domingo, 16 de abril de 2017

Feminino Abjeto em Trânsito

Depois do ensaio minha parceira cismou que era perigoso ir com a amiga dela ao ponto de ônibus e chamou um Uber. Calculamos antes de nos despedirmos: não davam nem 10 minutos e nem 10 reais até a estação de trem mais próxima. Mas já tinha sido assaltada por travesti na região e concordamos que era a melhor saída pro trabalho ter acabado tarde, minha bateria, como sempre ter terminado muito antes da hora extra artística de fim de semana e ter esquecido o carregador em casa. Nos despedimos sempre naquela batida "me avisa quando chegar". Outra companheira da antiga profissão sempre remete ao coração meio angustiado que anota a placa do táxi antes de dar tchau à amiga e só se aquieta com a confirmação de chegada da companheira. Porque pras mulheres é assim amigos hômis: trocar um risco por outro. Ou você nunca leu/ ouviu sobre abusos e inclusive estupros por taxistas e companheiros de crime destes profissionais meio assustadores? Não são nem dez minutos, mantrávamos eu no Uber e minha amiga na casa dela. Pra depois meu infindável troca troca de três conduções nas baldeações. Mas a primeira vez que o carro passou pela estação, estava na pista do meio da Marginal, a que não tinha como parar e eu correr atravessando a pista ao lado que me permitiria embarcar.
- O Waze está indicando errado o caminho. - ele justificou.
Certo. E porque raios você o segue novamente? Quis dizer, mas como as personagens do livro Uma, Duas, da Eliane Brum, as palavras travaram em mim. O aplicativo recalculava a rota, mas era como se a volta no quarteirão desse vários perdidos na minha pressa e vários pontos a favor da malandragem do motorista.
Onde estão os outros passageiros do Uber Pool solicitado pela minha amiga? Também tentei perguntar, mas a interrogação entalou no meu céu da boca.
Juro que entrei semi simpática, com aquela conversinha inicial aparentemente sem riscos, como quem quer sinalizar "acredite que não tenho medo e nem sou presa fácil, Estou em missão de paz".
Mas foram os retornos sem fim nos levar a avenidas sem saída, viadutos contra mão e de novo à pista do meio da Marginal - que mais uma vez não me permitia entrar na estação Berrini - e toda minha falastronice derreteu tapete abaixo, as conversinhas pra boi dormir fugiram pelo vidro entre aberto do banco de trás.
Ele é de outro estado, não tem ideia de como irmos onde preciso ou vai me levar pra outra quebrada que não a solicitada no aplicativo? Comi todas as unhas dos dedos na tentativa de dar outro andamento ao meu nervoso que não fosse a gastrite, nem a insônia de logo menos.
Se ele me levar pruma bocada, como pedirei socorro depois se estou sem bateria?
E eu que sempre passei mal só de apurar manchete policial pra jornal impresso em plantão no jornalismo só desejava que não virasse personagem de nenhuma baixaria de Datena. Minha família não merece nos reconhecer entre em nenhuma desova de corpos e muito menos ouvir "mas estava na rua àquela hora"?
Me sentia como minha mãe costuma reclamar, que na hora do nervoso não conseguia rezar.
Já até tinha trabalhado no Brooklin, mas é uma região reconhecível de dia, com todo o movimento do expediente comercial, só que à noite e no fim de semana aquele bairro não parecia só difícil de lembrar os caminhos já trilhados a pé, mas também assustadora. 2123941943 prédios e espaços comerciais e nenhuma alma na rua.
O motorista rodou taaaanto que uma hora perguntei, vendo umas poucas pessoas na rua:
- Veja se eles indicam onde está a estação porque o Waze definitivamente não está ajudando.
Torcendo pra que não fosse o caso dele emputecer ou piorar meu medo de todas barbaridades que lembramos nestas longas horas aflitivas.
Ele perguntou, mas ouvia de novo o Waze e rodava. Não me lembrava de várias ruas propostas pelo aplicativo e já fiz mais de um trabalho na "vila cloaca" daquele buraco do Brooklin.
"Essa porta está travada como as de criança? Como saber? Pulo? Quais as chances de me quebrar? E e de escapar"? Cogitava sem ideia se era uma possibilidade ou o medo já tinha evoluído pra pânico e de repente eu cismava que podia improvisar um episódio de série de suspense. Ou terror.
