histórias brejeiras envolvida por peças.
No fim da mesma semana vi a leitura cênica da Borboleta Parda, da Flavia Alves, que estuda dramaturgia feminina comigo na Pinacoteca de São Bernardo. Conferi a peça embrião dela na Livraria Simples, do Bexiga. Esperava que as atrizes lessem mais e dramatizassem menos e até temia isso, porque costuma dar uma cansada, por mais que também seja atriz e escreva. Mas não: elas interpretaram mais, surpreendendo! E apesar do texto flertar com suicídio e com as fases emocionalmente perturbadas que as mulheres enfrentam, foi acolhedor, catártico e me senti representada tanto pela dramaturga quanto pelas artistas que deram vida às falas.
Como se já não tivesse mergulhado o suficiente na grande paixão da minha - o palco, onde me sinto em casa - no começo da semana seguinte vi Coletiva Pássaro com Cabeça de Mulher, também no Sesc Santo André, desta vez com amigos professores e meu companheiro. Havia me encantado com o texto delas, lido, gravado e enviado pras manas no dia seguinte ao passeio com os "alunos" na região do ABC. Num misto de performance, peça e dança, as atrizes trabalham dores, opressões, humilhações e machismos que desejamos desconstruir. Num dado momento da apresentação, mulheres vão para um lado e homens permanecem no outro, de forma que as expectadoras fiquem à vontade para trazer seus mal estar e - talvez - eles se sintam como nós quando ouvimos que qualquer coisa que queiramos "é de homem". Música, partilha de pinga, percussão e questionamento performático do patriarcado são recursos trabalhados para repensar cenicamente opressões contra as mulheres e claro, questioná-las. Deu um quentinho no coração ver uma artista provocar "derruba o feminismo excludente... o Bolsonaro..." enquanto a outra dançava esses... Sonhos? De quem idealiza uma sociedade mais igualitária. E lá também foi uma grata surpresa reencontrar a colega da oficina Feminino Abjeto, que fizemos na Vila Maria Zélia com o Grupo XIX de teatro.
Pra mim, que estou no movimento de trazer novamente pra minha vida o que alimenta minha alma e apazigua minhas angústias e ansiedades foi uma semana intensa e na qual me senti confortável, à vontade e tendo feito todas as melhores escolhas possíveis pro meu dia a dia. E são estados de espírito difíceis pra eu alcançar - porque costumo olhar para os outros e perguntar se dói tanto estar na pele deles quanto incomoda habitar a minha. Mas devo confessar que tive dificuldade para dormir umas quatro vezes, ao menos. É que me empolgo duma tal forma que quero escrever, chamar amigas pra peças, ler... E para essas madrugas de efervescência criativa criei outro ritual derruba hiperatividade: escrever e tomar chá de camomila.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Livro dos Privilégios

Ganhou uma casa dos pais. Está inscrita no Livro dos Privilégios capítulo 6, página 4, no qual começar desse favorável ponto de partida permite brincar com o pai que pode fazer o que gosta, ter que ouvir que ele tomará a casa, já que ela se recusa ser bilheteira do metrô e fazer arte nas horas vagas e ainda retrucar que ele não pode, porque ela pagou a papelada em nome dela. É respondona. Foi a forma que encontrou de não brigar com o pai dando cadeirada feito as tias ou ser proibida de fazer ou ir em tudo que quer, feito a mãe e desistir do que está a fim por machismo. A mãe já é boa demais pra ser verdade. Diz a psicologia que a mãe ideal nos obriga a ser filhas pra sempre. Ela tem recusado esse papel, ainda que a depre da mãe não retroceda há três anos, desde a aposentadoria. Às vezes se magoa de ter seguido o que a progenitora dizia, pra nao ter filhos que é uma preocupação muito grande pro resto da vida, mas quando fez uma oficina cênica do feminino e estudou doula, achou a vida muito sabia de poupa-la da maternidade. Não teve irmãos. Na infância quis, mas também brincou tanto com os primos que desencanou. Brincou o suficiente pra ser abusada por dois deles, tomar bronca e apanhar, mesmo sem saber o que acontecia e se chocar porque desconfiava que havia algo de errado com aquilo. Pobre mãe, sempre deixando o pai atravessar o samba violentamente, sem conseguir defende-la, porque afinal o que seria duma mulher do interior na cidade grande sem o marido, primo casca grossa? Mesmo ganhando mais que ele? Dependência emocional é um inferno. E a que conta essa história herdou dum o jeito meio cachorro lambão de amar e do outro, o modo pé na porta de se posicionar, com uma pré disposição sagitariana de morrer quando abre a boca e uma risada de derrubar as pessoas da janela. Como diria um mestre teatral, a gente põe o pé pra fora da barriga e já se contradiz. Mas chega de falar de família, porque já terá overdose dela no Natal.
Capítulo 7 do livro dos privilégios: teve nove namorados e perdeu a conta dos bilaus amigos, de todas as espécies: o da adolescência, machista e homofóbico, do qual se conscientizou só madura, apesar de feminista leiga desde adolescente; o maníaco que até ganhou manchete de jornal; os negoes comunitários que vieram servir à comunidade feminina sem abrir o jogo; artistas mais sensíveis que ela mesma; o que queria ter filhos e a assustou já de saída; o traidor que engravidou a amante na depressão dela; o geminiano que falava mais que ela; o professor de yoga que virou reaça sem constrangimento, o tiozinho aventureiro meio cagao e finalmente o companheiro budista mais novo. Enumera só pra contar que é bissexual não praticante e que as excessões aos imaturos traumatizantes não completam meia dúzia no mercado amoroso. Já chorou mais do que mereciam em verso e prosa e até publicou. Os privilégios aqui foram nunca ter sido estuprada, nem apanhado ou ter sido roubada. Chega de drama amoroso por hoje.
Capítulo 8 da mesma tragicomédia: tem uma coleção de ex chefes jornalistas do naipe O Diabo Veste Prada. O suficiente pra ter ranço que se pagam bem, boa parte da verba terá que ir pra terapia, yoga, massagem ou retiros, pra não pirar. Com ela foi assim por 18 anos. Valeu a pena viajar, conhecer os amigos, fazer perguntas desaforadas, ser reconhecida pela voz, se encantar por assuntos inimagináveis, ganhar ingressos, se conscientizar, ganhar livros, almocar bem, cair de amores por trabalhos social, cultural e educativo. Mas foram tantos os plantões, reconhecimento baixo e insônias que terminou depre. E aqui, foi a família invasiva que ajudou nos seis meses chorando, com preguiça de viver e depois nos três anos frelando e cozinhando enquanto o jornalismo agonizava,  enquanto profissiolizava a contação de histórias que fazia desde a infância. Dessa transiçao, foi pra educação, na qual inesperadamente, pode ser humana e briguenta. Entre uma pauleira e outra, teve transição apertada como atriz, na qual pode viver muitas vidas, tão diferentes das dela. Conseguiu continuar como produtora cultural e escritora. Ah, as publicações...! Os filhos que demoram a pegar estrada, mas fica feliz quando ganham o mundo.
Capítulo 9 da coletânea de sofrimentos gourmet: busca o caminho do meio com terapias alternativas, tratamentos espirituais por trocas, se movimenta, é ativista, come mais ou menos bem e viaja. Ah, como se meteu a viajar fazendo quase tudo por permutas e com duas férias por ano! Sacou com juros e correção monetária o quanto não pode ficar centrada com o pé na estrada no jornalismo.
Mas porque ela lista sua vivências nesse compilado de privilegios? Pra admitir que se aborrece com os amigos chorando problemas gourmet porque também tem. E pra se constranger enchendo os ouvidos das parceiras de "literapia" com white's peoples problems. Mas com elas aprendeu a não pedir mais desculpa.

