segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da escola à vida e de volta...

Quem diria que até dar aula pode me ajuda no auto conhecimento! Nas últimas aulas levei esta dinâmica para debater meritocracia, já que estamos num momento decisivo de perda de direitos para discutir o tema. Tinha também produzido uma página de perguntas para ajudá-los a refletir (é, na educação aprendi que nossa atividade perguntadeira de jornalistas era uma habilidade). Nem todos vão pra zona reflexiva que queremos, mas os dois que disseram:
- Nossa se já está difícil pra nós imagine pros negros, gays...
Ou:
- Se perdermos o pouco que temos, lutarei feito Marighella!
Isso dentro de arte com a intenção de se por no lugar do outro, usar o corpo que vive sentado demais copiando ou escrevendo noutras aulas, enfim. Também explorei estes quadrinhos que deixam explícita a falácia da meritocracia.
Depois de levá-los à quadra, ver o vídeo da dinâmica feita com outros jovens, discutir e conferir os quadrinhos por dias, finalmente comecei a extensão universitária Tô No Rumo (sobre orientação vocacional) da Ação Educativa com a UFABC, que já tinha iniciado, mas tive problema nas primeiras aulas. Procurando meu bloco e sala, me toquei que nunca tinha feito nada em "facu" pública. E que de certa forma, me convenceram que era inviável, pois a maioria dos cursos tinham horários picados, "quebrando a perna" dos que tinham que trabalhar. Só prestei USP uma mísera vez, embora tenha repetido a dose de cursinho vertibular. Talvez fosse isso esse perrengue mesmo há 20 anos, já que não tínhamos ENEM, ProUni e o FIES era bem difícil (um colega de fora de São Paulo, ainda mais apertado que nós, não conseguiu). Estas pontes do trabalho à vida são sacadas que mexem comigo.
Vivenciado a arte de narrar
Em meu dia de mergulhar na paixão da "contação" de histórias tivemos aula da pós no festival internacional de histórias Boca do Céu. Além de me encantar com a colombiana Carolina Rueda, novas músicas e ampliar o repertório de contos, caí de amores (junto com meus colegas de turma da Casa Tombada) pela moçambicana Lenna Bahule: a única a criticar ludicamente a tentativa da mídia "nos por em nosso lugar" com a nota "bela, recatada e do lar" e se posicionar politicamente "volta querida". Já a maioria dos demais, se aferraram à tradição popular brasileira, que nesta altura do campeonato tem nos parecido machista e para algumas até racista. É que temos estudado e discutido A Renovação do Conto de Maria Patrini e não temos nos conformado daqui esta arte ainda não ter se reinventado.
Novo Ney
Consegui dois milagres neste final de semana: selecionar a duras penas um único show da Virada Cultural (emputeço se fico correndo dum palco ao outro, ouvindo um pouco de tudo e muito de nada) e ainda por cima arrastar as primas do ABC que pagam para não sair "do interior"... Fomos ver Liniker e bancamos as tietes retardatárias. Ainda não tinha conferido atração nenhuma do lado de fora do Sesc Pinheiros e menos ainda atrás do palco. Ele me pareceu um Ney Matogrosso jovem e ainda mais arrojado. Ainda não assisti Ney, mas "de vez em sempre" sei que minhas tias veem de novo e se rasgam de novo e de novo por este artista que vai muito além da música. Acho que a diferença é que o Liniker também circula para além do palco toda montada. Mas que graça conferir quem ainda não estrelou não? Teve uma Virada que fiz isso com A Banda Mais Bonita da Cidade, mas eles já não respondem mensagem de Face. O Liniker não, saiu tirando foto com Deus e o mundo! Ainda por cima dança pra caramba, brinca com as backing vocals, explora tão inventivamente maquiagem, figurino, acessório... Como ex repórter inveterada voltei conferindo outros vídeos que não conhecia dele e apurei: é da terra de alguns dos primos mais criativos (Araraquara, de onde também vem Ignácio Loyola Brandão), é da trupe (estudou na Escola Livre de Teatro de Santo André) e um bebê: só tem 20 anos. Mas está aí inspirando quebra de padrões e aceitação dos fãs diferentões que deve ter. Faz uma música corta pulsos chiclete que é mega canceriana, passamos horas cantando e como disse um fã na web "o som dele transa com a gente". Como se não bastasse, vários momentos virou um manifestashow: "fora Temer", "ai, ai, ai empurra o Temer que ele cai"!
