terça-feira, 2 de junho de 2020

Memórias afetivas da cozinha e suas lembranças engraçadas

Cozinhar pode ser uma meditação e prática criativa. Para hiperativos como eu, fazer uma receita costuma dar gastura: ela não precisa muito pra nos perdermos da atividade e o prato desandar com sucesso. Gosto porém do quanto fazer comida me obrigada a aterrar: tenho que ficar presente para quebrar a cabeça e ser criativa quando o produto ou medida que preciso não constam nos medidores caseiros. Outro dia me peguei um cálculo gastronômico que se um produto é mais denso, preciso de menos no medidor para dar os mililitros desejados ou me vi noutro questionamento filosófico culinário: coco tem menos ou mais gramas que farinha de aveia?
Nesse movimento compreendi porque de quando em vez não gosto do hiperfoco que preparar pratos demanda "porque a maioria precisa de reiki na panela ou no forno" - correndo risco de perder o preparo ao virar pro lado e checar o relógio.
Cozinhar é uma prática meio matemática: nos salgados os improvisos não nos fazem arruinar o preparo. Já nos doces... Adaptações costumam desandar cm tudo. Surpreendentemente com o bolo de beterraba da foto não foi assim: substituí o açúcar comum pelo demerara, trabalhei com margarina comum, só usei meia colher de sal e ficou bom.
Me lembrei quando fiz essa receita há uns anos e levei numa oficina do Grupo XIX de teatro, outro participante levantou a forma, perguntou quem fez e agradeceu. No fim, cozinhamos para resgatar memória afetiva (no caso, a última vez em que fiz teatro em grupo) ou produzir uma recordação que gere essas lembranças (como domingo em que comi guacamole com meu marido, que não curte abacate, mas essa receita mexicana que faço sim). Essas associações não são só minhas: uma prima do interior fez um livro não só com as receitas, mas com as histórias envolvendo as mesmas. Digamos que cozinhar não é uma arte meio "umbiguista" como contar história - no caso dessa última ainda me animo a criar só - no frigir dos ovos queremos mostrar o resultado para alguém, claro!
Na pegada de reinventar o conhecido e melhorar o resultado final, fiz uma cobertura que produziu novo álbum de memórias culinárias. Já tinha em mente os ingredientes com os quais fiz substituições da receita do site indexado na frase anterior. Quando procurei algo similar na internet e não encontrei, lembrei duma professora que diz que se não encontramos o livro que temos em mente, temos que escrevê-lo. Escrever é algo que tenho mais familiaridade, na cobertura fui mais atrevida porque coleciono fracassos gastronômicos. Mesmo assim reinventei a receita do hiperlink: a usei como base por ter sido a mais natureba que estava à mão no dia em que estava pré disposta a produções trabalhosas na cozinha. Trabalhei com açúcar mascavo, leite de coco e margarina nos lugares do açúcar e leite comuns e da manteiga. Como tem gordura mais saudável na produção, não engrossa até desgrudar do fundo, mas fica um pouco mais espessa - e com um paladar delicioso saudável na minha opinião.
O único senão é que não poder dividir uma comidinha que acertamos em quarentena dá uma dorzinha no coração. Nessas horas se improvisa como pode: enviei fotos pros amigos e família parafraseando Pink Floyd "how I wish/ how I wish you were here". Os puristas dirão que as redes sociais não produzem afeto igual os encontros reais. Certamente expressões diferentes de saudades proporcionarão reaproximações diferentes. Estas porém, já são um consolo e tanto atualmente!
Na esteira da surpresa na receita acertada, meus pais produziram um reencontro inesperado, no qual aproveitei para dar fatias do bolo para eles. Fui elogiada mais tarde - o que é raro para os dois, que sempre se divertiram apontando minhas presepadas. São eles aliás, os responsáveis pelas memórias mais tragicômicas que tenho de cozinha: quando criança comia bolo de cenoura com cobertura de Nescau e me enganavam que era bolo de chocolate. Levei uns aninhos para estranhar que na casa dos outros esse doce era marrom e na minha era amarelo. Dizem que era mais fácil enganar criança antigamente. Posso comprovar!

