sexta-feira, 31 de maio de 2019
Pedagogia e teatro dos oprimidos
Esta semana a aula da matéria O Lugar das Performances, que faço no programa Diversitas da FFLCH/ USP no teatro do Faroeste foi na rua. Fomos à manifestação contra os cortes na educação. Não encontrei os amigos professores e jornalista com quem falei antes de chegar e quase voltei. Mas devido à curiosidade que vem comigo desde o jornalismo fui espiar a av. Rebouças, já que os manifestantes iam do Largo da Batata, em Pinheiros à Paulista. A avenida estava tomada! Me animei e subi com estudantes, professores e ativistas. Entre gritos de guerra, palmas, bandeiras, estandartes e percussão me senti muito em casa. No meio do caminho projetaram Paulo Freire num dos prédios e fiquei pensando: que tempos são esses em que temos que desenhar o que defendia o patrono da educação para colegas da área, que parecem ter entrado de gaiato no navio? Sim, tivemos uma discussão no trabalho há um tempo razoável porque levaram um trecho dele para leitura, mas na discussão tivemos que ouvir o oposto do que ele acreditava. Aquelas reuniões das quais saímos mais nervosas que entramos. Tem fase da vida em que o conhecimento é perturbador... Mas ao mesmo tempo pesquisar, assistir explicações, mergulhas em vivências que nos afetam é um auto conhecimento muito transformador. Sempre tive a impressão de ter mais vontade de estudar arte que educação. O olhar meio lógico da pedagogia em cima das documentações que nos perseguem me faz fugir de estudos focados demais no educativo. Por essas e outras estou há uns três meses como aluna especial do Diversitas para futuramente fazer mestrado. Tinha entrado por indicação duma amiga da pedagogia griô, imaginando seguir estudando as narrativas das vlogueiras cyberfeministas, pertencimento digital, renovação do audiovisual e o quanto elas narram experiências próprias ou de conhecidos. No meio do caminho fui relembrando e ensinando aos jovens e adultos que trabalho na EJA em Santo André o teatro do oprimido (TO) de Augusto Boal. Tive uma vontade de pesquisar o que tenho aprendido repassando técnicas e estudos em TO para meus estudantes. Foi então que fui selecionada para mostrar esse trabalho no seminário intercidades de práticas na EJA, que acontecerá neste começo de junho na faculdade USCS, de São Caetano. Claro que me pediram para mudar o texto explicando o que falaria porque "é só um relato de experiência". Expliquei que não, é também estudo e prática artísticas. Impressionante como a academia é petulante: se não for pesquisa científica não é estudo... Freire é tão estudado por pesquisadores daqui e fora e era completamente avesso a isso. A pedagogia do oprimido dele, pensada para colaborarmos pela conscientização do oprimido e fim de sua exploração inspirou o TO, também criado para ensaiar a revolução que sonhamos. Gozado que Santo André já deu tanta formação em TO, os próprios praticantes e estudiosos da área conhecem a região por isso. Meus estudantes têm me mostrado o quanto refletem se divertindo, como o teatro é complexo e já deram retorno em auto avaliação como "escrevi essa aula com meu corpo". É um material freiriano e tanto para seguir com estudos mais formais - por hora tenho anos de leitura, prática dos jogos e aplicação deles com as salas. Ainda não sei como será minha escolha de Sofia de tema de pesquisa. Mas além de perturbador, estudar também é uma pinga. Para a qual não temos AA. Escrever futuramente sobre isso deve fazer outras fichas caírem. E que venham novas descobertas!