Só sei que esta nossa representação brazuca soul é uma paixãozinha e como diria outra amiga da educação e comunicação muito mais militante "mais uma prova de que a nova geração arrebentará".

terça-feira, 17 de maio de 2016

O Otimismo é a Única Opção

Vivenciar o misto de militância-cultura-feminismo borbulhar nas veias. Esta foi a experiência de acompanhar o bloco percussivo feminino Ilu Obá de Min com as baianas da Vai Vai na Bela Vista. A bandeira exigindo os ministérios extintos de volta. A prosa com a amiga prima adotiva "tudo que nos restou é resistir na esperança". Uma professora dela ensinou que o otimismo é revolucionário. Ainda mais em tempos politicamente sombrios...
Ganhei meia bolsa para aprender algumas técnicas do Romanovsky: o que pode ser mais revolucionário que a generosidade nesta temporada de crise? Recebendo esta terapia corporal de liberação emocional, senti que os pontos pressionados na barriga tiveram a ver com romper tardiamente o cordão umbilical da relação passional demais com minha mãe. Rolou um choro, mas depois a alegria era tããããão intensa! E aquela curiosidade "gente, o que pode ser a vida sem tensão"? Vontade danada de reverberar o que abençoadamente ganhamos! Ser multiplicadora é uma rebeldia com causa!
Uma antiga estudante, que só Buda sabe como criamos laços em meio ao caos de dar aula na várzea do Estado, me procurou receosa pois já haviam expulsado alunos de outras ocupações nas escolas de São Paulo, sem mandato de posse, obviamente com violência, sem deixarem fazer corpo de delito e estava com medo devido à polícia na porta (porque será que em boca ou quebradas piores eles não intimidam assim hã?) e a diretoria contra. Explorei minha experiência contatando todas mídias alternativas possíveis, engolindo indignação emotica, incentivando que os adolescentes é que estão nos fazendo acreditar na gestação do mundo novo e cantando Legião com voz embargada: "é o bem contra o mal/ e você de que lado está/ estou do lado do bem/ e você de que lado está? (...) com a luz e com os anjos/ mataram um menino/ tinha arma de verdade (...)".
É como se a leitura das biografias da Pagu, Chiquinha Gonzaga, Iara Iavelberg, Anita Garibaldi, Olga Benário e Rosa Luxemburgo e as passeatas pelas mulheres, pela paz e contra o aumento das passagens finalmente descessem do mental ao coração. Um pertencimento inenarrável, como diria um locutor exagerado como eu. Uma razão de ser que dá força que estamos precisando neste momento crítico.
Revendo minha ex estagiária, meu primeiro ensaio para professora, quando a ouvi reclamar da "corporativolândia" não tem jeito, é assim, não me aguentei:
- Tem sim, sempre terá! A gente se apega a comer sendo bem servida como aqui, mas não podemos achar que a vida é esse raso inebriante. Sem querer estes dias contabilizei uma dúzia de economias da assessoria de comunicação ao magistério. Mas ouvir que tinha um texto bom ou fazia uma boa divulgação lá, era só um trabalho bem feito. Conseguir fazer meus alunos criarem, ensaiarem, fazer jogo teatral, ajudar uma aluna, saber que a gestão reconheceu que trabalho com amor... É uma razão de ser, uma militância educacional. É querer estudar nas horas vagas, nos formar pra além da sala de aula.
Dei uns desafiozinhos pra ela começar um desmame do quanto a opressão corporativa nos faz crer que é isso mesmo, não tem saída...