domingo, 9 de setembro de 2018

A ponto de comer o hidratante

Nunca foi boa em dietas. Sempre praticava mais dias de enfiar o pé na jaca e sair do controle do que disciplinados. Por décadas foi a rainha da cólica de intestino e nuns exames já meio produzidos pra dar esse resultado, descobriu uma intoleranciazinha, mas estranhava que mesmo em temporadas de abstinência do queijo, as dores batiam ponto. Até que ouviu a nutricionista, fez umas experiências, tirou o glúten, quando distraiu e colocou de novo na alimentação... Não só rolou da velha cólica como voltou a ter dor de estômago. Tirando o glúten o corpo ia ficando em paz de novo, mesmo quando enfiava o pé na jaca com os derivados de leite. Pronto, era isso o glúten. Foi quando ela, que já não comia carne há uma década, se sentiu naquele pesadelo em que desconfiou que fosse parar caso virasse vegana: não é possível se confraternizar com mais ninguém. O vento, o ar, a água e a terra têm glúten. Nunca se ligou como era viciada em pães, bolos, bolachas e que comia muito na rua devido a isso. Já está quase feito drogada:
- Estou há quase uma semana e meia sem glúten! Só por hoje!
Sente aquela irritação sem fim de quem não pode comer 2939212384134 coisas, mas quer todas. Vai tomar banho e quer comer o hidratante, tão cheiroso aquele creme. Certeza que é para a pele?
Volta à infância. Vai encontrar amigos e carrega lancheirinha: abre sua boia particular sem glúten. Como diversas vezes não tem gosto, faz um exercício budista para não dar na cara o quanto a adaptação a irrita profundamente.
Comprou pães sem glúten, sem lactose... Desenvolveu uma teoria:
- O pão que o diabo amassou é sem glúten! Veja que embalagem simpática: "ainda mais gostoso se aquecido". Só é comível aquecido. Caso contrário, nem sola de sapato não deve ser tão ruim.
Acha a vida fanfarrona. Agora que uma parte significativa da civilização se adaptou aos vegetarianos, não encontra mais nada em lanchonete, bar, restaurante, boteco, nem cafeteria do Sesc sem glúten. Sorri com fome e pede uma água de coco. Ou um açaí. Neste frio, o estômago segue com fome. Está feito modelo bulímica: cheirando o que não pode mais comer.
E na cozinha então? Agora que tinha chegado ao nível comível cozinhando sem carne, tem vontade de levantar, chamar o encarregado, reclamar da comida... Então se lembra que ela mesma é que fez, engole, mas sonha com um doce ou salgado que se pensar muito, é capaz de também dar reação.
O marido começou estranhar uns sumiços em casa..
- Viu meu creme de barbear?
- Comi.
- Mas você não passou mal?
- Ah deu um piriri, mas super de boas pra quem não tem mais cólica de intestino, nem  dor de estômago.
Preocupado, deu cabo de todo arsenal cheiroso feminino: hidratante, creme de cabelo, para as mãos, os pés.
Ultimamente os amigos têm estranhado seu sumiço.
Mas está numa empreitada terapêutica empreendedora: criou os intolerantes anônimos. Tem ouvido muitas noites, de outros irritados feito ela:
- Olá meu nome é Antônio e já estou há um mês sem glúten.
- Boa noite Antônio - devem responder todos em coro.
Será esta a tal síndrome do intestino irritado?
Não querem saber. Estão se organizando para descobrir quais cremes farão menos estragos caso desapareçam com eles dos banheiros de casas, furem a dieta e comam qualquer coisa cheirosa para pele que não tenha glúten.
Esperamos que sobrevivam.