sábado, 16 de maio de 2020

Pra lá do apocalipse tupiniquim


A volta à vida não foi cheia de abraços como imaginei. Tínhamos nos adaptado tanto à prevenção, que
agora acenávamos cabeça, dávamos tchau, olhávamos simpaticamente, desenhávamos sorrisos nas máscaras e especialmente gingávamos para fugir de ameaças de abraço. Como os amigos fogueteiros previam, é inimaginável como retomaremos os beijos e ainda mais ressabiada a volta do sexo.
Ah, a internet. A dificuldade será desmamar desse vício. O mais improvável se ajustou ao online: dança, culinária e até a medicina. Ficamos ainda mais fora de ritmo: as plataformas de vídeo não dão conta de tanta demanda. Mas temos desenvolvido todo jogo de cintura que as grandes cidades nos furtaram. E por falar nas megalópoles, o trânsito delas foi algo que não deu a menor abstinência.
Do trabalho sentia falta. Da minha antiga experiência tive medo do horário de pico. O primeiro ônibus estava meio vazio, mas matérias e pesquisas indicavam que as vítimas da doença foram tantas que desincharam regiões populosas. Nas capitais vemos reflexo nas conduções mais livres. Me silenciei comovida. Já na segunda condução tive medo de abuso, uma tradição nos vagões metropolitanos. Mas peguei um trem com todos trabalhadores felicíssimos voltando do confinamento: cantavam, sambavam e até improvisavam versos. Me senti num “pagodão” e até batuquei num banco que me concederam. Na quarentena, me escondi nas trincheiras da cozinha demais e devo estar convincente como grávida – só pode! Sobreviver aos tempos pandêmicos diminui esses pequenos dramas. Faço percussão na janela também.
Chego à escola após sambar por estações. Os colegas estão tão animados com a volta que rola praticamente uma rave na sala de professores. Os hiperativos aprenderam a tocar agogô e bordar. Os militantes adaptaram seu engajamento para o ativismo virtual. E os deprês aumentaram as doses de tratamento. Em meio à social, agora com sonorização afro brasileira, chegaram os estudantes. Não tínhamos idéia de como seria. A princípio pareceu rever ex. Eles, com os cabelos em pé com sobrevivência e saúde. E nós, afogados em demandas de documentação que não dialogavam com a realidade deles. Sobreviventes se revendo. Quando fomos para a sala, tiveram curiosidade de experimentar o processo artístico que aprofundei em casa e divulguei online: artes corporais na quarentena. Cansados de tanto aguardar a gestão adaptar a escola para outras linguagens, sequestramos as cadeiras e mesas para o pátio e com elas fizemos uma instalação. Como era de se esperar, a gestão quis me matar. Mas pedia por isso há tanto tempo e agora com todo estudo acadêmico em dia, tinha referências de sobra para defender o projeto com os aprendizes. Nisso os professores seguiam os mesmos: “argumentadeiros”. Os estudantes? Improvisaram, criaram, apresentaram, foram criativos e se divertiram como se não houvesse amanhã. Nenhum de nós tinha como saber se haveria mesmo.
Voltei realizada e parei na academia. Por precaução tínhamos que fazer individualmente atividade aquática, com uma máscara de muitos buraquinhos fininhos e nuns horários malucos. Tive até saudade das colegas de turma barulhentas [suspiro]. Meditei e chorei em meio ao cloro.
Cheguei desnorteada de fome e pedi entrega de lanche num comércio local. Tanto tempo presos avariou irreversivelmente a economia. Começamos comprar tudo nos comerciantes pequenos do bairro. Eles agilizaram a entrega que não faziam. Há grandes redes dos mais diversos segmentos de varejo falindo ou estudando novos negócios. Deixou de fazer sentido conhecer restaurantes ou cinema distantes. E em cidades em que qualquer deslocamento demanda horas, depois de tanto interiorizar, agora só ficamos horas no transporte se morrer a mãe lá na outra região.
Ainda comia quando meu marido chegou do hospital. Nos serviços essenciais em não deram EPIs acontecem processos trabalhistas televisionados – a mídia ficou combativa. Perdemos muitos na linha de frente. Algumas mortes incomuns ajudam o avanço das pesquisas. Com todos países temendo o mesmo, há corrida pela vacina e oferta de prêmios científicos.
Uma música nos conforta e vamos à janela. Agora a arte está nelas, algumas até com cortinas chamativas, luzes e sonorização potentes. Os grupos se dividiram em vários artistas solo. Cochilamos ouvindo a apresentação.
Me alongo cedo. Toda expressão em grupo foi para praças, onde todos se distanciam para praticar. E de tanto ocupar as ruas, já não há mais medo!
Corro ao ensaio. O teatro ainda precisa de distanciamento: agora só apresentamos na rua. Medito voltando na derradeira condução. Depois de tanta preocupação, até os imprevisíveis se renderam ao auto cuidado digital. Vimos muitas lives, selecionamos e cada um acompanha suas preferidas.
Ainda navegando, minha irmã me escreve: viajará sozinha. Mochileiros viraram peregrinos independentes e quem temia caronas, depois desse pesadelo encara. É compreensível: uma solidariedade surpreendente emergiu da nossa ruína. Uma transmissão revela que a revolta dos principais impactados nisso tudo prendeu corruptos num navio turístico em nossa costa. Juízes exigem punições. Já o povo... Torce por eles!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Descompasso febril