Em meio ao programa de coaching, auto conhecimento e empreendedorimo que tenho feito virtualmente, a missão que tanto discutimos online que precisamos encontrar fez um "poim" na minha cabeça. O dia fica lindo, a gente quer chorar, esparramar este sentido ao planeta terra... Eu sei, para quem sempre tirou sarro das abordagens "podicrê" demais, soa estranho... Mas sem que nos trabalhemos pra chegar aí nesse centro de nós mesmos, é difícil por em palavras. Como explicar a quem faz passeata pelo ódio o pertencimento de quem marcha junto pelo amor. Não é cerebral mesmo, é passional demais pra racionalizar...
Fechando com chavinha de ouro estes últimos dias em que não uma ficha, mas um cassino inteiro caiu, estava voltando da médica ouvindo no elevador funcionários do prédio de consultórios reclamarem que só tinha feriado semana que vem e não aguentei:
- Gente, vocês precisam de outro trabalho!
A militância amorosa com propósito precisa ser disseminada de cima abaixo, da direita à esquerda.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Do Diário de Bordo que Me Devo Desde a Faculdade de Teatro

Quando assumi que desde que me meti nas coxias não consegui meu coração de volta, um de meus diretores ensinou o Diário de Bordo. Tentei fazê-lo algumas vezes, mas alguma crise com o personagem, um pé dentro e outro fora do jornalismo ou deprê me impediram de continuar. Resolvi retomar virtualmente a empreitada pois dou aulas três vezes por semana e abençoadamente faço a formação em teatro do oprimido da prefeitura, a pós em contação de histórias da Facon pela Casa Tombada e farei
extensão das dinâmicas para orientação profissional ao jovem do programa Tô No Rumo da Ação Educativa pela Federal do ABC. A pós vive nos fazendo voltar para casa procurando um "chão literário pra chamar de nosso", mas sempre sabendo que quando encontramos, não funciona com todos os públicos e em todos os espaços - já que criação é sempre essa matéria prima fugaz e inebriante. Na formação em TO reencontrei o professor que tentei estudar anos atrás na ocupação do centro antigo de São Paulo, mas o cansaço de trabalhar a 4 horas de casa, dez horas por dia ma biblioteca do Colégio Santa Maria
acabava me fazendo voltar pra exausta e dormir quase sempre acabada. "Agora não Pantaleão", parafraseando um personagem de Commedia Dell Arte. Tem me feito tão beeeeem! Nesta semana no exercício de criarmos uma viagem com sons e movimentando o parceiro na dupla de olhos fechados, levei o colega pruma floresta, mas confirmei que se não enxergar o que imagino, meu colega também não voa longe (nesta altura do campeonato é até difícil resgatar se a "contação" ou o próprio teatro me trouxe
isso). Fazendo com o corpo o que realizávamos naquela hora do dia em que os professores sugeriam não aguentei quando um colega foi mostrando que não faz muito trabalho doméstico (nossas expressões corporais nos levaram pruma discussão de gênero):
- Com quem você mora?! - estranhei (ah, a feminista que carrego pra cima e pra baixo não se resigna a passar desapercebido). Me denunciei fazendo vários movimentos de costas... Sei lá porque catzo!
Completamos com o bom e velho campo minado: esparramando sapatos pelo chão, colega vinha de