quinta-feira, 16 de maio de 2019
Potência terapêutica cênica
Peças e leitura dramática femininas têm sido terapêuticas para mim. Há pouco mais de uma semana e meia, desde que virei o jogo do tratamento para "tourear" a ansiedade e angústia - mas isso é assunto para outro post. Desde que comecei me sentir melhor fiquei em maior contato com a arte - que para mim é curativa e com a cultura popular - que também pode passar uns band aids em nossas dores emocionais. E desde então senti que fazia sentido ressuscitar o blog. É meio melancólico e nostálgico ter visto tantas mídias morrerem - LPs, K7s, CDs, disquetes, VHS, DVDs... Mas com algumas mídias sociais teimamos na resistência. Porque escrever também é resistir. Voltemos à vaca fria: vi As Cangaceiras Guerreiras do Sertão no teatro do Sesi com uma amiga de longa data. Caí de amores! E olha que não costumo curtir musicais. Porém a temática nordestina, as mulheres que se uniram ao cangaço ou foram sequestradas por ele se rebelando, as brincadeiras e ironias com as situações interpretadas, além do cenário e figurino muito criativamente elaborados quebraram minhas resistências. Bom, dramaturgia do Newton Moreno sempre que conquista, desde que vi Agreste. No final os atores ainda cantavam e a plateia já tinha levantado para aplaudir de pé. É um alento em tempos sombrios uma narrativa cênica que dê um sopro de esperança feminista.
Dois dias depois vi Cenas Centrífugas, projeto do Sesc Santo André, no qual três companhias teatrais se apresentam neste centro cultural e deixam seus cenários montados e expostos ao público. Fui com meus estudantes e com eles vimos Teatro de Torneado encenando parte da história caipira da família do diretor, colocando em cena um casal interiorano e parte dos seus quinze filhos. Me apaziguou com minha raízes caboclas. Ao fim, achei generoso a abertura do microfone para dúvidas e comentários, as demonstrações de dificuldades dirigindo os futuros atores (que ainda estudam na Escola Atemporal de Artes de Ribeirão Pires), a iluminação do camarim para que espiassem a correria com figurinos e elementos de cena, além da partilha de como escolhem cenário e construíram uma carroça que só entrará na peça quando já estiver mais completa. Meus aprendizes fazem vários cliques, ficaram sem graça de falar com o grupo cênico, mas voltaram também encantados. E eu, de novo, só me reencanto com o sotaque e histórias brejeiras envolvida por peças.
No fim da mesma semana vi a leitura cênica da Borboleta Parda, da Flavia Alves, que estuda dramaturgia feminina comigo na Pinacoteca de São Bernardo. Conferi a peça embrião dela na Livraria Simples, do Bexiga. Esperava que as atrizes lessem mais e dramatizassem menos e até temia isso, porque costuma dar uma cansada, por mais que também seja atriz e escreva. Mas não: elas interpretaram mais, surpreendendo! E apesar do texto flertar com suicídio e com as fases emocionalmente perturbadas que as mulheres enfrentam, foi acolhedor, catártico e me senti representada tanto pela dramaturga quanto pelas artistas que deram vida às falas.
Como se já não tivesse mergulhado o suficiente na grande paixão da minha - o palco, onde me sinto em casa - no começo da semana seguinte vi Coletiva Pássaro com Cabeça de Mulher, também no Sesc Santo André, desta vez com amigos professores e meu companheiro. Havia me encantado com o texto delas, lido, gravado e enviado pras manas no dia seguinte ao passeio com os "alunos" na região do ABC. Num misto de performance, peça e dança, as atrizes trabalham dores, opressões, humilhações e machismos que desejamos desconstruir. Num dado momento da apresentação, mulheres vão para um lado e homens permanecem no outro, de forma que as expectadoras fiquem à vontade para trazer seus mal estar e - talvez - eles se sintam como nós quando ouvimos que qualquer coisa que queiramos "é de homem". Música, partilha de pinga, percussão e questionamento performático do patriarcado são recursos trabalhados para repensar cenicamente opressões contra as mulheres e claro, questioná-las. Deu um quentinho no coração ver uma artista provocar "derruba o feminismo excludente... o Bolsonaro..." enquanto a outra dançava esses... Sonhos? De quem idealiza uma sociedade mais igualitária. E lá também foi uma grata surpresa reencontrar a colega da oficina Feminino Abjeto, que fizemos na Vila Maria Zélia com o Grupo XIX de teatro.
Pra mim, que estou no movimento de trazer novamente pra minha vida o que alimenta minha alma e apazigua minhas angústias e ansiedades foi uma semana intensa e na qual me senti confortável, à vontade e tendo feito todas as melhores escolhas possíveis pro meu dia a dia. E são estados de espírito difíceis pra eu alcançar - porque costumo olhar para os outros e perguntar se dói tanto estar na pele deles quanto incomoda habitar a minha. Mas devo confessar que tive dificuldade para dormir umas quatro vezes, ao menos. É que me empolgo duma tal forma que quero escrever, chamar amigas pra peças, ler... E para essas madrugas de efervescência criativa criei outro ritual derruba hiperatividade: escrever e tomar chá de camomila.