Como não tenho trabalho dos estudantes para pendurar... Penduro os meus! Não que seja uma artista visual digna de ocupar janelas, estante e portas, mesmo de casa - longe disso, aliás. Sou é atriz, das salas de aulas e espaços culturais, mas como o teatro é arte do encontro, enquanto temos que nos manter isolados, improviso: isso o palco me ensinou. E nesse jogo de cintura artístico crio mandalas, faço versos, gravo contações de histórias, produzo crônicas... Descubro que todas essas outras são artes do encontro: quando leitores ou expectadores dão retorno, sinto o peito transbordar de alegria. No mais, é tudo incerto e assustador, nada que conviva bem com uma mente inquieta. Para apaziguá-la, me movimento. Caminhando ou dançando despisto bem as pré-ocupações. Fazendo yoga e pilates, porém, meus pensamentos me sequestram, fora que minha respiração não sincroniza com as posturas e uma das professoras tem enviado aulas demandando acessórios inexistentes nesta casa - e com a perspectiva da economia degringolar que não os comprarei. São basicamente horas de prática para fugazes momentos compensadores de relaxamento.
Por razões auto explicativas, corro das notícias. Porém há temporadas em que só as manchetes ou os tuítes enxugando lives científicas já me viram de ponta cabeça. Nestas ocasiões preciso fazer chá da planta mais fedida para desligar porque o psicotrópico não deu conta. E o que daria em temporada de saudade dos estudantes, amigos e família? A arte, aposto eu, do alto do meu otimismo sagitariano. E surpreendentemente tenho criado até bastante e claro que no processo fico muito entregue e meditativa. Só que o isolamento resolveu se estender. Tipo visita que não avisa e depois a gente não aguenta mais fazer sala pra surpresa inconveniente. E nesta altura já me culpo por não produzir lives, projetos, coletâneas com minha inventividade. Não tenho ideia de onde vai parar a pulsão criativo-terapêutica. Só gostaria que os resultados não morressem na famigerada praia da quarentena. Como não dou conta de fazer mais barulho pelo que invento, termino angustiada.
Uma das atitudes mais iradas que tomei contra esse mal estar foi meditar. Aqui devo aos amigos budistas e de auto conhecimento um salve me desculpando porque realmente nosso espaço interno pacífico está sempre à nossa disposição. Não me sentava tão disciplinadamente antes não por falta de fé e sim pelo trabalho- família- frelas atropelarem nosso tempo livre. Respirar e focar nesse ponto interno apaziguador tem sido tão reconfortante, que minha mente tem se perguntado: o que te fiz que não me dava isso antes?
Antes... Éramos outros, já reparou? Perdia paciência, não tinha jogo de cintura com ligação e conferência. Agora a voz dos amigos, familiares quase faz chorar de alegria. E por falar em alegria, tento mantê-la vendo entretenimento online e desligando do pega pra capar lá de fora. Quando me empapuço de cultura de massa, tento sites ou vídeos artísticos. Faz bem, claro, mas em dias sombrios sentimos um pouco girar em falso.
Com a cabeça fervilhando, recorri aos estudos: quem sabe eles me levam para longe? Me vi transitando entre possíveis conteúdos da pós e do futuro mestrado, porém todos densos demais para me fazer aliviar o mal estar que me ronda há dias... Naveguei laptop adentro e fui pousar na literatura infantil. Sempre ela me fazendo sorrir. Mais que nunca é preciso batalhar pela resistência da alegria.. Só que de tempos em tempos... Queremos saber se a TPM nos espreita de tanto se arrastar pela casa. Vai passa, torcemos. Mas como administrar os estragos sutis até lá?