olhos fechados, cantávamos baixinho se ele estivesse longe dos obstáculos, mas se aproximasse fazíamos um escândalo! Se por acaso encostasse na "mina" aproveitava para explodir cenicamente. Ou seja o exercício era delícia de ponta a ponta. Depois deitamos, desenhamos de olhos fechados, nomeamos a imagem que criamos intuitivamente, da primeira palavra fomos poeticamente para outras até desaguarmos num poema e então fomos encontrando movimentos solo para nossa poesia até que conseguimos cruzar essas danças poéticas. Da primeira "tranquilidade" cheguei a "abraçada pela maresia/ aconchegada pelo sol/ entregue à marola". Voltei tããão animada, fiquei contando ao namorido, cismei de levar às salas, ele foi realista "nós gostamos por curtir essas propostas". Na primeira noite, descobri que um dos alunos passou por oficinas do Agente Jovem, aprendeu teatro e composição lá e é educador dessa iniciativa. Ele me ajudou pois inicialmente os estudantes estavam mais arredios, então fizemos a roda em que nos atentamos aos parceiros que estão de um lado e de outro, descruzamos as mãos, andamos pelo espaço, paramos, buscamos as mãos dos colegamos que tínhamos ao lado, viramos uma corrente e vamos desenroscando sem soltar as mãos até voltarmos ao círculo. Se divertiram lá no pátio da escola. Tentei fazer a Hora do Dia em roda que foi como encerramos discutindo, mas já estavam a meio mastro, loucos pelo intervalo. Já na turma com mais senhores depois, cada exercício foi um pequeno grupinho que tentou, mas acabaram criando a viagem que dei de exemplo no ouvido dos amigos, então não sei bem onde foi parar a criatividade deles. Voltei "cabreira": claro que estudo também por mim, mas se não consigo reverberar, de que vale? Nesta quinta revi com outros estudantes o que tinha experimentado teatralmente com o professor de português, que incentivou cenas antes do feriado... E nós lá com a demanda de apresentar algo na semana que vem, porque virá o pessoal do projeto Quem Ama Abraça e queremos mostrar o que temos incentivado nesta discussão de violência contra mulher. As cenas deles eram até bacanas, mas devido ao improvido e pouco ensaio, se atropelavam nas falas. "Tirei da cartola" a cena de várias violências no ônibus explorada semestre retrasado num projeto de outro colégio, escrevi na lousa, ensaiamos, dei algumas direcionadas e o professor parceiro ficou de ajudá-los semana que vem, já que apresentarão em dia que não tenho aulas. Encomendei fotos ao colega da secretaria e saí entendendo que militância é essa dentro do ensino público, afinal não pude comparecer à passeata que me chamaram virtualmente contra o famigerado golpe. Também tem luta pra cá das trincheiras! 
P.S.: Priorizo as fotos das aulas de teatro do oprimido aos registros do colégio pois esta semana a formação livre deu tanto "ziriguidum" que troquei muito com os professores, ganhei música pra cantar ao namorado pois fiz mímica andando de moto, relembramos as cenas e poesias que nos tocaram pelo caminho (recordei lá da contação do Sagrado Feminino na Cirandha da Lua, mas vindo lembrei das crianças chorando no Shakespeare Apaixonado, das discussões que rendiam no teatro de rua do abrigo Arsenal da Esperança e a menina dizendo que a contação no Teatro Real tinha sido tão bonita e eu engolindo choro). Também saí com a pulga atrás da orelha porque o professor contou que disseram na tese dele que a arte em projeto social ou prepara o indivíduo para a exigência da criatividade no mercado de trabalho ou acalma os ânimos dos que não se encaixam (ai, tão eu).
P.S.2: O colunista Mainardi, que saiu do Brasil, mas o país não saiu dele, escreveu numa Veja criticando provavelmente os feitos culturais e/ou sociais das últimas gestões petistas: "o que eles querem? Teatro do oprimido em todas as esquinas como em Santo André"? Não Diego ainda faremos no quintal de sua casa: já praticamos em 70 países do mundo! Nos aguarde!