Dois dias depois vi Cenas Centrífugas, projeto do Sesc Santo André, no qual três companhias teatrais se apresentam neste centro cultural e deixam seus cenários montados e expostos ao público. Fui com meus estudantes e com eles vimos Teatro de Torneado encenando parte da história caipira da família do diretor, colocando em cena um casal interiorano e parte dos seus quinze filhos. Me apaziguou com minha raízes caboclas. Ao fim, achei generoso a abertura do microfone para dúvidas e comentários, as demonstrações de dificuldades dirigindo os futuros atores (que ainda estudam na Escola Atemporal de Artes de Ribeirão Pires), a iluminação do camarim para que espiassem a correria com figurinos e elementos de cena, além da partilha de como escolhem cenário e construíram uma carroça que só entrará na peça quando já estiver mais completa. Meus aprendizes fazem vários cliques, ficaram sem graça de falar com o grupo cênico, mas voltaram também encantados. E eu, de novo, só me reencanto com o sotaque e histórias brejeiras envolvida por peças.
No fim da mesma semana vi a leitura cênica da Borboleta Parda, da Flavia Alves, que estuda dramaturgia feminina comigo na Pinacoteca de São Bernardo. Conferi a peça embrião dela na Livraria Simples, do Bexiga. Esperava que as atrizes lessem mais e dramatizassem menos e até temia isso, porque costuma dar uma cansada, por mais que também seja atriz e escreva. Mas não: elas interpretaram mais, surpreendendo! E apesar do texto flertar com suicídio e com as fases emocionalmente perturbadas que as mulheres enfrentam, foi acolhedor, catártico e me senti representada tanto pela dramaturga quanto pelas artistas que deram vida às falas.
Como se já não tivesse mergulhado o suficiente na grande paixão da minha - o palco, onde me sinto em casa - no começo da semana seguinte vi Coletiva Pássaro com Cabeça de Mulher, também no Sesc Santo André, desta vez com amigos professores e meu companheiro. Havia me encantado com o texto delas, lido, gravado e enviado pras manas no dia seguinte ao passeio com os "alunos" na região do ABC. Num misto de performance, peça e dança, as atrizes trabalham dores, opressões, humilhações e machismos que desejamos desconstruir. Num dado momento da apresentação, mulheres vão para um lado e homens permanecem no outro, de forma que as expectadoras fiquem à vontade para trazer seus mal estar e - talvez - eles se sintam como nós quando ouvimos que qualquer coisa que queiramos "é de homem". Música, partilha de pinga, percussão e questionamento performático do patriarcado são recursos trabalhados para repensar cenicamente opressões contra as mulheres e claro, questioná-las. Deu um quentinho no coração ver uma artista provocar "derruba o feminismo excludente... o Bolsonaro..." enquanto a outra dançava esses... Sonhos? De quem idealiza uma sociedade mais igualitária. E lá também foi uma grata surpresa reencontrar a colega da oficina Feminino Abjeto, que fizemos na Vila Maria Zélia com o Grupo XIX de teatro.