domingo, 3 de maio de 2020

Panela de afeto na soleira

A voz do sobrinho chegou pela janela, vinda da casa ao lado. Desde o começo do isolamento alegrias
como essas mudaram de tom. Ouvi-lo agora a entristecia: haviam decidido não se rever tanto quanto antes, pois parte dos parentes tinha grupo de risco em suas casas e nem todos podiam fazer a quarentena conforme recomendado por órgãos de saúde. Depois desse cuidado, a risada dele dava uma saudade incômoda. Tinha consciência do privilégio que dispunha: ter conseguido migrar seus compromissos para conferências no home office e seu companheiro passou pelo mesmo processo. Ainda não sentiam os temidos efeitos do confinamento na economia doméstica que atigiam outros colegas. Por isso mesmo evitava transformar a falta da família da irmã vizinha num drama de proporções exageradas. Mas nem por isso o buraco da ausência deles deixava de se fazer sentir periodicamente.
O casal produzia e ensinava arte. Quando sentiam falta de outras conversas que não as respondidas pela voz um do outro, pegavam carona em outras melodias - literalmente! - e se sentavam com seus instrumentos, embalados pelas canções alheias com as quais faziam cover terapêutico e acústico. Num desses "saraus de dois", cantaram algo sobre comida - um deles estava cozinhando, começou a cantarolar e o outro foi buscar seu instrumento e acompanhou. De algum modo a música ressoou na irmã, que começou deixar panelas com comidas que eles gostavam na soleira da porta de entrada, apertando a campainha na sequência e voltando para sua casa rapidamente.
Na primeira comidinha entregue, não encontraram só massa caseira, com molho de tomate e queijos frescos. Ambas lembraram - uma comendo e a outra limpando a bagunça de sua pia - das avós que tanto faziam encontros regados à culinária italiana. A que recebeu o prato amarradinho na porta, com guardanapo bordado à mão, até chorou comendo. O marido não estranhou toda aquela sensibilidade: percebia que quando pararam de ver os vizinhos com frequência, emoções antes toleradas agora vinham à tona e tinha se tornado comum conviver com a mulher mais à flor da pele. Ele também gostava de cozinhar e estava se deliciando com a forma da cunhada se mostrar presente pelos ingredientes.
Assim que as memórias os afetaram, os artistas voltaram à cozinha, inspirados. Um fez suco de fruta colhida do jardim e a outra, sobremesa com sabor de roça. Quando se deixaram atravessar pelos aromas e tudo ficou à contento das lembranças que os estimularam a produzir tudo aquilo, guardaram nas embalagens mais delicadas, amarraram com panos com ar de piquenique, foram deixar na porta da irmã, tocaram a campainha e deram no pé. Naquela tarde foi a cunhada e vizinha quem criou um ritual, colocou música, incenso, sentou para comer o presente da irmã e seu companheiro e... chorou!
Passaram o confinamento neste escambo de sabores, recordações, aromas e alquimia. Às vezes a cunhada aproveitava que o marido tinha que dar plantão e fazia uns horários malucos e encomendava ingrediente fresco da Zona Cerealista - ao contrário da vizinha, não tinha jardim e horta. Mas quando cheirava as especiarias diversas que chegavam da rua, tinha a criatividade e a generosidade ativadas, produzia um prato para comer gemendo e claro, presenteava a irmã e o cunhado.
Estes dois, por sua vez, deram para conversar com plantas, misturar folhas e frutas, trocar receitas pelas redes sociais e inventar moda entre a pia e o fogão. Sempre se surpreendiam com as novidades, lambiam os dedos, agradeciam aos amigos (entre eles já não era novidade o talento dos dois) e corriam ansiosos com a marmitinha do amor na soleira da mana na casa ao lado.
Nunca antes a vizinhança sentiu tantos aromas. Jamais os trabalhadores dos comércios locais tiveram tanta dó dos moradores das casas germinadas não se encontrar por tanto tempo. O sobrinho ouvia saudoso algumas crianças furando o isolamento, de máscara em suas bicicletas nas calçadas e espiava da janela, com a barriga afetuosamente preenchida pelos tios. E para os pequenos na rua, nunca o amiguinho do lado de lá do vidro e grade pareceu tão tristonho.
As folhas dos calendários demoraram a cair. Nem a cunhada, nem o casal artista conferiam mais o relógio com tanta ansiedade quanto no começo do confinamento. Ambas casas desligaram ou deixaram a TV no mudo. Por muito tempo, a trilha que enchia as cozinhas era o repertório dos artistas ou risada do sobrinho. As receitas da mãe e das avós, que sempre as registravam em cadernos amarelos, ao lado de histórias relacionadas aos pratos, foram a terapia e troca de afetos possível por meses. As ancestrais teriam ficado orgulhosas. Foram as recomendações e talento das matronas da família que as fizeram atravessar a quarentena, apartar a melancolia e riscar na agenda, uma a uma, as semanas que previam faltar para se rever. E não é que cozinhar é mesmo uma forma de amar?