Tenho pouco tempo pra trocar e trocar e trocar de estação, caramba! Minha mente gritava, mas meu cagaço de que fosse mesmo a noite de esperar pelo pior só me permitia roer as unhas. Porque ser mulher tem isso meninos: conferir tanto as estatísticas de violência contra a gente e criar sem querer uma bomba relógio interna que "de vez em sempre" apita: "já é minha vez  de passar por isso? Mas não fiz análise o suficiente".
Oi Liga da Justiça Divina. Sei que sou uma cria rebelde e capaz de xingar inclusive no meio de uma oração como nesta manhã. Mas me livra de mais essa por favor, pode ser via Oxum, Chico Xavier, Buda, Sarasvati, Deus, quem tiver desocupado, estou aceitando. Só faltei terminar com valeu, falou. Aquilo não era uma reza. Algum deles atenderia? Temia que acontecesse o que meus amigos dizem que rola meus pedidos pra todos os santos possíves, ninguém podia me atender, porque um esperava que o outro me desse cobertura e podia terminar o dia no vácuo de novo.
Olhava os pontos de ônibus, quase pedia pra ficar neles mesmo, porque a corrida não tinha fim, mas não tinha passageiro esperando. Até que ponto isso era mais arriscado?
- Não, não começa a sair do prumo de novo. - não aguentei - É pra lá, pela Marginal. O aplicativo já errou e já errou de novo.
Sei lá o que se passou pela cabeça dele, mas entrou numa contramão e eu desci:
- Você não pode virar aqui.
Entrei no trem de perna bamba. Sem bateria, nem carregador para avisar família e amigos, fui chegar em casa uma hora pra lá do previsto e já estavam todos criando as piores teorias e se mobilizando pra pensarem juntos em como me encontrar porque o aplicativo já indicava algo de errado. Passeio pelo trem e pelos metrôs ainda fora do chão com a sensação de "salva pelo gongo". Voltei a ler o livro da história mal digerida entre mãe e filha comentada acima só no ônibus que foi me incomodando até o outro lado da cidade, em casa, onde cheguei com gente muito querida em polvorosa atrás de mim. Fui chorar meu nervoso só no dia seguinte, porque temos costume de por nosso mal estar na árvore pra consolar quem amamos.
Não é odioso ser mulher logo de cara. Mas a sociedade, o sistema e o patriarcado tornam nossa vivência assustadora e isso nos exaure emocionalmente. Tudo o que queria é "me esconder na cama que é porto seguro e acolhedor". E recarregar as baterias para as próximas guerras.

domingo, 5 de março de 2017

Só Vim Escrever

Fiz um daqueles testes definitivamente bobinhos da Internet (eles nos rementem às nossas revistas adolescentes vexatórias: "qual é a profissão dos seus sonhos"?). Não conhecia a personagem de cinema que sou de acordo com o teste. Tentei consultar uma amiga cinéfila, mas foi o link errado na pergunta. Um trecho dele, entretanto me deixou pensando: até que amorosa e profissionalmente estou madurazinha. Era de se esperar nesta fase semi nova, semi bem sucedida e semi magra. Mas tenho lá minhas estranhezas mentais brabas. Enrolei pra encontrar meu primo caipirinha e só agora que o toró caiu caprichado arreganhei as janelas. Sou como nosso avô em comum: alegrinho, mas preferimos tempo nublado. Refiz o teste para perguntar à amiga de novo, o site resolveu que sou outra personagem cinematográfica agora. Tenho destas coisas sem sentido às vezes. Volta e meia ensaio cair lá no limbo de alguma nostalgia estranha. Há tempos procurava uma playlist com músicas corta pulsos como Smiths, Cure, Cult, The Mission, Depeche Mode, Joy Division, Duran Duran, INXS... Errei loucamente nas buscas. Neste domingo pareci acertar a mão e o som down me baixou uma necessidade braba de escrever. Talvez quem mais foi sincero comigo tenha razão, tenho umas coisas internas criançona mesmo. Bem, as boas novas são: voltei à terapia. Me deu uma dó súbita dela. Não sou madura o suficiente para não quebrar pau sobre temas subjetivos como economia e nem emputecer sem sentido. Costuma cair bem deixar a poeira passar para olhar de outro jeito mais tarde. Estou para voltar a lavar a louça, dá