Pra mim, que estou no movimento de trazer novamente pra minha vida o que alimenta minha alma e apazigua minhas angústias e ansiedades foi uma semana intensa e na qual me senti confortável, à vontade e tendo feito todas as melhores escolhas possíveis pro meu dia a dia. E são estados de espírito difíceis pra eu alcançar - porque costumo olhar para os outros e perguntar se dói tanto estar na pele deles quanto incomoda habitar a minha. Mas devo confessar que tive dificuldade para dormir umas quatro vezes, ao menos. É que me empolgo duma tal forma que quero escrever, chamar amigas pra peças, ler... E para essas madrugas de efervescência criativa criei outro ritual derruba hiperatividade: escrever e tomar chá de camomila.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Livro dos Privilégios
Ganhou uma casa dos pais. Está inscrita no Livro dos Privilégios capítulo 6, página 4, no qual começar desse favorável ponto de partida permite brincar com o pai que pode fazer o que gosta, ter que ouvir que ele tomará a casa, já que ela se recusa ser bilheteira do metrô e fazer arte nas horas vagas e ainda retrucar que ele não pode, porque ela pagou a papelada em nome dela. É respondona. Foi a forma que encontrou de não brigar com o pai dando cadeirada feito as tias ou ser proibida de fazer ou ir em tudo que quer, feito a mãe e desistir do que está a fim por machismo. A mãe já é boa demais pra ser verdade. Diz a psicologia que a mãe ideal nos obriga a ser filhas pra sempre. Ela tem recusado esse papel, ainda que a depre da mãe não retroceda há três anos, desde a aposentadoria. Às vezes se magoa de ter seguido o que a progenitora dizia, pra nao ter filhos que é uma preocupação muito grande pro resto da vida, mas quando fez uma oficina cênica do feminino e estudou doula, achou a vida muito sabia de poupa-la da maternidade. Não teve irmãos. Na infância quis, mas também brincou tanto com os primos que desencanou. Brincou o suficiente pra ser abusada por dois deles, tomar bronca e apanhar, mesmo sem saber o que acontecia e se chocar porque desconfiava que havia algo de errado com aquilo. Pobre mãe, sempre deixando o pai atravessar o samba violentamente, sem conseguir defende-la, porque afinal o que seria duma mulher do interior na cidade grande sem o marido, primo casca grossa? Mesmo ganhando mais que ele? Dependência emocional é um inferno. E a que conta essa história herdou dum o jeito meio cachorro lambão de amar e do outro, o modo pé na porta de se posicionar, com uma pré disposição sagitariana de morrer quando abre a boca e uma risada de derrubar as pessoas da janela. Como diria um mestre teatral, a gente põe o pé pra fora da barriga e já se contradiz. Mas chega de falar de família, porque já terá overdose dela no Natal.
Capítulo 7 do livro dos privilégios: teve nove namorados e perdeu a conta dos bilaus amigos, de todas as espécies: o da adolescência, machista e homofóbico, do qual se conscientizou só madura, apesar de feminista leiga desde adolescente; o maníaco que até ganhou manchete de jornal; os negoes comunitários que vieram servir à comunidade feminina sem abrir o jogo; artistas mais sensíveis que ela mesma; o que queria ter filhos e a assustou já de saída; o traidor que engravidou a amante na depressão dela; o geminiano que falava mais que ela; o professor de yoga que virou reaça sem constrangimento, o tiozinho aventureiro meio cagao e finalmente o companheiro budista mais novo. Enumera só pra contar que é bissexual não praticante e que as excessões aos imaturos traumatizantes não completam meia dúzia no mercado amoroso. Já chorou mais do que mereciam em verso e prosa e até publicou. Os privilégios aqui foram nunca ter sido estuprada, nem apanhado ou ter sido roubada. Chega de drama amoroso por hoje.
Capítulo 8 da mesma tragicomédia: tem uma coleção de ex chefes jornalistas do naipe O Diabo Veste Prada. O suficiente pra ter ranço que se pagam bem, boa parte da verba terá que ir pra terapia, yoga, massagem ou retiros, pra não pirar. Com ela foi assim por 18 anos. Valeu a pena viajar, conhecer os amigos, fazer perguntas desaforadas, ser reconhecida pela voz, se encantar por assuntos inimagináveis, ganhar ingressos, se conscientizar, ganhar livros, almocar bem, cair de amores por trabalhos social, cultural e educativo. Mas foram tantos os plantões, reconhecimento baixo e insônias que terminou depre. E aqui, foi a família invasiva que ajudou nos seis meses chorando, com preguiça de viver e depois nos três anos frelando e cozinhando enquanto o jornalismo agonizava, enquanto profissiolizava a contação de histórias que fazia desde a infância. Dessa transiçao, foi pra educação, na qual inesperadamente, pode ser humana e briguenta. Entre uma pauleira e outra, teve transição apertada como atriz, na qual pode viver muitas vidas, tão diferentes das dela. Conseguiu continuar como produtora cultural e escritora. Ah, as publicações...! Os filhos que demoram a pegar estrada, mas fica feliz quando ganham o mundo.