terça-feira, 19 de abril de 2016

Quando me reencontrei índia

Fui recebida com dança indígena nesta V Feira Indígena do Parque Chico Mendes, na "provinciolândia" do ABC. Minhas preliminares tinham sido ouvir Marlui Miranda e defender os inígenas há anos prum taxista e pesquisar lendas indígenas em livros da Ana Luiza Lacombe e Flavia Sawary. Gozado, eu que tenho bode de quem só estuda, mas eu mesma só tinha lido, escrito, adaptado ou contado sobre os povos originários. Aqueles pés marcando o ritmo no chão me pegaram pelo peito. Uma vontade de chorar. O promotor dizia pra não passar vontade, acompanhar a dança, mas eu tentava fotografar e sustentar o choro. Uma de minhas manas postiças depois quis saber porque não chorava de vez, mas eu ainda contaria histórias e a sensação que tinha é a de que chorando, tudo que conseguiria
fazer é pedir desculpas para eles pelas barbaridades de nossos antepassados. Meu namorado depois aliviou: "ninguém te apontou arco e flecha, pesa menos a mão". Fui lá querendo entender o que mais além de tomar banho todo dia nós mantivemos deles. Foi todo um aprendizado cinestésico: se tatuar, maquiar, usar brincos, adereços no pescoço ou pulso, amar peixe (apesar de não comer mais), a cura emocional dos trabalhos manuais nas poucas vezes que fiz, essa percepção das famílias dilatadas (também dos africanos), a piração com cantos e danças dos ancestrais, cura com ervas... Mais fácil perguntar o que é que eles não deixaram em mim, embora ainda não tenha ido
pruma tribo. A própria "contação" de histórias dos meus avós e pais, não é só cabocla, mas também indígena e afro. Queria embrulhar a feira e levar pra casa, fazer "carnê Casas Bahia" com tudo que foi artesanato, pintura, enfeite... Até as presilhas... Vem deles! Senti uma vergonha das escolas em que estudei nem abrirem a boca sobre eles e quando muito, transmitir aquela educação colonizada, cheia de estereótipos. Eles é que precisavam nos ensinar. Perguntei pra um deles se não dava dó da gente por aquelas arma tão artesanalmente caprichadas na parede, porque o uso deles é tão outro! Mas ele  entende que pra nós vira enfeite. Uma índia "meio brazuca, meio latina" (casada com um hermano) me emprestou a barraca dela pra também contar histórias. Precisávamos aprender mais da
generosidade indígena. Não sei precisar o que é que a plateia deu, mas dilatei a lenda indígena de surgimento da noite, pois estava à vontade tanto na mitologia quanto com o público cantando, acompanhando, se perguntando o que vinha depois. Sabe aquela presença de na hora de falar dos curumins, olhar pro bebê pintado aos meus pés brincando com percussão? É sobre a impossibilidade de comparar isso com os "bom texto/ boa divulgação" que às vezes tento em vão explicar pros já rendidos pelo capitalismo. Lancei meu livro Guardião da Cidade, mas fui logo avisando: pesquisei em três livros, duas professoras... Sabem como é "quem conta um conto, aumenta um ponto"! Neste fim de semana
conferi o livro desta lenda do Maurício de Souza, que tenho apresentado, meio como gratidão ao quanto me iniciei na leitura pelos gibis; é como a índia que conheci lá me indicou: algumas nos parecem meio mórbidas. O especial desses eventos são as surpresas como trocar sem prever contatos a fim de se apoiar. Sabe estas confirmações de que a vida é toda meio inesperada? A vida é tão gangorra né: este começo de domingo imersa nestas descobertas inebriantes, de encher o coração, horas depois não se deixar indignar pelas provocações verdamarelas cruzando a cidade atrás dum amigo, mas no fim do do dia finalmente me render e choraaaar com a votação "corta pulsos" do Congresso de bandidos trabalhando em causa própria. Às vezes não dou conta. Estanquei trabalho,
arrumação de mala, tudo! 
Mas voltando à subida da gangorra: estas mana que a vida providenciou tem razão, os Fulni-O são divertidos. No fim, fizeram uma dança meio que de despedida, consegui tirar foto melhor que no começo e um deles tocou chocalho na minha cabeça. Que isso leve tudo que não serve ao meu propósito! Comprei um filtro de olho gordo pra orelha e um de sonhos pros pesadelos do namorado. Nossas superstições são herança deles!
Saí meio em clima onírico do namorado agora também querer conhecer uma tribo. É meio mágico quando partilhamos estes encantamentos. Meu rosto pintado infelizmente saiu logo no capacete, o braço dele ainda está lá, marcado pra dar sorte. Foi bonito relembrar com ele que me anunciaram pro meu amigo como "uma indiaznha" e o namorido rir, no mesmo encantamento meu. Cara, acho que eles têm a nos ensinar resistência sem deixar a peteca cair - a vivência de que hay que endurecer, pero sin perder na ternura jamás!