uma assentada numas prateleiras confusas internamente. Tem me parecido quase tragicômico cortarmos relações por questões conceituais, ideológicas, militantes e econômicas, mas... Bem, em algum ponto haveríamos de divergir caprichadamente. Inspirada pelo conto que tenho estudado para um projeto teatral estes dias, Só Vim Telefonar, do Gabriel Garcia, só quis escrever. Estou me desconstruindo quase inteira dando aula, fazendo oficina cênica, estudando o que fazia sem muita reflexão antes, voltando à terapia, reavaliando a boa e velha militância, ensaiando umas parcerias aqui e acolá... Às vezes não é lá muito simples, nem indolor. Então subo nas tamancas com quem nem é o caso. Sinto muito pela minha ascendência sanguínea. A gente ferve, Não que seja o modo mais aconselhável de lidar com as dores e discordâncias: inflamando. Mas o olhar também é passível de reeducação. Estou neste processo de recalibrar o olhar, já retrô demais nuns pontos e precisando repaginar. Alguns ainda demandam revisão dos 20.000 km rodados. Sinto muito pela minha falta de óleo nas engrenagens mais enferrujadas de ouvir seus olhares. Na maioria das vezes não sei ser leve, devagar e aos poucos. Vivi aos solavancos tempo demais. Lógico, penso que sempre é tempo de desmonte, reajuste e reconexões com as peças precisando de lubrificação. Preciso encostar, por algumas partes a um passo de enferrujar para arejar, seja na mecânica ou na garagem. Quando não pudermos olhar prum rumo parecido, que abramos as janelas, portões e portas quando o outro estiver nesta reinvenção interna toda. Às vezes é caótico. Até se colocar é confuso. Noutras ocasiões nos atropelamos. Nas mais pesadas podemos descarrilhar ladeira abaixo imprevisivelmente. Mas só vim postar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Memórias de Carnaval

O Carnaval é uma festa contraditória para mim. Tenho memórias de na infância ir à matinê do Clube
Juventus com a minha vizinha, que os maldosos do prédio chamavam de bruxa do apartamento 4, como a megera do Chaves e Chapolin. Ela levava a mim e sua sobrinha. Não lembro quem caprichava em nossas maquiagens, mas íamos de Pierrô e Colombina, inclusive muito bem fantasiadas. Uma overdose divertida de confete. Aliás só assim para ir ao Juventus - ou vendo a outra vizinha jogar. Meu pai...! Sempre achei vôlei uó, da arquibancada ou na quadra.
Mas voltando à serpentina: já adolescente ia à matinê do clube da GM com minha prima IRMÃ. A questão é que acho nunca ter sido muito naturalmente da farra e me irritava já jovem da "torcida do Flamengo" resolver que era o momento ideal para meter a mão em alguma parte do meu corpo que não estava disponível - mas azar o meu. Neste período inclusive era meio "se não aguenta, nem desce pro play" ´porque lá pras tantas, em meio ao tira o pé do chão clássico passava meio mal e minha prima me sentava num canto para voltar a pular até quase destroncar o tornozelo.
Então veio uma longa e mais adequada à minha alma senhorinha temporada de retiros no Carnaval. Meditação, massagem, budismo, yoga.., Valia qualquer negócio para correr da folia. Mato, sempre muito mato. Os litorais sempre estavam num "pega para capar", que não "ornavam" com minha saudade do sossego das férias interioranas da infância.
O mais próximo que cheguei dum meio termo nesta época foi ir à Vitória com os mesmos vizinhos de sempre. Como era uma viagem de pobre, levamos 12 horas para atravessar a famigerada região dos Lagos carioca. Estes vizinhos zoaram tanto meu pai - uma figurinha caricata - que até chegarmos a excursão inteira já o zoava, porém a maioria nem o conhecia. Ficamos na época com a impressão de que todo mundo no Espírito Santo fugia pra Bahia. Houve uma certa decepção dos parceiros de programa de índio: acho que alguns esperavam aquela muvuca carnavalesca de TV e foi sossegado. Teve quem reclamasse que a galera local era feia, mas como nunca tive esse ímpeto de beijar como se o mundo fosse acabar amanhã, de fato não lembro muito não.