Capítulo 9 da coletânea de sofrimentos gourmet: busca o caminho do meio com terapias alternativas, tratamentos espirituais por trocas, se movimenta, é ativista, come mais ou menos bem e viaja. Ah, como se meteu a viajar fazendo quase tudo por permutas e com duas férias por ano! Sacou com juros e correção monetária o quanto não pode ficar centrada com o pé na estrada no jornalismo.
Mas porque ela lista sua vivências nesse compilado de privilegios? Pra admitir que se aborrece com os amigos chorando problemas gourmet porque também tem. E pra se constranger enchendo os ouvidos das parceiras de "literapia" com white's peoples problems. Mas com elas aprendeu a não pedir mais desculpa.
Capítulo 7 do livro dos privilégios: teve nove namorados e perdeu a conta dos bilaus amigos, de todas as espécies: o da adolescência, machista e homofóbico, do qual se conscientizou só madura, apesar de feminista leiga desde adolescente; o maníaco que até ganhou manchete de jornal; os negoes comunitários que vieram servir à comunidade feminina sem abrir o jogo; artistas mais sensíveis que ela mesma; o que queria ter filhos e a assustou já de saída; o traidor que engravidou a amante na depressão dela; o geminiano que falava mais que ela; o professor de yoga que virou reaça sem constrangimento, o tiozinho aventureiro meio cagao e finalmente o companheiro budista mais novo. Enumera só pra contar que é bissexual não praticante e que as excessões aos imaturos traumatizantes não completam meia dúzia no mercado amoroso. Já chorou mais do que mereciam em verso e prosa e até publicou. Os privilégios aqui foram nunca ter sido estuprada, nem apanhado ou ter sido roubada. Chega de drama amoroso por hoje.
Capítulo 8 da mesma tragicomédia: tem uma coleção de ex chefes jornalistas do naipe O Diabo Veste Prada. O suficiente pra ter ranço que se pagam bem, boa parte da verba terá que ir pra terapia, yoga, massagem ou retiros, pra não pirar. Com ela foi assim por 18 anos. Valeu a pena viajar, conhecer os amigos, fazer perguntas desaforadas, ser reconhecida pela voz, se encantar por assuntos inimagináveis, ganhar ingressos, se conscientizar, ganhar livros, almocar bem, cair de amores por trabalhos social, cultural e educativo. Mas foram tantos os plantões, reconhecimento baixo e insônias que terminou depre. E aqui, foi a família invasiva que ajudou nos seis meses chorando, com preguiça de viver e depois nos três anos frelando e cozinhando enquanto o jornalismo agonizava, enquanto profissiolizava a contação de histórias que fazia desde a infância. Dessa transiçao, foi pra educação, na qual inesperadamente, pode ser humana e briguenta. Entre uma pauleira e outra, teve transição apertada como atriz, na qual pode viver muitas vidas, tão diferentes das dela. Conseguiu continuar como produtora cultural e escritora. Ah, as publicações...! Os filhos que demoram a pegar estrada, mas fica feliz quando ganham o mundo.
Capítulo 9 da coletânea de sofrimentos gourmet: busca o caminho do meio com terapias alternativas, tratamentos espirituais por trocas, se movimenta, é ativista, come mais ou menos bem e viaja. Ah, como se meteu a viajar fazendo quase tudo por permutas e com duas férias por ano! Sacou com juros e correção monetária o quanto não pode ficar centrada com o pé na estrada no jornalismo.
Mas porque ela lista sua vivências nesse compilado de privilegios? Pra admitir que se aborrece com os amigos chorando problemas gourmet porque também tem. E pra se constranger enchendo os ouvidos das parceiras de "literapia" com white's peoples problems. Mas com elas aprendeu a não pedir mais desculpa.
domingo, 9 de setembro de 2018
A ponto de comer o hidratante
Nunca foi boa em dietas. Sempre praticava mais dias de enfiar o pé na jaca e sair do controle do que disciplinados. Por décadas foi a rainha da cólica de intestino e nuns exames já meio produzidos pra dar esse resultado, descobriu uma intoleranciazinha, mas estranhava que mesmo em temporadas de abstinência do queijo, as dores batiam ponto. Até que ouviu a nutricionista, fez umas experiências, tirou o glúten, quando distraiu e colocou de novo na alimentação... Não só rolou da velha cólica como voltou a ter dor de estômago. Tirando o glúten o corpo ia ficando em paz de novo, mesmo quando enfiava o pé na jaca com os derivados de leite. Pronto, era isso o glúten. Foi quando ela, que já não comia carne há uma década, se sentiu naquele pesadelo em que desconfiou que fosse parar caso virasse vegana: não é possível se confraternizar com mais ninguém. O vento, o ar, a água e a terra têm glúten. Nunca se ligou como era viciada em pães, bolos, bolachas e que comia muito na rua devido a isso. Já está quase feito drogada:
- Estou há quase uma semana e meia sem glúten! Só por hoje!