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Do Meu Quintal Não Escuto a Rua

Direto do Pombal... e do meu cabelo retrô
Do lado de cá tenho vivido outro tempo
Sem buzinas, enchentes, constrangimentos
Tanto que já nem sei em que folha do calendário
O mundo de-sa-ce-le-rou... Até parar amarrotado
Do lado de um relógio sem corda
E pra ele dar a mão –  desde então, acumulam poeira

Do jardim em que caminho
Rumo a lugar nenhum
Ou do refúgio gelado
Em que invento moda
E sorrio para um filme inverossímil
A avenida do lado de lá não me perturba

E nessa migração do medo à contemplação
Da irritação ao isolamento
Da preocupação às descobertas animadoras
A dor no peito se liquefez
O sono se dilatou
As emoções e os pensamentos
Dançam ao som de O Dia em que a Terra Parou

Nessas semanas com ar de meses
Tive medo nos auto cuidados externos
Aproveitei minha inventidade
E improvisei como se estivesse no palco
Na programação mais engessada
Jogamos as toalhas e ganhamos respiro
Fui da criatividade ao bloqueio criativo
E cobrei do infinito que a iluminação viesse logo
Que não tenho a vida toda para atingir o Nirvana
Troquei o entretenimento por arte digital
Mas mesmo nos dias mais sem chão
Ainda ouvia pássaros, música e encontrava paz
Aqui dentro mesmo – quem diria?

Assisti tanto o maremoto quanto a calmaria
Com pipoca na mão como quem vê filme
Nenhum me atropelou
Os sopetões não me impedem de sorrir por dentro
Já que do meu quintal não escuto a rua.

Estranhei mas viciei nessa marola
Estão limei notícias
Quis acolher, colaborar e apoiar
Mas minha falta de ar abortou
Iniciativas ao vivo e a cores
Me vi meio de mãos atadas
Vibrando, escrevendo,  gravando
e... quem diria? Torcendo
Encarando a vulnerabilidade
E finalmente dormindo no mal estar dela

Do meu quintal a redução da marcha
Revelou que meu mal, quem diria,
Sempre foi meu pique sem freio
Sem os atravessamentos da rua
Vejo luzes sem poluição entardecerem
Minha sala colorida e étnica

Do meu quintal a economia
Dos desgastes cotidianos
Revela uma capivara à margem
Entre esgoto e mato abandonado

Do meu quintal as saudades
Dos amigos e parentes
E nossos reencontros
Eternamente adiados
Transformam a videoconferência
Na linguagem que reduz distâncias

Do meu quintal ouço pássaros novos
Entre o ribeirão e a comunidade
Me surpreendo com meus improvisos
Respiro e acho espaços internos
Nunca visitados

Do lado de dentro
Faço as pazes e corto relações
Com a tecnologia
Encontro e ofereço solidariedade
Caio de amores pelo entretenimento digital
Depois fujo para a arte analógica

Todos esses mergulhos e descobertas
Por não ouvir a rua
Do meu quintal.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A paisagem meio borrada da bipolaridade mais eufórica