Houve claro diversos Carnavais com família no interior de São Paulo, Curitiba e norte do Paraná. Tranquilos, muitas sonecas, comilança, prosas em dia, visitas à parentada... Não lembro de irmos em algum clube ou festa de rua - e é provável que tenhamos ido, porém a comemoração não devia ser tradição em nenhum destes lugares, portanto nada que tenha me marcado muito significativamente.
Adulta lembro de ter ido "montada" na bailarina com amiga na Vila Madalena, acho que quando o
movimento do renascimento de Carnaval reiniciou em São Paulo. Rolaram as palhaçadas de sempre: nos perdemos, a rua estava - como era de se prever - animada, mas já estava como diz meu namorado fazendo meu supletivo de curtição perdida na adolescência. Tive bode cedo. Depois aquela baixaria de sempre, cada uma de nós com uma versão diferente da ocasião. Bem, em alguma fase eu tinha que enfiar o pé na jaca não?
Este feriado voltei aos bloquinhos para confirmar incomodamente que o tempo passeou.
Gozado que voltando duma contação de histórias semana passada com minha fã número 1 - mãe, quem seria? - cruzamos com um mar de noivas, capitães, diabinhas, enchapelados cheios de purpurina indo para algum bloco caprichado. Não sei se por vir duma batida intensa de médicos e frelas cedo, só queria cama. Creditei ao cansaço e me perdoei. Mas este feriadão lá na Marechal, só quis calçada, vazar para comer uma pizza e sentar também, Rapaiz! Envelheci e o namorido não entende o stress brabo com isso. O grande mal estar nem é a mancha no rosto comprovando isso, afinal sempre fui relaxada com cremes, mas sim a
chateação de aguentar seis programas seguidos na virada para os 30 e dez anos depois fazer duas ou três coisas e já precisar voltar e deitar. Depois vi uma galera chegar com banquinho e pensei que afinal, não era uma questão só minha esta canseira nonstop. Mas lá para as tantas passaram a mão em mim e já quis vazar mesmo.
É como desabafei com o atendente do natureba em que comi mais cedo. O que acho uma judiação é que se a mulher for apaixonada por Carnaval, ele não é amigável para nós. E no fim das contas cheguei à conclusão de que Deus, o universo gerador ou a energia criadora fazem as coisas acertadas porque nunca rolou ir para Bahia ou Pernambuco no Carnaval (este último ainda tenho impressão que curtiria, mas porque sagitarianos têm uma esperança sem noção).
Também penso que há cidades em que a cultura carnavalesca não só é mais forte como natural: parece impensável não ir atrás do bloco, conferir os bonecões ou as escolas em Salvador, Recife e Rio. E como esta cidade é um mundo, amigos no rodapé do Sambódromo também batem carteirinha não só agora, mas o ano todo.
Como estou em todo aquele processo de olhar crítica e artisticamente pro feminino no teatro, questiono se não nos convencemos que não é uma festa que nos acolge porque tem esta canseira de tentar curtir, ser abusada, enfim...
Difícil dizer. Agora que quatro dias e meio são fodásticos para cansados são. Ficar semi nova e não saber lidar, inclusive com os pais voltarem à infância é perturbador. Inclusive porque a mídia não ajuda com sua ode massacrante à juventude e à magreza - femininas, lógico. Bom... Bora para uma temporada Nerdflix.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Onde e porque o feminino se tornou abjeto em mim?

Mergulhar na oficina do feminino abjeto com Janaína Leite, do grupo XIX de teatro, na Vila Maria Zélia, tem sido arrebatador desde o teste. Já de saída, ouvir a experiência das futuras participantes, traumas, abusos, revoltas, como criaram textos ou imagens que conectassem com o tema foi tão terapêutico para meu feminino que na volta meu namorado ligou para avisar que sairia com os amigos mais tarde e como chorava no meio da condução, achou melhor me rever mais cedo.