Sente aquela irritação sem fim de quem não pode comer 2939212384134 coisas, mas quer todas. Vai tomar banho e quer comer o hidratante, tão cheiroso aquele creme. Certeza que é para a pele?
Volta à infância. Vai encontrar amigos e carrega lancheirinha: abre sua boia particular sem glúten. Como diversas vezes não tem gosto, faz um exercício budista para não dar na cara o quanto a adaptação a irrita profundamente.
Comprou pães sem glúten, sem lactose... Desenvolveu uma teoria:
- O pão que o diabo amassou é sem glúten! Veja que embalagem simpática: "ainda mais gostoso se aquecido". Só é comível aquecido. Caso contrário, nem sola de sapato não deve ser tão ruim.
Acha a vida fanfarrona. Agora que uma parte significativa da civilização se adaptou aos vegetarianos, não encontra mais nada em lanchonete, bar, restaurante, boteco, nem cafeteria do Sesc sem glúten. Sorri com fome e pede uma água de coco. Ou um açaí. Neste frio, o estômago segue com fome. Está feito modelo bulímica: cheirando o que não pode mais comer.
E na cozinha então? Agora que tinha chegado ao nível comível cozinhando sem carne, tem vontade de levantar, chamar o encarregado, reclamar da comida... Então se lembra que ela mesma é que fez, engole, mas sonha com um doce ou salgado que se pensar muito, é capaz de também dar reação.
O marido começou estranhar uns sumiços em casa..
- Viu meu creme de barbear?
- Comi.
- Mas você não passou mal?
- Ah deu um piriri, mas super de boas pra quem não tem mais cólica de intestino, nem dor de estômago.
Preocupado, deu cabo de todo arsenal cheiroso feminino: hidratante, creme de cabelo, para as mãos, os pés.
Ultimamente os amigos têm estranhado seu sumiço.
Mas está numa empreitada terapêutica empreendedora: criou os intolerantes anônimos. Tem ouvido muitas noites, de outros irritados feito ela:
- Olá meu nome é Antônio e já estou há um mês sem glúten.
- Boa noite Antônio - devem responder todos em coro.
Será esta a tal síndrome do intestino irritado?
Não querem saber. Estão se organizando para descobrir quais cremes farão menos estragos caso desapareçam com eles dos banheiros de casas, furem a dieta e comam qualquer coisa cheirosa para pele que não tenha glúten.
Esperamos que sobrevivam.
- Estou há quase uma semana e meia sem glúten! Só por hoje!
Sente aquela irritação sem fim de quem não pode comer 2939212384134 coisas, mas quer todas. Vai tomar banho e quer comer o hidratante, tão cheiroso aquele creme. Certeza que é para a pele?
Volta à infância. Vai encontrar amigos e carrega lancheirinha: abre sua boia particular sem glúten. Como diversas vezes não tem gosto, faz um exercício budista para não dar na cara o quanto a adaptação a irrita profundamente.
Comprou pães sem glúten, sem lactose... Desenvolveu uma teoria:
- O pão que o diabo amassou é sem glúten! Veja que embalagem simpática: "ainda mais gostoso se aquecido". Só é comível aquecido. Caso contrário, nem sola de sapato não deve ser tão ruim.
Acha a vida fanfarrona. Agora que uma parte significativa da civilização se adaptou aos vegetarianos, não encontra mais nada em lanchonete, bar, restaurante, boteco, nem cafeteria do Sesc sem glúten. Sorri com fome e pede uma água de coco. Ou um açaí. Neste frio, o estômago segue com fome. Está feito modelo bulímica: cheirando o que não pode mais comer.