Fotinho retrô (moro num Pombal sem cobertura)
mas essa vivência no prédio do chefe no Piá
deve ser a única imagem zen no limbo do laptop
Sempre achei que se não fizesse uma quantidade insana de iniciativas, o mundo ia acabar amanhã. Depois de décadas de correria, insônia e exaustão, me vejo no isolamento, olho a janela, notícias ou relatos na internet e concluo: que petulante fui eu! Olhaí o mundo acabando e eu me movimentando e escrevendo. Estudando e respirando. Criando e vendo série ou filme raso pra desanuviar. Mas enfim: nada que o sistema nos convença como primordial.
Se bem que... No princípio tudo era o meme. Na terceira semana confinada descobri os conteúdos virtuais mais cabeça: site de museu, peça na Internet e página para olhar desconhecidos distantes um minuto nos olhos, criando pontes e desenvolvendo empatia. Apesar de serem conteúdos que reforçam meu lado cabeçudo, como resvalam na sensibilidade, acabo fazendo arte terapia informal.
E por falar em arte terapia... Já venho do teatro, literatura e contação de histórias, então, sou suspeita para falar, claro. Mas tenho me experimentado noutras frentes. Depois de acompanhar curiosa e incrédula o companheiro com quem vivo produzir mandalas, se curar e ensinar num espaço de convivência terapêutica que atende neuroatípicos, me arrisquei. Aprendendo distanciada com ele já ensinei nas escolas em que ensino artes para jovens e adultos - e eles, como era de se esperar, piraram! Mas vivenciar o desenho em formas redondas, harmônicas, com padrões equilibrados e conversando sobre ele depois, leva a um processamento de emoções com diferentes facilidades e dores. A mandala do que gostaria para quarentena fez com que notas musicais parecessem hebraico - a sincronicidade é que todos sobrenomes familiares são de judeus convertidos e sempre me confundiram com judia, muito embora seja mezo zen e mezo afro na espiritualidade. A da angústia foi uma sofrência começar, porém depois me concentrei feito presidiário chinês pra terminar - e saí com o corpo dolorido, mas os sentimentos menos turbulentos. Na do medo, os coronavírus viraram umas gelecas infantis ao redor do centro estrelado - quando criança, meus pingos nos is do meu nome também traziam estrelas. Na da tristeza, voltei à colagem, técnica que tenho uma paixão platônica por nunca ter estudado. E simbólico que justamente a da ansiedade tenha me dado um branco do que trabalhei nela - não sei se por esta emoção viver sendo varrida pra baixo do sotão interno... Parece badauê sem noção, mas de fato terminamos melhor - arte é feito meditação e acupuntura: mesmo que fizermos sem muito estudo formal, variando técnicas, com mestres guiando muito genericamente (ou levemente picaretas), no esquema capetalista industrial do convênio, ainda assim, focando em nosso espaço interno inabalável sempre disponível (ou centelha divina, buda interno, se preferir) sempre faz bem.
Criar é um processo que reverbera onde não imaginávamos. Também gravei vídeos narrativos. Só pensei em focar nos adultos, já que o mercado não admite, mas eles também precisam. Até os jovens, tão acusados de letargia pelas famílias e gestão, me pedem contações quando volto às salas. Obviamente que criança é tão esperta que também se trata, aprende e imagina para além da narrativa. E no último dei palhinha da formação - uma das atividades que mais me realizo, lidando com professores, assistentes sociais, educadores, bibliotecários, terapeutas, estudantes e psicólogos com vontade não só de aprender, mas de contar também. Nem só de três, dois, um... Ação! Se preenche uma quarentena. Voltei às postagens, comecei uma dramaturgia... No princípio imaginava produzir um diário. Mas as fichas, mudanças na relação com os sentimentos e olhares que transformo com emoções mais apaziguadas são tão reveladores, que passo um tempo maior burilando as mexidas do isolamento para por em palavras os insights. Às vezes, nem é aqui. É no papel mesmo porque como ex jornalista vintage, adoro um bloquinho e o cheiro deles.
Não caio de amores só por material impresso em branco. Tenho uma curiosidade e vontade de fazer cursos que não cabe em mim. A maturidade e a própria educação me ajudaram a focar - era isso ou uma porcentagem ínfima de aumento anual referente à inflação. Às vezes ainda namoro um curso nonsense na conjuntura atual: dublagem, roteiro, interpretação para cinema, pedagoginga ou pedagogia da encruzilhada. É quando uma remanescência dos pragmáticos dos meus pais que habita em mim cutuca minha mente inquieta: vai ganhar esse prêmio consolação aí até quando? Com esses chacoalhões da vida e da família, cheguei à segunda pós do teatro do oprimido/ psicologia social e ao programa Diversitas de estudos da diversidade, intolerância