sábado, 16 de abril de 2016

Da outra margem do rio

Há 17 meses a educação me abduziu. Por mais "desreconhecimento" que enfrentemos, não me ocorre virar a casaca e voltar ao jornalismo. Até porque (pardon revisores) a comunicação anda torcendo tão na cara dura, que dá desgosto! Mas eu não sabia o que era dar minhas horas vagas pra refletir o que fazia, incansavelmente. No jornalismo fazíamos uma palestra ou um curso livre, quase que sob tortura. Em educação lemos uma matéria, fazemos duas formações e ainda debatemos no café. É uma pinga que não me viciei na comunicação. Estranhava amigos que já chegavam ouvindo as notícias às 6 da madruga em rádio. Eu corria atrás do preju no plantão mesmo. Mas não dava pra ser jornalera (metam um acento pq o corretor não revê neologismos) lerda como papai. É longinha que entendo pq a área me evadiu (como classificariamos na educação). Mas aqui do lado de lá da margem do rio também tem suas delícias: assim como a Morena Socialista contou num post recente, não sabíamos o que era reconhecimento em redação e assessoria. Daí aluno, coordenadora ou professor te elogia e ficamos lá sem jeitao. Como homem em meio ao Clube da Luluzinha. Devo confessar que já "ficava" com a educação antes: aulinhas de redação e inglês aqui e ali. Mas o casamento não tem um ano e meio ainda. Os profissionais militam declaradamente. Por suas convicções. Melhor que antes, quando os comunicologos adotavam desavisadamente a posição de seus empregadores. Não é ver amigos bacanudos no jornalismo fora dele que me anima a ficar. É que daqui da outra margem do rio, coisas surpreendentes te tocam. Lá estamos mais acostumados a nos inflamar. Aqui o inusitado te toca. Como seus alunos cantarem um hiphop pra gente e o coração ter orgulhozinho. Lá sempre foi um climao "a gente manda prender e faz soltar". Desta margem do rio a percepção é algo como "fizemos um pouco desses poetas". P.S.: desculpem a falta de acentos e imagem de ilustração, mas a "blogagem" nasce da cama, donde tenho dificuldades sobre humanas de sair, parece que ela "tem cocaina"...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Da posição de estudante corporal

Há dias comecei a por o pé no chão. Mas ainda não posso por peso. Ainda assim dá choque, doi e é estranho. Foi mais simples botar o metatarso quebrado pra cima do que baixá-lo de volta. E foram só 30 dias de molho! Mesmo assim é uma descoberta: um dia de bota, outro sem, só em casa, depois com uma muleta e em dias sem... Já consegui tomar banho sozinha, levar a gata pra sua nova fonte (e ela curtiu, ao contrário do que aconteceu com bichanos de outros amigos), empurrar louça e lixo duma ponta à outra da cozinha. São conquistazinhas às quais prestamos atenção: nunca deixamos de aprender. Se uma trincada na lateral do pé faz isso, imagine o quanto um processo maior não dá essa percepção, sei lá, quem reaprende a falar, sentar, comer, depois dum "susto advanced" como derrame?
Já estava com a impressão de que a mudança de planos toda tinha sido uma oficina de paciência, mas meio down na minha mãe por não ter conseguido melhorar muito nisso lá. Há dias de volta em casa, penso que fui uns passos adiantes. Dá uma centrada essa história de pisar leve, feito o andar caçador da Peteca.
Vi e li muito material online sobre educação, literatura, arte e maternidade ativa. Num deles, aprendi que não se dá o empoderamento a ninguém, a pessoa precisa escavocar lá nas entranhas de si mesmo atrás dele. Me parece que com a autonomia é o mesmo: discutimos muito isso em escolas, fazer os estudantes caminharem por sua conta e risco, mas é um cabo de guerra com as famílias: tentamos estimular autonomia e esses pais, "enlouquecidos de amor" (meus incluso), tomam ou tentam reavê-la. A superproteção nas entrelinhas diz ao outro que ele não consegue. Quantas vezes dá uma dó de dar corda nos sonhos dos alunos e ver ou saber que são desestimulados depois. É o que sempre brinco: ah, espera-se que a escola os ajude com finanças pessoais, dê cabo do machismo, homofobia, transfobia, racismo? Os mande para fazer camping nos colégios (e nós também) - é tempo de menos, desafios e conteúdos demais.
Um amigo educador me visitou, ele e minha mãe discutiam comigo que a gestão é menos estressante que a sala de aula. Sei que "cheguei anteontem" para palpitar, mas prefiro a sala por ainda ter onde e como criar. Os bastidores são castrados estrategicamente por uma burrocracia sufocante.