Cena Hoje Eu Recebi Flores, com Klaviany Cozy
Não que chorar invalide ou fomente o processo, de forma alguma. Sempre atuei militando nisso, no Movimento de Mulheres do Heliópolis, inclusive artisticamente. Mas passar pelo processo pela escuta, troca, partilha tem outra potência. Minha crise de correr da maternidade por um tempão, querer agora mais velha porque levou 20 anos para encontrar um namorado parceiro, se reconhecer cansada demais, admitir que trabalhar dia e noite empate este desejo, o companheiro não se animar muito com a ideia, as opções zero de creches para quem trabalha à noite, percebendo realistamente o trabalho todo e sentindo que teria saudade braba de estudar, atuar para se jogar na necessária temporada abastecimento-troca-fazer dormir-arrotar uma criança se assenta entre os trabalhos criativos, conversas com as amigas e terapeuta, certamente com a ajudazinha da oficina. Não é porque sou cabeçuda com isso que deixa de doer. Como as amigas e primas passam por outros grilos emocionais e psicológicos, esta dor é "minha só não é de mais ninguém", como canta Marisa Monte. E nem me toquei que tudo isso viria à tona, com colegas em momentos diferentes com relação ao feminino, mas todos honestões como eu, então é um espelhamento caprichado.
No primeiro reeencontro saí percebendo o feminino abjeto em mim - porque pra gente da militância feminista é mais fácil apontar a rejeição ao feminino da sociedade. Cismei que corri da maternidade porque mergulhando nela teria que encarar tudo que é aflitivo: amamentar, parar a vidar, fazer ê um diário nosso adolescente. Éramos românticas. Você foi pé no chão: o jornalismo não colaborava, os antigos parceiros também não. Isso não foi exclusivamente seu. A sociedade não acolhe o feminino e você foi realista, Ela sabe o quanto amo antropologia e traz as aulas que tem descoberto na especialização da Federal do ABC: "instinto materno é criado pela sociedade". Por este olhar, o relógio biológico também não deve existir. O que é vontade minha de parir e o que a sociedade entubou em mim? Difícil identificar. Pelo budismo, posso desconstruir. Mas é uma labuta de queimar os neurônios.
Atuação cênica no Movimento de Mulheres do Heliópolis
crescer, pausar significativamente estudos e trabalho... Bendita a irmã historiadora cortando minhas viagens "podicrê" via What´s Up: l
Como diria Hel Mother, está tudo bem. Sim, fiz maratona dela. Curativo. Recomendo para dores de não mães tardias. Quando este mal estar bate feio também visito amigas enlouquecendo com filhos. Apazigua um pouco também.
No segundo encontro entendi que quando minha mãe dizia "não tenham filhos porque é uma preocupação muito grande para o resto da vida" estava falando da maternidade e não de mim. Era óbvio, mas na minha filhauniquice achava que estava reclamando de mim. Minha mãe disse a vida toda "aconteça o que acontecer, nunca pare de trabalhar". Talvez levei a sério demais. Mas não por egoísmo como a sociedade faz querer parecer. Ao que tudo indica é o que faço de melhor mesmo.
Há semanas ouvíamos os colegas de oficina falarem de como nasceram. Dos mais velhos era gritante a solidão das mães. Uma dizia que "naquele tempo era assim, os pais não paravam de trabalhar nem para ver os filhos nascerem". E nesta última semana, como disse nossa diretora "depois que todos nascermos, tomaremos café" e partilhamos muitas percepções em roda. Experiências fortes, muito tocantes, algumas até chocantemente sinceras foram dividas. Festejaram meu bolo de beterraba: me espantei, mas ainda estranho ficar à vontade numa função da qual sempre corri. Minha irmã lembrou que festejaram meu arroz com leite de coco e damasco no Natal. Minha mãe nunca deu espaço para nada em seu território sagrado da cozinha, ainda hoje me perco nas minhas experimentações culinárias. Talvez tenha sido estragada, mas nem todo mimado passou por este processo voluntariamente. Quem é da família ou íntimo já me acompanhou tentar cortar super proteção familiar no grito e na civilidade. Como nada funciona, nos últimos tempos tenho relaxado e deixado que façam as trocentas ajudas me me entucham, Meus pais viraram crianças da terceira idade: também não sei como lidar, porque requer uma paciência que não desenvolvi com a maternidade. Às
Experimentação do monólogo Porque que A Gente Deixa?
vezes brinco que devia poder bater como fizeram comigo pequena porque são os rebeldes anti tratamento e remédio. Mas já cheguei na fase de tirar sarro:
- E aí o seguro é bom? Já que estão se matando, queria saber porque é um tal de pururuca e pinga com tratamento de pressão alta e diabetes que vou te contar!