E na cozinha então? Agora que tinha chegado ao nível comível cozinhando sem carne, tem vontade de levantar, chamar o encarregado, reclamar da comida... Então se lembra que ela mesma é que fez, engole, mas sonha com um doce ou salgado que se pensar muito, é capaz de também dar reação.
O marido começou estranhar uns sumiços em casa..
- Viu meu creme de barbear?
- Comi.
- Mas você não passou mal?
- Ah deu um piriri, mas super de boas pra quem não tem mais cólica de intestino, nem dor de estômago.
Preocupado, deu cabo de todo arsenal cheiroso feminino: hidratante, creme de cabelo, para as mãos, os pés.
Ultimamente os amigos têm estranhado seu sumiço.
Mas está numa empreitada terapêutica empreendedora: criou os intolerantes anônimos. Tem ouvido muitas noites, de outros irritados feito ela:
- Olá meu nome é Antônio e já estou há um mês sem glúten.
- Boa noite Antônio - devem responder todos em coro.
Será esta a tal síndrome do intestino irritado?
Não querem saber. Estão se organizando para descobrir quais cremes farão menos estragos caso desapareçam com eles dos banheiros de casas, furem a dieta e comam qualquer coisa cheirosa para pele que não tenha glúten.
Esperamos que sobrevivam.
A TPM me mantém em cativeiro
Baixei um aplicativo porque sou tão de humanas que erro até as contas do ciclo menstrual. A questão é que até esse programinha pra celular é machista: avisa meu período fértil, mas a chegada da TPM não. Resultado: na última descompensação hormonal mantive o encarregado da fábrica de chocolate Pan como refém. Porque essa indústria? Bom, é a mais próxima de casa e a única que todo dia faz um saldão estilo industriais vendem tudo. Ameaça fechar, mas já está há décadas deixando o bairro Santa Paula, em São Caetano com cheiro de chocolate no ar. Bom, exigia de resgate a produção da semana. Sim, somente sete dias no mês "quero mudar de sexo, cruzar a fronteira, deixar os amigos do trabalho falando sozinhos, sair pra comprar cigarros, eles lembrarem que não fumo, não entenderem nada e eu sumir sem deixar rastro". Daí que enviaram a guarda municipal para negociar quando no auge da última TPM exigia 1/4 do carregamento de chocolate mensal da fábrica vizinha como resgate do funcionário que sequestrei. A policial, também de TPM, exigiu meia produção do resgate que pedia para limpar minha barra, já que sou professora e meu surto não pegaria bem entre os funcionários públicos locais. A dona da fábrica, já na menopausa, avisou que não cederia, mas sua marqueteira, também "hormonalmente descompensada", botou panos quentes oferecendo um meio termo de 1/32 da produção que demandava, mas como contrapartida do preju eu e a policial municipal teríamos que gravar testemunhais do poder do chocolate contra a TPM. Nisso a PM atravessou o samba das negociações e eles, que não são conhecidos por bater antes de entrar, cortou abruptamente esta intrincada negociação e... Bom, agora escrevemos de trás das grades mesmo. Eu e a policial civil pedimos compaixão das manas feministas, doação de chocolates e... Bem, uma advogada que entendesse particularidades feministas também seria bem vinda... Dizem até que temos atenuante de pena quando perdemos a cabeça no auge da TPM...