Sondei ainda aqui e ali como estudar oficialmente (é o que interessa ao "sistemão"). As mensalidades dão vontade de chorar: de 1/4 a 3/4 dos rendimentos comprometidos. De repente aquela história de que os professores não gostam de estudar me parece tão verídica quanto a meritocracia de igual oportunidades aos filhos das periferias e dos bairros favorecidos. Quem não gosta cara pálida?
Foi uma imersão informal, digamos assim. Talvez por isso nessa esticada inesperada para lá das férias mergulhei em tempos dilatados, estou assistindo bobagens e não dou conta de estudar material escancaradamente voltado ao que faço. Ah, essa teimosia das que se viciaram nas mais de 1000 horas de cursos livres. Farei um papel de parede com eles, já que não tem lá grande serventia para além da minha formação pessoal.#SQN

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A cidade dos meus amores

Alto do Ipiranga
Nesta segunda "bebemora-se" o aniversário de uma das minhas paixões bandidas inveteradas: Sampa. Sempre brinco que precisamos ter olhos generosos para a beleza de suas entrelinhas. Paulistano está sempre correndo, então não capta essas sutilezas de como a cidade é uma graça. Mas é preciso ter olhos para ver. A maioria que reclama daqui passa oito horas no escritório (nos dias bons), mais duas de trânsito e trocentas dormindo pra se recuperar. Como captar nossos "presentinhos visuais" se rendendo a este cotidiano massacrante? Tem que ser  abduzido e doído assim? Talvez não. Alguns (não há como dizer se a maioria, pois a
Amanhecer no Terminal Sacomã
estatística sempre trabalha a favor de contabilidades "copo meio vazio") têm se reinventado, empreendido, frelado ou dado aulas em período menos hardcore. Não que eu seja um exemplo para o deleite dos respiros de Sampa não. Dei tanta aula, formação, contação, fiz tanto projeto e edição de livro fomentado ultimamente que estou enfrentando a terceira rasteira do corpo pedindo trégua. Por essas e tantas outras, acredito em educar o olhar. Dar pequenas paradas entre uma insanidade e outra, pra respirar, fotografar, escrever ou ver quem se gosta. E se fazemos isso menos do que deveríamos... Bem, a cidade segue aí dando seus rápidos
Catavento
presentinhos visuais entre um amanhecer e um entardecer, entre uma parceria e um trampo, entre uma visita e uma caminhada. Se não temos sensibilidade de aproveitar esses presentinhos fugazes... Como a culpa pode ser da cidade, se ela tem menos flexibilidade de por o pé no freio nos nossos abusos cosmopolitas que nós? Vai fazendo a contabilidade: quantas vezes fomos num dos parques urbanos e deitamos na grama até as formigas nos expulsarem? Ou o quanto seus pés sentiram a grama da praça perto do trabalho? Quantos caminhos novos você fez para
Centro Cultural da Juventude
recalibrar o olhar entre um corre e um e-mail? Quantas vezes mudou o lado que senta, escapuliu para lá da janela, trocou o metrô pelo ônibus em dias menos apertados? Então, a construção, o metrô, os bancos, a grama, as árvores, os grafites e os museus têm menos possibilidade de fazer isso que você. Faça e vá de encontro a eles.
Admito que São Paulo não é só "verde que violenta o asfalto", como diria primo Ignácio Loyola Brandão. É também a cidade da angústia: quando uma mostra cultural, histórica ou o raio que o parta resolve acontecer gratuitamente, é tudo em 48 horas, o azar é todo o seu que tem edital, planejamento, projeto ou semanário com prazo estourado para ser atualizado. Este feriado por exemplo, a dor é não poder ver Gilberto Gil pela
Igreja dos Pretos no Centro Histórico
enésima vez de graça no Clube Regatas Tietê, devido à minha temporada "Saci engessada".