Voltando á oficina (muito embora esteja tudo muito interligado), esta semana a professora mostrou seus vídeos de parto, contou de seus processos familiares... Em meio à tanto choro, TPM, vídeo da Hel, prosa com amigos e terapia, cheguei à conclusão de que não tive filho porque não sou forte para isso. Mas sou para outras coisas. E muito a contragosto admito que estar em paz com isso não é permanente porque esta sociedade maravilhosa, como classificaria Hel, não colabora. Passei mal de enjoo recentemente, parente tem que vir perguntar se não estou grávida. Mas depois sou julgada quando fico com a impressão de que quem nunca gostou, falou ou lidou bem com criança terá um e eu que sempre adorei, não. Minha irmã acha que só quero um bebê, não um filho porque me angustio de saber que se transformará em adolescente. É o estrago de terceirizar nosso instinto maternal com a educação. Meu companheiro acha que penso em resolver algo ligado à infância com a gravidez, porque nem o pós parto me psiquiatra Lucy no desenho Snoopy: cobrou R$ 10 pela consulta super sônica. Por mais cabeçóide que isso tudo soe, consigo me curar de mim e não - porque estamos estudando a performer Angélica Liddell e seu texto Lesões Incompatíveis com a Vida e aquelas impressões niilistas do ser humano e maternidade são dilacerantes. Conferir trechos de suas apresentações no fim de semana me fez sentir completamente ignorante. Um salve a todas mães e não mães estupidamente sinceras, que estão ajudando a expor nossas feridas, forçar entender nossas dores e - até isso - analisar nossas maluquices.
Criação a partir das partilhas femininas
anima.
E deu uma de
Faço parte duma geração que sempre ouviu as mães incentivar estudar, trabalhar e atualmente estou como muitas amigas jornalêras da velha guarda, meio donas de casa forçadas, freelas, professoras meio período como eu, tradutoras, acadêmicas, sem ter ideia de como lidar com essa casa que nunca para de dar trabalho e nunca nos rende nada. Olhar para isso artisticamente certamente ajudará com as novas tarefas da oficina: levar uma roupa e uma ação. Ser mulher é transformador, sensível, doído e tantas vezes tachado como histérico. Vivendo duplas ou triplas jornadas nada temos de louca e sim exaustas. Vai uma louça aí? Você pode lidar com o feminino adorável mais aliviado...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Peça da década de 60 retrata inquietações atuais

Há anos atrás quando ainda interpretava razoavelmente bem o papel de quadradinha sem questionamentos muito latentes, assisti a peça A Mais Valia Vai Acabar Seu Edgar, com atores que se transformaram em meu amigo e minha professora anos mais tarde. Eles tornavam mais didática aquela velha lição da sociologia, de que ganhamos bem menos do que valemos do jeito mais lúdico possível. Já tinha encarado umas lições marxistas por recomendação duma prima um tempo antes, na Ação Educativa, mas eles descerem do palco provocando:
- Toma que a vida é tua - e soprando de volta a existência pra gente na plateia, foi um chacoalhão bem transformador. Passei anos com o flyer, pensando de dizer à minha prima professora que levasse os alunos para ver. Em tempos de redes sociais, achei um dos atores e mais tarde incentivada por amiga da área, entrei na Cooperativa de Teatro, fiz licenciatura em artes cênicas e no auge da crise da comunicação, migrei dos frelas em home office para a sala de aula.
Sei que muitos dirão que só o palco não faz isso. Tinha sim, toda uma busca paralela, com oficinas, retiros, apresentações, vivências, meditações e experimentações procurando me conhecer mais. Mas uma encenação pode sim, desmoronar uma venda falsa que só a sociedade capitalista nos faz tão bem: que os mesmos papeis caretas encaixarão em todos sem efeitos colaterais nenhum.
E mais uma nesta
linha está em cartaz em São Paulo: O Assalto, no espaço da Cia da Revista, na Santa Cecília.