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Cerrado e eu: um caso de amor
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| as férias se descarando na minha fuça |
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| os generosos indígenas nos convidavam a dançar e cantar com eles |
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| meditei pelas cachoeiras |
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| esse canto subia e emocionava os caminhantes lá em cima |
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| já destruída de abusar de mim mesma |
Nos dois dias seguintes passei horas em trilhas e micro escaladas pelas cachoeiras Almécegas I e II, São Bento, Santa Bárbara, Barbarinha e joguei a toalha na Capivara, já sem perna, $, sol e ânimo para "praticamente gravar um Lost na mata do cerrado". Nas primeiras, fiquei muito grata de poder andar, ver, mergulhar e boiar naquele banho de natureza que precisava (lembrei de crianças eternamente internadas que o Fê já contou histórias na Santa Casa). Sim, o cagaço foi embora. Pode ser inclusive que ele fosse de histórias pesadas familiares dos proprietários de parte das terras me contaminando..Vai saber? Depois da "overdose esquisotérica" de Goiás, não duvido de mais nada. Uma passarinhada típica local nos cumprimentou entre as trilhas e o albergue - tucanos, araras... Estava bom pro meu pai curtir, doido por eles! As flores do Cerrado, das mais diversas cores, nos davam uma pena da suspeita de algumas pessoas da região, de que o incêndio do ano passado tenha mesmo sido proposital (os poderosos locais parecem gostar mais dos empresários que dos turistas ecochatos)... Vi que por não ter muito contato com natureza em Sampa, chego no interior e quero ter dar conta de mais do que o corpo consegue... Resultado no quinto, sexto dia já tive que pegar leve com a perna doendo e sem $. Mas no quarto dia de vai e vem
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| não era nem o gelo que me congelava e sim não enxergar distância das pedras nos pés |
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| comi essas flores azedinhas... |
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| por do sol na Aldeia Multiétnica: como resistir? |
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| sem entender o guia quilombola numa das trilhas, caí de amores pela literatura deles |
sábado, 19 de maio de 2018
Há TPMs que "nos têm"
Em maio, uma TPM me teve. Foi nesta proporção mesmo. Não sei se um mix de problemas pequenos que se somaram e ganharam um peso maior, se quando não sofremos disso "xóvens" recebemos o mal estar com juros e correção monetária na fase... Digamos "maduras, quase caindo da árvore" ou há meses em que perdemos o pé e piramos no modo "angústia/ ansiedade descontrol". Afastem-se todos! Nem o aplicativo menstrual ajudou. Aliás, a esmagadora maioria deles avisa o período fértil. Só quero saber quando me esconder do universo porque está Tenso Pacas Mesmo. Ou pra conseguir isso tenho que passar meses informando estado de espírito, ânimo, alimentação, sono, disposição, exercício e vida sexual? Tecnologiazinha enxerida... O remédio antroposófico que já me deu a graça de passar pelo ciclo todo como se nada tivesse acontecendo, este mês não fez cócegas. Quis cruzar a fronteira, mudar de sexo, separar, jogar tudo pro alto, tive a sensação que a deprê fugiria comigo em desembestada carreira, como a fuga dos bandidos é descrita em entrevistas do programa do Datena. Mesmo depois de menstruar passei uns diazinhos do cão ainda. Geralmente vem e o mal estar emocional escorre modess abaixo, assim que desce. Apesar de ser feminista, conhecer os perigos da pílula, ter circulado nos círculos de mulheres badauês, tenho cogitado fortemente voltar a tomar anticoncepcional, emendar cartela e fugir disso. É injusto sermos reféns dos hormônios, nem usaremos mais eles! Uma noite nem fui trabalhar, parecia que ia descer e meu quadril cairia, de tanta dor no fim das costas. Cólica não tenho desde adolescente (ah, que ciclo tão gracioso, me poupando delas), mas a lombar vira um pesadelo acordada. Isso tudo bem quando comecei as danças brasileiras no Centro de Danças de Santo André e eu em dúvida se o fim das costas me arrebantava porque estava voltando à rotina de me exercitar três vezes por semana madura, quase caindo do galho ou porque ia descer. Quando desceu e em alguns dias a deprê não passou, quase liguei ao CVV. Tenho sonhado acordada em voltar à ginecologista natureba que me ajudou com fitoterápico a sair da pílula anos e anos atrás. Com esse veneninho hormonal diminuí meus ciclos de 1/3 vazando décadas e décadas atrás. Será que tem solução riponga pra TPM "do capiroto"? No nervo e proseando com amigas gringas em situação similar, pesquisei a geleia real. A primeira que encontrei, em embalagem minúscula, pensei que era produzida por apicultores albinos, na remanescente da Mata Atlântica e ouvindo Mozart, de tão cara! Depois encontrei as pílulas compráveis. E quando vamos comentar sobre a Tá Pra Morrer com umas almas insensíveis que praticamente debocham "nunca tive, não é da nossa época, coisa de 'xóvem'"... Rapaziada a gente tem até desconto na pena quando cometemos crime em TPM! Tô achando que é o caso de produzir um stand up sobre isso. Único jeito de capitalizar a dita cuja...
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