Discordo do Criolo que Não Exista Amor em Essepê. De todas as vezes em que fiquei nervosíssima com serviço público deixando na mão, demissão, colega ou ficante sacaneando caprichadamente no meio da rua e chorei esquecendo que estava cercada da muvuca paulistana, sempre ouvi de desconhecidos se precisava de alguma coisa, se estava bem ou se podiam me ajudar. Minha colega das letras e colégios diria que a cidade tem essa vantagem do anonimato. Deus e o mundo do interior fala isso, mas sempre que abri o bocão, me constrangi quando ofereceram ajuda, resolvi "chorar na cama que era lugar quente", mas a cidade é tão grande que até chegar onde me escondo o mal estar já tinha passado,
Eu que venho da provinciolândia de "Sanca City"
Paulista com Angélica
acho encantadora a profusão das ideias, tribos e possibilidades. Já fui roqueira não praticante, regueira sem dread, gótica light só das letras ... Agora devo transitar entre a militante-educadora-artista-vegetariana-escritora lado B. A gente se senta pra beber com as outras turmas, discorda de 15 a 30 minutos, mas depois está todo mundo em casa, mesmo acreditando em batalhas diferentes, essa é a vantagem de estar em Sampa nos 30 e tantos anos.
Desnecessário reforçar que a cidade não é só parque-museu-boteco-natureza escondida-todos os cursos e mostras do mundo. Cruzá-la segue sendo uma chatura para os periféricos. Reconheço que melhorou com as faixas exclusivas, que preciso tomar vergonha na cara e aprender a andar de bike (nessas férias, o metatarso trincado não deixou), mas ainda tem esses bairros com duas opções de busão feito o meu, cujas demoras se resumem a escolher esperar além da paciência ou se deslocar mais até a civilização. No trânsito já fizemos de tudo mesmo: ler, fazer amigos, ensaiar, divulgar peça, brigar com defensor da queda da maioridade penal, reencontrar colegas, cumprimentar quem não lembramos quem é até agora, recordar os tempos de aborrescente...
A periferia duma cidade gigante oferece chances de solidariedade anônimas praticadas no quase silêncio da madruga. Como nas épocas em que pegava condução
Museu Lasar Segall
quatro e tanto, cinco da matina e os madrugadores já se reconheciam no ponto, brincavam e depois dum tempo de sumiço queriam saber onde tinham ido parar os colegas do amanhecer do sol a caminho do trampo. Meu sono nunca mais foi o mesmo depois dos 4 trabalhos iniciando nas madrugas, mas ainda assim cumprimentava os parceiros de ponto de ônibus rindo da minha desgraça:
- Um salve para quem caiu da cama!
E nestas temporadas desenvolvi minha teoria de que devíamos pedir na condução que todos fizéssemos uns vinte minutinhos de silêncio pelas horas de sono que todos madrugadores estavam perdendo. Acho que de tanto reverberar isso por aí, já cruzei com motoristas que apagam as luzes cedão ou tardíssimo nos busões.
Vila Buarque
Mesmo na única ocasião em que quis pedir pra lavar o chão da Fnac de Barcelona, trair Sampa e ficar lá de vez, reconheço que minhas raízes estão aqui, como dum baobá semi novo: aqui virei forrozeira temporariamente, caí de amores pela arte educação, consegui transitar do "jornalouquismo" pra dar aula, fazer projetos e contar histórias, amei e quis mandar dar um pau surra nos peguetes, fiquei doida de amor pela cultura afro, adotei um cachorrinho... É nessa profusão de possibilidades desvairadas da Pauliceia que me reinvento infinitamente. Nela ainda me repito nas postagens, como uma "jornalêra meio repetitiva" cobrindo a mesma pauta. Como Mário de Andrade, também me esparramaria pela cidade quando morrer, é onde está o coração teimoso, para onde voltamos feito lar de matrona acolhedora e rabugenta, ao mesmo tempo. Que esbraveja feito uma espanhola, faz comidinhas a lá italiana, tem a força da construção nordestina, mantem os traços japas por mais que a mistura esteja em cada esquina... É onde o corpo amolece quentinho chegando depois de horas insuportáveis de estrada, onde encontro tudo, levanto qualquer formação, estrategio ajudas e recalculo as rotas dos meus sonhos. Feliz "São Paulos", cidade de mil rostos.