e conflitos da FFLCH/ USP. Sim,é muita cabeçudice pra uma arte educadora só. Mas ambas pesquisas nasceram das minhas práticas. Como alguém mão na massa, não daria conta de pesquisar só teoria. E como sempre batalhei por trabalhos significativos, o efeito colateral é que só estudo o que gosto. E pesquisar o que se adora vira auto conhecimento "faca de dois gumes" - nós já temos noção do que cicatriza cada dor, mas também há comprovação de que tudo que se conhece implica na perda de um paraíso. Em tempos de isolamento eu sei retrabalhar meus mal estar artisticamente, mas também desconfio que levar em consideração o contexto  que vivem meus estudantes ou colegas de trabalho trava lá no chão de escola quando procuramos ajudá-los de forma paupável. Além de nessa altura do campeonato desconfiar que a educação formal tenha me sequestrado o prazer de estudar porque descobrir interesses é meio viciante - como todo viciado que se preze, tenho abstinência de estudar por estudar, sem pagar de maníaca dos certificados.
Pra quem tem essa mente hiperativa os exercícios ajudam voltar ao corpo. Tenho caminhado onde moro e talvez pela 2a vez na vida, vejo surgir uma gratidão por viver aqui, já que os jardins e a distância ajudam não prejudicar o confinamento - além dos vizinhos se afastarem quando nos cruzamos, com tanto receio quanto eu com relação à Covid 19. Acesso vídeos de dança, tai chi, pilates, yoga e alguma live de dança, dependendo do humor e ânimo do dia. Suar me desacelera e uma das descobertas da quarentena seja de que dançar em casa não dá vergonha de ser descoordenada. Tenho exercitado também fazer 15, 30 min diários quando estou borocoxô feito semana passada.
Ainda é muita coisa? Para quem costuma viver no ritmo dum trem bala, passando por paisagens deslumbrantes, mas vendo tudo borrado é um baita avanço - vai por mim! Penso que se não estou afogada com filhos e trabalho feito amigas mãe ou num home office insano, posso passar esta temporada enxergando a ocasião como sabático sem grana, nem possibilidade de sair. O maravilhamento atual é que férias sem grana me emputeciam porque sou a sagitariana doida das viagens, mas no isolamento tenho curtido inventar o que fazer, intercalando com algum trabalho - com consciências de que é um privilégio e que com asma não posso ir pra linha de frente dos trabalhos solidários. Para quem é elétrica, inventar muita coisa é meio pinga: não conseguiria ficar só no sofá e acho falta de imaginação tédio entre privilegiados. Para minha personalidade e transtorno, fazer de cinco a três coisas em casa já é uma melhora inacreditável. Claro que não conto cozinhar ou arrumar o apê - isso não tem escapatória, mas já comemorei me mimar com comida na contramão do fast food, me diverti limpando altar, brinquei dando um tapa nos móveis e ainda fiz faxina pedagógica: é surreal não darmos conta da nossa limpeza, chamar a diarista que limpa o prédio e inaceitável que parece que sempre haverá quem precise disso. Em tempo: a paguei para não vir no começo, mas há perspectiva da verba minguar, não voltarmos e precisar de alguma reserva.
Brinquei quanto ao sabático, mas lá nos colégios nos demandaram planejamentos - que fizemos sobre nuvens, sem ideia de em que nos basear, já que não temos ideia do retorno, reposição ou como redesenharão o avariado calendário escolar. Também solicitaram atividades - para o site não deu certo, pois demandava direitos autorais, trabalho muito vídeo da internet e com alguns o levantamento disso complica. Mas as mandei para os alunos nos zaps das salas, com a intenção de propor mais arte terapia, já que estava mais ansiosos que nós e sem o que recorremos contra as perturbações do confinamento. Percebi que tinham dificuldade pra entrar na página da prefeitura, que só tinha exercícios escritos, imagine para o que programei, cheio de vídeos? Quando enviei o site do museu da região de ciências, com atividades na página, outra aprendiz quis saber o que aluno sem internet faz. Para educação pública, ensinar EAD é milagre de Fátima, não é viável na realidade em que as turmas vivem. Saio disso com gratidões que não lembro de ter conscientizado pela água, Internet, saneamento, não ter violência em casa, possibilidade do auto cuidado, pelos estudos possibilitarem me expressar e abrir minha mente, pela religiosidade não picareta me devolver a paz interior que o sistema me saqueou e - quem diria - até pela Netflix. Ok, parte do sistema às vezes é necessário.
Desconfio ainda que possa ainda voltar ao tratamento questionando se tenho mesmo bipolaridade mesmo.
Por hora, parafraseando a bíblia, que a ti te baste um questionamento por dia.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Na Tenda da Lua do Isolamento