À primeira vista um bancário engorda seu banco de horas extras e um faxineiro negocia para limpar sua sala. O primeiro se movimenta para comer na rua e deixá-lo terminar o escritório, mas parece começar a delirar, uma loucura tão lúcida quanto a da lixeira Estamira, em seu documentário, nos fazendo ver de modo crítico como as máquinas corporativas podem nos transformar em robôs desumanos. O faxineiro ameaça se abrir, mas faz movimento de que limpará outro andar, já que o delírio crítico do bancário não acaba, quando percebe que foi trancado ali. O bancário negocia um valor irresistível para que fumem juntos, porém o mundo corporativo parece tê-lo enlouquecido de uma tal forma, que os insultos e briga são inevitáveis. É quando o faxineiro percebe que o bancário não está apenas pirando em sua crítica social muito verdadeira de como o trabalho pode moer o sonho dos funcionários... Percebe-se envolvido no meio do golpe bem planejado pelo bancário amargurado, que toca em feridas incômodas para ambos. Em meio à solidão do bancário, confissões inesperadas do faxineiro, trocas inesperadas vão acontecendo, de forma que a tensão se instala e os espectadores aguardam ansiosos o desfecho. O faxineiro se vê meio sem saída por não compactuar com a rebeldia com razão de ser do bancário, embora este finalmente tenha dado a opção dele sair da sala. Se o bancário envolve o faxineiro em seu golpe ou este finalmente o convence de que é honesto e precisa terminar outro andar... Só conferindo para descobrir.
A encenação começa divertida, irônica e até brinca com os ritmos musicais que os personagens ouviriam. Enxergar colegas raptados por trabalhos mercenários ou a falta de opções de parte dos trabalhadores menos favorecidos corta o bom humor com os diálogos sarcásticos dos personagens. Quando o conflito entre os dois vai embrutecendo, vamos nos perguntando que saída encontrarão para o impasse entre eles.
Qual a relação da encenação atual com a antiga que conferi anos atrás e me fez vazar do jornalismo? Bem, se o espectador não for ainda protagonista da própria vida, poderá sair questionando e buscar se apropriar de sua existência. Saber que a dramaturgia de José Vicente é da década de 60 e antecipou como as relações de trabalho chegariam a contradições tão violentas dá uma curiosidade a mais para acompanhar a humanidade e dilemas dos personagens.
Temporada até 27 de abril
terças, quartas e quintas às 21h
Espaço Cia da Revista
Al. Northman 1135
R$ 40

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cagaço da consulta odontológica

O dentista é o profissional com maior licença de cala boca pra ser meio facistóide.
Explico: eles sempre entopem nossa boca com sugador, espelhinho, aquela "broca" angustiante deles fazendo zim perto das nossas amídalas e querem emplacar uma conversa que demanda respostas analíticas.
Sério eles podem até emprestar umas falas neo nazistas dos antigos taxistas dos quais corríamos de papos mais elaborados quando voltávamos de matéria longe das redações e eram os tempos áureos do jornalismo.
"Prestenção": ele pode colocar três ferramentas bucais na sua boca e soltar umas na linha...:
- E aí amigo qual o potencial da candidatura Bolsonaro?
- Grown... - você tenta esboçar um debate, mas com saliva sendo sugada e canal sento feito... Sem chance!
- Achei que você era um dos nossos mesmo... Seu pai elegia Maluf?
- GROWNN....!
- Calma rapaz... Nossos candidatos estão em alta. Você acompanhou a eleição de Crivella no Rio?
- GR...
- Aposto que você também apoia a reação dos taxistas contra o Uber!
- G...
-Ah, também não concordo que as mulheres possam abortar... É um crime e ponto final.
- ... - nisso você já tem medo que sua reação muito passional faça com que ele dê menos anestesia e te faça sentir restauro por restauro daquelas operações medievais que só eles acham tranquilas.
- É, este país só não avança porque o sangue africano dá uma empacada mesmo!
- GR...
- E estas 12713321 possíveis definições de gênero agora? No meu tempo era feminino e masculino e acabou! Faltou surra na infância desta galera LGBT toda...
- GROWN...
- Mas vem cá... Não foi ótimo terem tirado a Dilma do poder...?
É quando caio da cama assustada, olho no relógio, respiro aliviada porque foi um pesadelo.
Lembro que tenho consulta no dentista na manhã seguinte. Como a cada volta pra revisão o convênio mudou quase todos credenciados, sempre tenho medo do que ouvirei quando me inviabilizarem de retrucar qualquer barbaridade com a boca "em reformas". Não durmo mais.
Vou começar a perguntar quando ligar para ver se atendem o convênio e tem agenda qual orientação política do dentista.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

De como incentivar a leitura com seu filho

Sempre que me apresento contando histórias, seja em escolas, livrarias, centros culturais, teatros, bibliotecas, lançamentos, comemorações, formações, projetos culturais, feiras literárias ou eventos pedagógicos costumo ouvir:
- Como faço para meu filho ler mais?
A variante desta questão pode ser ser:
- Como fazer com que os estudantes leiam mais?
Bem, se os professores ou pais não saem do celular, da TV de tela de plasma, do iPad ou laptop dificilmente conseguirão esta façanha. O aprendizado pelo exemplo é tão forte que meu pai sindicalista nunca sentou ao meu lado para fazer um "piquete familiar", mas acabei tomando seus ideais como meus, a despeito da minha mãe criticá-lo por perder bons empregos na ditadura sendo meio rebelde.
Vencida esta primeira etapa, se interessar pelo universo literário infantil é outro passo e tanto. Você não curtia ler quando era pequena? Não tem problema: hoje os livros têm ilustrações muito mais ricas que quando fomos crianças, há diagramações diferenciadas, papeis novos, encadernações chamativas, um universo a ser descoberto. Empreste um pouco da curiosidade da infância pra isso.
Pergunte por novidades irresistíveis aos livreiros, pais de crianças fãs dum programa cultural ou bibliotecários. Banque o investigador literário. Apareça perto dos pequenos namorando um livro "diferentão, barroco, vanguardista". No mínimo os alunos ou filhos ficarão com a pulga atrás da orelha.
Crie um clima intimista para contar histórias: coloque música ou cante, ressuscite o potencial palhaço ou ator que adormeceu em você, interprete os trechos mais chamativos de modo brincalhão ou exagerado, coloque roupas chamativas como arremedo de figurinos, dance nas partes animadas, banque o chorão nos trechos tristonhos, interaja com o livro: abrace-o, esconda-o ou use-o temporariamente como chapéu se encontrar o artista circense escondido em você.
As propostas te pareceram arrojadas demais, você é um executivo, tem tanta burocracia escolar pela frente que mal faz o protocolar educativo, não tem ideia de onde foi parar aquela piração antiga por histórias novas?
Bem, tente então uma história emocionante como Xica, de Rosinha, publicada pela Editora Peirópolis. Costuma ser um caminho certeiro: a obra traz a história de uma peixe boi caçada, confinada numa fazenda, depois vendida à prefeitura de Recife, que pior, a transformou num enorme bicho aquático de cativeiro numa fontezinha em praça pública da capital pernambucana.
Claro, ela tinha amigos como a tartaruga ou o bicho preguiça, que tornavam o tempo aprisionada ali mais companheiro, engraçado, imprevisível e parceiro.
Porém a Xica se cansava daquelas visitas inconvenientes a tratando como miquinho amestrado.
Bom mesmo era ficar só e relembrar o por do sol no mar e suas recordações em liberdade dentro dele.
Só mesmo uma menina sensível, apaixonada pela avó e fã do balanço da praça para entender a necessidade de Xica não ser vista como um bicho tão insólito, apesar de estar fora do seu habitat natural.
A história infelizmente não é ficcional, mas graças ao ativismo de ecologistas e organismos de preservação da fauna aquática tem final mais feliz que o percurso tortuoso enfrentado pela Xica.
Tem como não se emocionar e indiretamente tratar de respeito aos animais, companheirismo, saudade dos parentes estimados que partem cedo demais, entre outras mensagens que certamente estão nas entrelinhas, mas conferindo desavisadamente só percebemos algumas?
Pois bem a literatura infantil atualmente está mais profunda, atraente, delicada, rica, diferenciada que na época em que namorávamos os livrozinhos pelas bibliotecas e escolas.
Ou suas surpreendentes linhas me fizeram voltar à infância nos últimos anos.
Permita que ela faça isso contigo também! É um caminho sem volta...