Meu vizinho toca trombone. Pela primeira vez tenho achado tocante: um instrumento de sopro e seu proprietário resistindo à tristeza que chegou como brinde do isolamento. Antigamente tinha bode dele. Pensava que era devido aos gostos musicais diversos.  E quem me vê falando assim pensa que mudei a percepção há um baita tempo. Foi só desde a quarentena mesmo. Parece que só a impossibilidade de ligar na portaria e perguntar qual o apartamento eruditamente musical para entregar couvert artístico já nos aproxima. Talvez só o medo de adoecer ou perder um ente querido nos refresque a memória que na hora desse frio na espinha, estamos todos na mesma roubada.
Cruzei o prédio dele na caminhada para espantar a melancolia. O jardim que plantamos no conjunto em que moro permite que andemos sem tanta exposição. Os vizinhos também têm se distanciado nos encontros involuntários. E pela primeira vez sou grata à quebrada em que vivo. A raridade das saídas é tanta que tenho exercitado fortemente a imaginação, tentando fazer de conta que o córrego perto não carrega sofás, material de construção e esgoto. As andanças têm sido contemplativas. Não sei até que ponto ajudarão no condicionamento.
Não é só essa caminhada que virou um evento. Uma amiga de estudos enviou um vídeo em que a pessoa se montava para jogar o lixo, como quem vai à festa. Pensei que demoraria mais para chegar a esse ponto, mas estava praticamente negociando toda fast food restante para o marido me deixar escapulir rapidamente. Como tenho asma, ele tem se predisposto a resolver lá fora a maior parte das questões. Não subi no salto para ajudar a encher a lixeira, mas saí achando a rua linda, as árvores incríveis e as pessoas uma simpatia. Me senti como minha finada avó que elogiava todos os amigos e nomes de quem apresentávamos. Encontrei o jovem vizinho. Ficamos conversando como se tivessem saias de bailarinas entre nós, mantendo uma distância saudável e criativa. Nem sei se noutra ocasião prosearíamos tanto. Mas de repente as pessoas com as quais trocávamos cumprimentos secos, ao nos cruzarmos nos corredores nesta quarentena, se não fosse perigoso nos abraçaríamos empolgadamente. Lembrando do vírus, obviamente nos contemos.
E a saga na rua com rápidas saídas segue... Consegui barganhar uma escapadela com meu companheiro e fomos à feira semanal. Como descartei as últimas máscaras ganhas da dentista, improvisei proteção com uma bandana amarrada ao rosto. Soa meio bandida estilosa e também usava pra escrever na lousa sem falta de ar lá no trabalho. Antes do adiantamento do recesso, claro! Nunca um pastel na esquina foi tão empolgante! Aumentaram a distância dos clientes aos feirantes com faixas. E mesmo nas filas as pessoas não ficam mais no nosso cangote. Sentamos no banco da rua e vimos as luzes do shopping na cidade ao lado. Deve estar fechado. Sabemos que prevenimos riscos para nós e os outros, mas lembra as mais aterrorizantes séries distópicas.
Crio para despistar memórias audiovisuais que são gatilhos para deprê. A vizinha veio ajudar com as injeções do tratamento contra alergia de ácaro, para que pudesse fugir da farmácia. A agenda para meia dúzia de coisas que planejei fazer para não ficar ansiosa diminuiu. Conversamos tanto quando veio, que sugeri jantarmos quando o apocalise acabar. Será que só na periferia as pessoas se aproximam? Emocionalmente né: fisicamente damos passos pra trás.
Lá na escola a gestão também se preocupa e pede envio de exercícios, porém quando fui encaminhar no zap dos estudantes, vi que já estavam sem banda para as atividades do site da prefeitura, imagine para acessar meus vídeos de arte? As exclusões dos aprendizes são bem mais emmergenciais do que a rede de ensino dá conta. Para não voltar à angústia devido nossa limitação na ajuda possível, volto aos estudos. As aulas seguiram online, o que nos mantém ocupados, muito embora estranhando a simulação de normalidade das faculdades. Ao menos entre os nossos seguimos ensaiando sanidade... Nem que seja para compartilhar ignorâncias!.
No embalo dos meus desconhecimentos, vejo filme e série para fugir criativamente daqui ou repor as esperanças na humanidade, depende do dia. Em outras ocasiões falo sozinha na janela. Não pago mais de maluca: nas janelas da frente há outros tagarelas. Pena que minha câmera é ruim: daria um curta metragem e tanto! Inspirada pela criatividade que emerge, crio. O que me abastece do que tenho precisado nos últimos tempos:  expressão e terapia. Quando não é dia de imaginar que estou num divã com minha psicóloga na internet, respiro. Concentro em mantra, imagens, sonhos, velas. Mas respiro, deixo que as maluquices internas surjam e passem. E pela primeira vez na vida consigo me distanciar das emoções. Lapido os sentimentos para que sejam menos rústicos. E com isso parto para a próxima semana.